{"id":470,"date":"2009-12-11T00:32:44","date_gmt":"2009-12-11T02:32:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=470"},"modified":"2009-12-22T00:26:10","modified_gmt":"2009-12-22T02:26:10","slug":"povo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/povo","title":{"rendered":"POVO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA casa onde fui criado \u00e9 ampla, de esquina, e naqueles idos situava-se nos \u00faltimos metros da rua asfaltada. Depois dela vinha o pedregulho, que desembocava na beira do rio. Nessa regi\u00e3o fora do circuito morava o \u201cpovo\u201d. Algumas janelas eram voltadas para a parte nobre do cal\u00e7amento e outras para o lado obscuro do pa\u00eds, de onde emanavam os melhores parceiros das palha\u00e7adas da inf\u00e2ncia, desde rodar um trouxa encurvado num pneu velho at\u00e9 o assassinato regular de passarinhos.<\/p>\n<p>Mor\u00e1vamos em frente ao col\u00e9gio que nos \u201cdesasnava\u201d (para usar um verbo caro a Monteiro Lobato). Os professores maristas vinham de regi\u00f5es de migrantes e falavam com sotaque carregado de italiano e alem\u00e3o. Brasileirinhos, entr\u00e1vamos em aula s\u00f3 depois de fazer fila no p\u00e1tio e n\u00e3o come\u00e7\u00e1vamos os estudos sem antes rezar para Deus e a Santa Maria. \u00c9ramos avaliados todas as semanas por meio de pontos acumulados na nossa aplica\u00e7\u00e3o. Nas reda\u00e7\u00f5es, aprend\u00edamos religi\u00e3o e portugu\u00eas e desenvolv\u00edamos uma persona estilizada, que tra\u00e7ava nosso destino, quando deixar\u00edamos para sempre as origens e o ber\u00e7o para assumir o processo civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Mas bastava bater o sinal para que arrebent\u00e1ssemos em bando, improvisando bola de papel e meia de um futebol prec\u00e1rio e violento. Era preciso, como fazia meu pai, proibir as brincadeiras durante a semana e s\u00f3 permitir a muvuca aos domingos (s\u00e1bado era dia \u00fatil) e nas f\u00e9rias. Isso intensificava as artes e of\u00edcios das brutalidades infantis na escassa margem de tempo em que faz\u00edamos parte do povo brasileiro, improvisando nas brincadeiras a sabedoria que mais tarde garantiria a sobreviv\u00eancia no pa\u00eds em ru\u00ednas. \u00c9 como dizem hoje nos document\u00e1rios da natureza sobre le\u00f5ezinhos na savana: tudo era um exerc\u00edcio para a guerra futura.<\/p>\n<p>Nossa vantagem \u00e9 que t\u00ednhamos sido treinados nas no\u00e7\u00f5es poderosas de cultura e conhecimento. \u00c9ramos o povo de uma soma que foi abandonada e hoje exibe as feridas da na\u00e7\u00e3o deslocada do seu foco. Ningu\u00e9m mais \u00e9 brasileiro, essa del\u00edcia de ser \u00fanico num planeta de mis\u00e9rias. Somos todos ga\u00fachos, catarinenses, italianos, russos, a\u00e7orianos, baianos ou mineiros. O Brasil ficou para tr\u00e1s ou longe de n\u00f3s, como um moleque que sabia a tabuada e aos nove anos j\u00e1 fazia poemas sobre a cria\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A casa onde fui criado \u00e9 ampla, de esquina, e naqueles idos situava-se nos \u00faltimos metros da rua asfaltada. Depois dela vinha o pedregulho, que desembocava na beira do rio. Nessa regi\u00e3o fora do circuito morava o \u201cpovo\u201d. 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