{"id":48,"date":"2005-05-13T21:42:56","date_gmt":"2005-05-13T23:42:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=48"},"modified":"2009-12-20T21:04:27","modified_gmt":"2009-12-20T23:04:27","slug":"brizola-do-verbo-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/brizola-do-verbo-brasil","title":{"rendered":"BRIZOLA, DO VERBO BRASIL"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Leonel Brizola lutou praticamente s\u00f3 contra a destrui\u00e7\u00e3o do Brasil, o pa\u00eds inaugurado em 1930 e devastado a partir de 1964. Nasceu como cidad\u00e3o quando foi testemunha, ainda no colo da m\u00e3e, do assassinato do seu pai, guerreiro da revolu\u00e7\u00e3o de 1923, que fora desarmado e remetido para casa e perseguido pelos tiranos que tinham jurado a paz das Pedras Altas. Nasceu como pol\u00edtico em 1945, quando Get\u00falio Vargas foi destitu\u00eddo por um golpe militar, e ajudou a fundar o PTB. Morreu testemunhando o estrangulamento total da na\u00e7\u00e3o a qual serviu como ningu\u00e9m, como o primeiro &#8211; e, portanto, jamais o \u00faltimo &#8211; dos patriotas.<\/p>\n<p>LEGALIDADE &#8211; O vasto desenho do seu rosto estava escancarado num painel em frente \u00e0 minha casa, no Col\u00e9gio Santana, em Uruguaiana, para onde acorriam os eleitores naquele distante 1958. Simpatizei com aquela cara boa e limpa e, aos 11 anos de idade, subi no muro da minha casa e berrei seu nome o dia inteiro. Ele foi vitorioso nessas elei\u00e7\u00f5es para governador, quando mudou o pa\u00eds. Estatizou a multinacional que monopolizava as telecomunica\u00e7\u00f5es do Rio Grande do Sul, fundou uma escola rural a cada cinco quil\u00f4metros de estrada e quando terminou seu mandato era o mais importante e prestigiado pol\u00edtico do Brasil. O presidente americano John Kennedy ficou irritado com ele, que tinha pago um Tamandar\u00e9 (um cruzeiro) para ter de volta a CRT, a Companhia Riograndense de Telecomunica\u00e7\u00f5es. Tinha coragem e tinha grandeza. Quando estourou o movimento da Legalidade, improvisamos um quartel no quintal da nossa casa. Empilhamos os estrados que serviam de suporte para as bolsas comercializadas por nosso pai e colocamos bandeiras em cima dessa pilha. Convocamos todos os homens abaixo dos treze anos de idade. Distribu\u00edmos as armas: paus, pedras, cabos de vassoura. Estas, eram as espingardas que colocamos a tiracolo para montar guarda. Enquanto Brizola fazia sua campanha de mobiliza\u00e7\u00e3o por uma rede radiof\u00f4nica a partir do por\u00e3o do Pal\u00e1cio Piratini, n\u00f3s nos revezamos, por uma longa semana sem aula, mantendo-nos firmes contra os golpistas. Foi nosso exerc\u00edcio de cidadania: uma representa\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o armada . Milhares de pessoas moradoras do campo vinham lotando caminh\u00f5es e carro\u00e7as para se alistar. E n\u00f3s, garotos, da cidade, est\u00e1vamos l\u00e1. Crescemos com aquela vit\u00f3ria. Levamos essa disposi\u00e7\u00e3o para as ruas em 1968. Depois, invadimos as reda\u00e7\u00f5es com nossa f\u00faria, com nossa \u00e9tica, com nossa vontade de reverter a guerra.<\/p>\n<p>ANISTIA &#8211; Quando voltaste do ex\u00edlio vieste at\u00e9 aqui em Florian\u00f3polis, Brizola. Eu trabalhava em propaganda naquela \u00e9poca. Encostei rapidamente o carro na cal\u00e7ada e fui te conhecer pessoalmente. Apertei tua enorme m\u00e3o e a todos atendias com teu garbo, teu perfil de cavalheiro, tua grandeza, teu carisma. Olhaste rapidamente para mim e sentiste que eu n\u00e3o estava dispon\u00edvel para a pol\u00edtica partid\u00e1ria. Compreendeste, sem eu te falar nada. Eu n\u00e3o podia te abra\u00e7ar, Brizola, porque o sucateamento do Brasil j\u00e1 estava na minha carne, j\u00e1 tinha me ferido profundamente e eu s\u00f3 fui te conhecer, mas n\u00e3o me alistar, companheiro leal e l\u00edder da vida que compartilhamos t\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, mas neste mesmo territ\u00f3rio nacional de tanta luta. Virei depois, al\u00e9m de teu correligion\u00e1rio &#8211; sempre voto no PDT &#8211; teu cr\u00edtico, pois n\u00e3o entendia como puderam te trair tanto, Brizola. Como no samba, foste tra\u00eddo, mas n\u00e3o tra\u00edste jamais. Porque esse era teu destino, Brizola, servir de rocha \u00e0 beira mar, servir de modelo para a na\u00e7\u00e3o, quando encarnaste o verbo Brasil, esse verbo t\u00e3o pouco conjugado e que precisa ressuscitar. Por que perdemos uma vida inteira, comandante, para tentar resgatar o que nos foi roubado quando ainda \u00e9ramos t\u00e3o mo\u00e7os? \u00c9ramos crian\u00e7as quando foste expulso, tu e teu rosto de quase menino, t\u00e3o determinado quanto um guerreiro pode ser. Por que perdemos aquela elei\u00e7\u00e3o de 89, Brizola? Consciente da minha total falta de import\u00e2ncia pol\u00edtica, mesmo assim enviei uma carta para ti que ningu\u00e9m te entregou, assim como n\u00e3o te entregaram tantas cartas de trabalhistas apavorados com o engodo Lula e com a sagacidade da direita. Falei que ias perder a elei\u00e7\u00e3o por causa de S\u00e3o Paulo, Brizola. Aquele Airton Soares, quando soube da minha preocupa\u00e7\u00e3o, pois enviei tamb\u00e9m uma carta a ele, me telefonou, sondando alguma contribui\u00e7\u00e3o financeira, pois eu trabalhava para uma empresa naquela \u00e9poca. Perdeste, Brizola, porque teus aliados eram fracos e n\u00e3o estavam \u00e0 tua altura. Perdemos contigo, mas continuaste de vela enfunada, capit\u00e3o de um navio que jamais ser\u00e1 derrotado definitivamente.<\/p>\n<p>LEGADO &#8211; Mas n\u00f3s te critic\u00e1vamos porque assim nos formaste, comandante, porque foi assim que aprendemos contigo. N\u00e3o a cr\u00edtica dos verdugos que acabaram te empurrando para fora da pol\u00edtica, apesar de tanta resist\u00eancia. N\u00e3o esses que agora lamentam da boca fora e esfregam as m\u00e3os de felicidade sinistra. Vi a noticia da tua morte pela Globo, Brizola, esse monstro que devorou o Brasil e agora clona o pa\u00eds na sua novela Celebridade, numa desfa\u00e7atez sem tamanho, esse monstro endividado at\u00e9 o osso, sugador de recursos p\u00fablicos, incompetente e que tentou te roubar uma elei\u00e7\u00e3o, a de governador do Rio em 1982, Brizola. Todo mundo viu como derrotaste o monop\u00f3lio, querido amigo que agora nos deixa para todo o sempre. Como enfrentaste as c\u00e2maras e lutaste por uma democracia que afinal n\u00e3o veio. Voltamos \u00e0 ditadura, Brizola. A mesma que te viu nascer, naquela d\u00e9cada de 20 t\u00e3o importante para ser estudada. \u00c9 a mesma ditadura, querido amigo. Eles entregaram o pa\u00eds, endividam at\u00e9 o osso, pegam dinheiro emprestado sem parar para no fim entregar toda a soberania. Desces \u00e0 terra como o maior patriota deste pa\u00eds ainda vivo, Brizola, porque n\u00e3o deixaste morrer. Teu nome come\u00e7a com as mesmas letras de Brasil. Nos ensinaste a conjugar esse verbo, e vamos conjug\u00e1-lo todos os dias da nossa vida. Queremos a\u00e7\u00e3o, comandante. N\u00e3o teremos mais tua an\u00e1lise, teu texto, tua advert\u00eancia, tua lucidez a servi\u00e7o da honestidade e da na\u00e7\u00e3o. Mas temos teu exemplo. Temos teu corpo, comandante, em nossas m\u00e3os prec\u00e1rias. E te depositamos no solo da terra amada com todo o mar infinito em nossos olhos. Agora somos tu, Brizola. Agora somos o sonho que carregaste em vida e que iluminas, bem posto na eternidade. Mesmo teus inimigos ter\u00e3o que se curvar. Mesmo teus falsos amigos ter\u00e3o agora que lamentar. Mas o povo te carregar\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o como um fogo sagrado que nada nem ningu\u00e9m jamais apagar\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonel Brizola lutou praticamente s\u00f3 contra a destrui\u00e7\u00e3o do Brasil, o pa\u00eds inaugurado em 1930 e devastado a partir de 1964. Nasceu como cidad\u00e3o quando foi testemunha, ainda no colo da m\u00e3e, do assassinato do seu pai, guerreiro da revolu\u00e7\u00e3o de 1923, que fora desarmado e remetido para casa e perseguido pelos tiranos que tinham jurado a paz das Pedras Altas. Nasceu como pol\u00edtico em 1945, quando Get\u00falio Vargas foi destitu\u00eddo por um golpe militar, e ajudou a fundar o PTB. Morreu testemunhando o estrangulamento total da na\u00e7\u00e3o a qual serviu como ningu\u00e9m, como o primeiro &#8211; e, portanto, jamais o \u00faltimo &#8211; dos patriotas.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[14],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1417,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions\/1417"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}