{"id":480,"date":"2009-12-11T00:38:27","date_gmt":"2009-12-11T02:38:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=480"},"modified":"2009-12-22T00:24:52","modified_gmt":"2009-12-22T02:24:52","slug":"cuidado-johnny-mcqueen-esta-morrendo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cuidado-johnny-mcqueen-esta-morrendo","title":{"rendered":"CUIDADO, JOHNNY MCQUEEN EST\u00c1 MORRENDO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAcompanhe Johnny McQueen, o rebelde irland\u00eas ferido num assalto. Acompanhe James Mason, no papel de Johnny, em mais uma obra-prima de Sir Carol Reed, <strong>Odd man out (O Condenado),<\/strong> de 1947. Ele sangra pelo bra\u00e7o esquerdo, imobilizado por uma bala disparada pela sua v\u00edtima, que morreu ao tentar prend\u00ea-lo. Johnny, condenado \u00e0 morte, fugitivo da cadeia e chefe da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que assumiu a vanguarda do movimento pela liberta\u00e7\u00e3o, \u00e9 um p\u00e1ssaro ferido, que passa de m\u00e3o em m\u00e3o pela cidade apavorada, onde todos os conhecem e ningu\u00e9m lhe d\u00e1 guarida.<\/p>\n<p>Todos se livram do moribundo: as senhoras bondosas que fizeram curso de primeiros socorros e o recolhem da rua e depois se arrependem; o marido de meia idade que chega atrasado porque h\u00e1 barreira policial pela cidade inteira, e fica desesperado com a presen\u00e7a do fugitivo na sua sala; o cocheiro que o joga num terreno baldio; o atendente do balc\u00e3o que o tranca num canto do bar; o mendigo que tenta conseguir a recompensa; o pintor que o rouba para retratar o olhar de algu\u00e9m que v\u00ea a morte.<\/p>\n<p>Cuidado com Johnny, ele \u00e9 o cinema que chega ao n\u00edvel do g\u00eanio e se despede. Ele \u00e9 a S\u00e9tima Arte que atinge o status de cria\u00e7\u00e3o humana cl\u00e1ssica, a mesma que pode inspirar uma revolu\u00e7\u00e3o, como aconteceu com Renascimento, na \u00e9poca em que os s\u00e1bios e a cultura da Antiguidade foram revisitados por uma civiliza\u00e7\u00e3o exausta, que nesse retorno encontrou a salva\u00e7\u00e3o. Precisamos acompanhar todos os passos de Johnny pelos becos de Dublin, pelo mosaico do diretor fundamental, Sir Carol Reed, que ilumina seu personagem terminal embaixo da chuva e da neve, enquanto as pessoas perdem tempo falando asneiras, sem se lembrar que todos nasceram condenados, \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo.<\/p>\n<p>O destino de Johnny e do cinema est\u00e1 tra\u00e7ado. Ele tentou enfrentar o poder e saiu de l\u00e1 pingando sangue, ca\u00e7ado pela brutalidade, a mediocridade, o medo, os interesses, as obsess\u00f5es. A \u00fanica coisa que pode salv\u00e1-lo \u00e9 o amor, que ele n\u00e3o notou quando havia tempo. Johnny estava distra\u00eddo, assim como n\u00f3s. Estava focado na sua miss\u00e3o, sem reconhecer que a vida, a mulher que o amava, estava do seu lado, mais do que qualquer companheiro de luta. Johnny n\u00e3o estava mais s\u00f3, mas ele n\u00e3o acordou para essa janela de luz que incidia sobre seu rosto marcado.<\/p>\n<p>Ele tinha um compromisso, uma responsabilidade. Precisava dar um golpe no poder, seq\u00fcestrar o dinheiro, cacifar a revolta. Foi punido porque estava perto demais de conseguir algo, romper o dique que mant\u00e9m as pessoas presas, alienadas, perdidas. Faz parte de uma consci\u00eancia popular, de massa, j\u00e1 que todos os cidad\u00e3os da Irlanda sabem que s\u00e3o uma na\u00e7\u00e3o invadida e que est\u00e3o em desvantagem diante do inimigo que os transforma todos em moribundos, em pacientes terminais de uma vida sem sentido. Por isso Johnny \u00e9 perigoso, por isso o poder exulta por t\u00ea-lo ferido de morte, por isso \u00e9 preciso acompanhar Johnny pela cidade sem miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>N\u00f3s tamb\u00e9m, Jonhny, acreditamos um dia que o cinema s\u00f3 iria subir, voar cada vez mais alto, transcender, nos salvar. Mas n\u00e3o foi isso que aconteceu, Johnny. Veio o macartismo, que destruiu tudo e hoje vivemos a era de ouro da repress\u00e3o e do com\u00e9rcio na S\u00e9tima Arte. Veja as locadoras, Johnny, voc\u00ea que n\u00e3o est\u00e1 em nenhuma delas. \u00c9 um a\u00e7ougue, uma exalta\u00e7\u00e3o do ego, uma derrota sem fim. Nada parecido com a hist\u00f3ria que Carol Reed nos conta, com detalhes que nos fazem saltar da cadeira.<\/p>\n<p>Detalhes como a lufada de ar frio e \u00famido que bate no rosto descoberto de Johnny quando as senhoras piedosas e o marido em p\u00e2nico o expulsam para a sarjeta. Como a tampa do lixo que fica rodando sem parar denunciando o paradeiro dos fugitivos com cem policiais no encal\u00e7o. Como a cena milagrosa em que voc\u00ea, Johnny, confessa seu crime para o guarda fict\u00edcio da pris\u00e3o, que veio pegar a bola de futebol. N\u00e3o era o guarda da pris\u00e3o, Johnny, era a menina muda que veio buscar o brinquedo e ficou parada te vendo e escutando tua confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Acompanhe nosso her\u00f3i tendo alucina\u00e7\u00f5es diante das bolhas da cerveja derramada, ou sentado no trono do pintor. Johnny \u00e9 o protagonista que agora senta na cadeira da morte. Ele virou plat\u00e9ia da sua destrui\u00e7\u00e3o. Seu rosto serve de modelo para uma posteridade esp\u00faria, a que estamos agora, quando esquecemos filmes como este, Odd Man Out, filme para ser levado no cora\u00e7\u00e3o aflito da cidadania, para que o remorso vire insurrei\u00e7\u00e3o, para que o vazio vire arte e para que possamos ver os filmes fundamentais antes de morrer junto com o cinema.<\/p>\n<p>Cuidado. Johnny, ferido de morte, est\u00e1 morrendo. Voc\u00ea que ama o cinema e foi exilado dele, sabe. Voc\u00ea, sim, espectador noturno, mergulhado num po\u00e7o onde te proibiram de ver, esse verbo sagrado da civiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para morrer tantas vezes e de tantas maneiras. Por isso acompanhe Johnny McQueen no seu passeio for\u00e7ado e terminal pelo inverno da cidade sitiada. Ele tem algo a dizer. Escutem. Ou melhor, vejam<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acompanhe Johnny McQueen, o rebelde irland\u00eas ferido num assalto. Acompanhe James Mason, no papel de Johnny, em mais uma obra-prima de Sir Carol Reed, Odd man out (O Condenado), de 1947. Ele sangra pelo bra\u00e7o esquerdo, imobilizado por uma bala disparada pela sua v\u00edtima, que morreu ao tentar prend\u00ea-lo. Johnny, condenado \u00e0 morte, fugitivo da cadeia e chefe da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que assumiu a vanguarda do movimento pela liberta\u00e7\u00e3o, \u00e9 um p\u00e1ssaro ferido, que passa de m\u00e3o em m\u00e3o pela cidade apavorada, onde todos os conhecem e ningu\u00e9m lhe d\u00e1 guarida.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/480"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=480"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/480\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1883,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/480\/revisions\/1883"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}