{"id":478,"date":"2009-12-11T00:36:48","date_gmt":"2009-12-11T02:36:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=478"},"modified":"2009-12-21T11:05:03","modified_gmt":"2009-12-21T13:05:03","slug":"kurosawa-e-o-assobio-do-vingador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/kurosawa-e-o-assobio-do-vingador","title":{"rendered":"KUROSAWA E O ASSOBIO DO VINGADOR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEm 1960 Akira Kurosawa enfim conseguiu fazer um filme independente, onde era respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o e a dire\u00e7\u00e3o, sem interfer\u00eancia de ningu\u00e9m. O resultado \u00e9 <strong>The Bad Sleep Wel<\/strong>l (que eu traduzo para <strong>O Sono Tranq\u00fcilo da Maldade<\/strong>), uma obra did\u00e1tica sobre o funcionamento da corrup\u00e7\u00e3o num caso cl\u00e1ssico: a rela\u00e7\u00e3o incestuosa e criminosa entre um departamento estatal e uma grande construtora &#8211; ou seja, uma hist\u00f3ria que \u00e9 puro Brasil.<\/p>\n<p>Uma das revela\u00e7\u00f5es mais assombrosas, notada por Ida Ducl\u00f3s, que viu comigo o filme, \u00e9 que cai por terra a velha teoria do suic\u00eddio como sa\u00edda honrosa para os executivos japoneses pilhados com a m\u00e3o na massa. Simplesmente \u00e9 a m\u00e1fia que \u201csuicida\u201d, como nos ensina o Grande Mestre, pois faz o que quer por n\u00e3o haver oposi\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o acham coincid\u00eancia demais com o caso brasileiro? O \u00fanico que se insurge \u00e9 o filho bastardo de um desses falsos suicidas, que cria uma trama para vingar o pai assassinado.<\/p>\n<p>Trata-se de um personagem hamletiano \u2013 como notou a cr\u00edtica internacional, o que \u00e9 verdade em parte, pois se h\u00e1 elementos de Shakespeare n\u00e3o h\u00e1 uma sintonia total com a pe\u00e7a famosa. Uma das cria\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas mais significativas deste filme \u00e9 o jingle assobiado pelo vingador, uma cortina musical curta que ele executa sempre que consegue uma a\u00e7\u00e3o vitoriosa. Lembra Harm\u00f4nica, interpretado por Charles Bronson em Era uma vez o oeste, de Sergio Leone, que toca uma melodia determinada na sua gaita de boca para anunciar que veio para matar os criminosos.<\/p>\n<p>O assobio curto que chama o cavalo do mocinho \u2013 era no Zorro, Roy Rogers, Gene Autry ou em todos eles? \u2013; a m\u00fasica do casal que sela o amor eterno e que \u00e9 recuperada toda vez em que h\u00e1 enfim o reencontro; o toque de clarim da cavalaria que chega para resolver a parada; a cortina musical que veste a cara de espanto de criaturas que alcan\u00e7am a catatonia do ver, quando a verdade revelada faz surtar os protagonistas; tudo isso s\u00e3o personagens musicais que nos encantam na S\u00e9tima Arte. Aqui, no caso deste filme importante (n\u00e3o canso de dizer: n\u00e3o existe Kurosawa menor) o her\u00f3i assobia para mostrar que est\u00e1 feliz em dar mais um passo rumo \u00e0 vingan\u00e7a. Ser\u00e1 bem sucedido no final?<\/p>\n<p>Em vez de filmar o ataque ao homem que estava entregando toda a sujeira para a imprensa e a na\u00e7\u00e3o, no lugar de uma briga, com socos, pontap\u00e9s, mordidas, tiros, Kurosawa usa outro estratagema. O casal ruma para o esconderijo para salvar o vingador e ao longo do caminho passa por uma barreira policial que toma conta de um carro acidentado. Os dois chegam enfim ao local e l\u00e1 encontram o parceiro do protagonista desesperado, que conta como o amigo foi subjugado, seq\u00fcestrado e colocado dentro do autom\u00f3vel que enfim se chocou com o trem. Era o mesmo que estava todo amassado na estrada.<\/p>\n<p>\u00c9 uma extrema sofistica\u00e7\u00e3o narrativa, que deixa de lado as solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, elimina a tenta\u00e7\u00e3o de apelar para a mediocriade comercial do ver, compondo uma narrativa romanesca onde vale a imagina\u00e7\u00e3o do espectador. N\u00f3s, na plat\u00e9ia, ficamos construindo as imagens virtuais que n\u00e3o aparecem no filme, do grande sufoco passado pelo rebelde e sofrendo com seu acidente do qual s\u00f3 aparecem os ferros retorcidos. \u00c9 impressionante. Na cena final, o poderoso chef\u00e3o recebe o telefonema de um mafioso mais poderoso do que ele, d\u00e1 explica\u00e7\u00f5es, pede desculpas e se curva diante do telefone. Mortal.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 que tem de ser sempre assim?\u201d pergunta, desesperado o amigo que descobriu tudo, mas n\u00e3o tinha prova de nada. A m\u00e1fia \u00e9 profissional, sabe como se defender e tira do caminho quem quer que se interponha contra ela. S\u00e3o imbat\u00edveis. Por isso at\u00e9 hoje est\u00e3o no poder. Fatalmente \u00e9 por isso que mais este grande filme de Kurosawa permanece na sombra. No lugar dele, voc\u00ea \u201cvai se emocionar\u201d com o ex-jogador de beiseball que est\u00e1 no ermo cheio de \u00f3dio e recebe e visita do velho treinador que vai resgat\u00e1-lo para a gl\u00f3ria final em c\u00e2mara lenta e risinhos cretinos. Quando n\u00e3o acaba tudo numa grande explos\u00e3o, que no fundo significa a reten\u00e7\u00e3o dos programadores de TV, que adoram mach\u00f5es explodindo tudo para se livrarem da mocinha e ficarem juntos para sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1960 Akira Kurosawa enfim conseguiu fazer um filme independente, onde era respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o e a dire\u00e7\u00e3o, sem interfer\u00eancia de ningu\u00e9m. O resultado \u00e9 The Bad Sleep Well (que eu traduzo para O Sono Tranq\u00fcilo da Maldade), uma obra did\u00e1tica sobre o funcionamento da corrup\u00e7\u00e3o num caso cl\u00e1ssico: a rela\u00e7\u00e3o incestuosa e criminosa entre um departamento estatal e uma grande construtora &#8211; ou seja, uma hist\u00f3ria que \u00e9 puro Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/478"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=478"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/478\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1556,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/478\/revisions\/1556"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}