{"id":474,"date":"2009-12-11T00:34:48","date_gmt":"2009-12-11T02:34:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=474"},"modified":"2009-12-21T23:39:18","modified_gmt":"2009-12-22T01:39:18","slug":"a-redacao-era-o-meu-destino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-redacao-era-o-meu-destino","title":{"rendered":"&#8220;A REDA\u00c7\u00c3O ERA O MEU DESTINO&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>A intelig\u00eancia e o texto inesquec\u00edvel s\u00e3o os legados do jornalista e escritor Jos\u00e9 Onofre, falecido no dia 19\/05\/2009. <\/em><\/p>\n<p>Trabalhei com Jos\u00e9 Onofre na lend\u00e1ria Folha da Manh\u00e3 de 1974\/75, em Porto Alegre, e na revista Senhor, de Mino Carta, nos anos 1980. Por mais de uma vez nos estranhamos. Depois, viramos amigos. Nos bares, restaurantes e, h\u00e1 dois anos, por meio de intensa correspond\u00eancia. Seleciono aqui alguns trechos das cartas que ele me enviou de uma ch\u00e1cara isolada em Jundia\u00ed, onde fazia tratamento para as feridas provocadas por uma vida inteira dedicada ao jornalismo e ao que ele mais dominava, com extrema maestria: o texto inesquec\u00edvel.<br \/>\nA morte de Jos\u00e9 Onofre nos leva para sempre do conv\u00edvio o talento, a experi\u00eancia, o testemunho e a grandeza de um jornalista que percorreu as reda\u00e7\u00f5es com sua cultura incompar\u00e1vel, capaz de nos assombrar em alguns minutos de conversa. Leva para sempre o humor que \u00e9 fruto desse preparo, dessa forma\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a marca registrada do Brasil soberano pr\u00e9-1964. Jos\u00e9 Onofre tinha lido tudo e visto todos os filmes importantes. Ficar pr\u00f3ximo dele era um privil\u00e9gio. Sem falar que, ao longo desse conv\u00edvio, os que estavam ao seu redor, escutando, ca\u00edam na gargalhada.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia que transcende \u00e9 o seu legado maior, ele, que fazia autocr\u00edtica por enxergar demais. De agora em diante, quando o nome de Jos\u00e9 Onofre for lembrado numa reda\u00e7\u00e3o, todos devem ficar imediatamente de p\u00e9. Ele esteve no front. Lutamos ao seu lado, e isso nos tornou melhores. O que fazer com esse legado? O que dizemos agora, Z\u00e9, tu, que n\u00e3o perdoavas jamais qualquer lance de mediocridade ou burrice ou mesmo sentimentalismo? O que fazer com o presente secreto de um guerreiro?<\/p>\n<p>\u201cNei, me pegaste no sufragante, como diziam em Bag\u00e9, porque n\u00e3o esperava tua resposta t\u00e3o r\u00e1pida. Ao que interessa: teu site est\u00e1 muito bonito, antes de dizer o amarfanhado \u2018graficamente correto\u2019. E, rapaz, voc\u00ea produz mais do que coelho. N\u00e3o se sabe por onde come\u00e7ar. Mas vou com calma.<\/p>\n<p>Sa\u00eddo do Incor, fui remetido a uma cl\u00ednica de desintoxica\u00e7\u00e3o em Jundia\u00ed, mas fora da cidade. Uma ch\u00e1cara grande, sem barulho. A m\u00e9dia do tratamento \u00e9 tr\u00eas meses. Para ficar vivo, fiquei aqui, no meio do mato, at\u00e9 hoje e nem penso em sair. Jornalismo, para mim, seja em que lugar for, \u00e9 uma impossibilidade. N\u00e3o consigo me imaginar me comprometendo, me dando (e recebendo) numa reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tu falas nas reda\u00e7\u00f5es que nos mastigaram. \u00c9 verdade. Sempre foi o que nos tocou deste latif\u00fandio. Se eu tivesse a poesia, como tu, talvez fosse ainda mais duro, como \u00e9 para um sujeito atrasado para um encontro e sendo obrigado a dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s queixas de um vizinho chato. Mas uma reda\u00e7\u00e3o era meu destino e eu cumpri, bem ou mal.<\/p>\n<p>Eu aqui fa\u00e7o minhas resenhas para a Carta e tento escrever as primeiras duas linhas do romance, mas ainda n\u00e3o cheguei l\u00e1. Falta insaite, como dizem os cr\u00edticos (inclusive eu) quando comentam aqueles livros que, se falados, seriam classificados (minha primeira mulher, se referindo aos meus longos papos, normalmente vazios, advertia: \u2018Est\u00e1s falando para mexer com a boca, Jos\u00e9\u2019) como tinta gasta inutilmente. Mas tens notado que n\u00e3o tem sa\u00eddo roman\u00e7\u00e3o, daqueles que ficam em p\u00e9? Talvez j\u00e1 esteja quase pronto, em algum lugar do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Eu sei, embora uma voz, l\u00e1 no fundo negue, que eu podia ter me sa\u00eddo melhor no jornalismo. Sei que \u00e9 o orgulho que est\u00e1 falando. Mas se tu fores olhar teu passado e avaliar os erros, tu entras naquela frase do Faulkner em O Som e a F\u00faria: \u2018O passado n\u00e3o tem fim. O passado sequer passou\u2019.<\/p>\n<p>Paro aqui, para n\u00e3o \u2018puxar ang\u00fastia\u2019, como diziam os personagens de Fernando Sabino em Encontro Marcado. Um abra\u00e7\u00e3o. Z\u00e9.\u201d<\/p>\n<p>RETORNO \u2013 Gosto de citar a cena em que est\u00e1vamos almo\u00e7ando numa birosca da Lapa de Baixo, onde se situava a reda\u00e7\u00e3o da Senhor, quando veio o prato feito e Jos\u00e9 Onofre lascou: \u201cJ\u00e1 tinha pisado nisso. Comer, \u00e9 a primeira vez.\u201d Comentei isso com ele e Z\u00e9 respondeu: \u201cA frase \u00e9 na fila do rancho, num dia de chuva, em que os cozinheiros v\u00e3o jogando a comida nas bandejas dos soldados. A frase \u00e9: \u201cJ\u00e1 havia pisado nisto, mas n\u00e3o havia comido ainda\u201d. Origem: ou O Mais Longo dos Dias ou Os Doze Condenados. N\u00e3o consigo lembrar.\u201d Voto nos 12 condenados, com John Cassavetes, que possivelmente disse a frase.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte de Jos\u00e9 Onofre nos leva para sempre do conv\u00edvio o talento, a experi\u00eancia, o testemunho e a grandeza de um jornalista que percorreu as reda\u00e7\u00f5es com sua cultura incompar\u00e1vel, capaz de nos assombrar em alguns minutos de conversa. Leva para sempre o humor que \u00e9 fruto desse preparo, dessa forma\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a marca registrada do Brasil soberano pr\u00e9-1964. Jos\u00e9 Onofre tinha lido tudo e visto todos os filmes importantes. Ficar pr\u00f3ximo dele era um privil\u00e9gio.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11,7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/474"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=474"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1831,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/474\/revisions\/1831"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}