{"id":482,"date":"2009-12-11T00:39:11","date_gmt":"2009-12-11T02:39:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=482"},"modified":"2009-12-21T23:44:13","modified_gmt":"2009-12-22T01:44:13","slug":"a-fala-oculta-cancao-memoria-e-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-fala-oculta-cancao-memoria-e-resistencia","title":{"rendered":"A FALA OCULTA: CAN\u00c7\u00c3O, MEM\u00d3RIA E RESIST\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nM\u00fasica e letra da can\u00e7\u00e3o <em>Conversando no bar (Saudades dos avi\u00f5es da Panair)<\/em>, de Milton Nascimento e Fernando Brandt, tem me perseguido nos \u00faltimos dias. Carreguei a magistral interpreta\u00e7\u00e3o de Elis Regina em 1974 no you tube. De que trata a letra? Da ditadura. Foi feita dez anos depois do golpe de 64, naquele ponto de inflex\u00e3o do tempo em que a trag\u00e9dia ainda estava pr\u00f3xima mas j\u00e1 decolava para seu segundo decanato, ou seja, o que viera antes dela tonava-se, irremediavelmente, mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o deixar escapar esse tempo, o poeta Brandt \u2013 um dos maiores do Brasil \u2013 valeu-se da inf\u00e2ncia e do s\u00edmbolo da prepot\u00eancia de 64, a extin\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria da Panaiir, que era de propriedade dos empres\u00e1rios Celso da Rocha Miranda e M\u00e1rio Wallace Simonsen \u2014 este, dono tamb\u00e9m da TV Excelsior, que foi igualmente fechada. A Excelsior foi aquela empresa de comunica\u00e7\u00e3o l\u00edder que ao ser assassinada \u201ccedeu\u201d espa\u00e7o para o monstro da Globo. \u00c9 bom lembrar que o autor do despacho foi o ministro da Aeron\u00e1utica da ditadura, o Brigadeiro Eduardo Gomes, que jamais perdoou Get\u00falio por ter perdido as elei\u00e7\u00f5es de 1950, que ele contava como certa. O Brigadeiro era o candidato da direita e seu slogan dizia: \u201cVotem no Brigadeiro, ele \u00e9 bonito, ele \u00e9 solteiro\u201d.<\/p>\n<p>Mas esta edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o quer se debru\u00e7ar sobre a hist\u00f3ria da Panair, que em 2008 ganhou um document\u00e1rio de Marco Altberg. Ali\u00e1s, por que n\u00e3o veiculam esse trabalho nas televis\u00f5es? O verdadeiro esc\u00e2ndalo n\u00e3o foi a extin\u00e7\u00e3o de uma companhia no auge de sua vida empresarial, mas sim o fato de que ela n\u00e3o foi reativada. Se a ditadura tivesse sido derrotada, ter\u00edamos de volta a Panair. Ser ainda parte da mem\u00f3ria significa que estamos na mesma fase em que a can\u00e7\u00e3o foi feita.<\/p>\n<p>Como diz Brandt: \u201cDescobri que a minha arma \u00e9 o que a mem\u00f3ria guarda dos tempos da Pan Air\u201d. Nascida em 1929 e incorporada pela Pan American Airways (da\u00ed o nome) em 1930, a empresa foi nacionalizada em 1942 (atentos \u00e0s datas? Ambas tinham como presidente Get\u00falio Vargas, desculpem a lembran\u00e7a; \u00e9 que tudo da Panair \u00e9 atribu\u00eddo ao JK, como sempre). Ou seja, o poeta fala da Era Vargas. Vamos \u00e0 letra:<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 vinha o bonde no sobe e desce ladeira\u201d. Os bondes n\u00e3o polu\u00edam, eram uma maravilha urbana. A ditadura cuidou de destruir tudo, embalada pelo precedente aberto pelo JK, que sucateou toda a linha f\u00e9rrea brasileira num acordo de gaveta com os gringos, para ficarmos totalmente dependentes da gasolina e do \u00f3leo diesel. Em Los Angeles aconteceu a mesma coisa: destru\u00edram os bondes e a cidade virou uma cloaca polu\u00edda. Esse \u00e9 o resultado dos acordos com as grandes companhias de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>\u201cE o motorneiro parava a orquestra um minuto.\/ Para me contar casos da campanha da It\u00e1lia\/\u201d. O motorneiro tinha a manha de parar o bonde (a \u201corquestra\u201d era o barulho do ve\u00edculo) para conversar com os passageiros. O que ele conversava? Sobre a campanha da It\u00e1lia. Qual foi ela? A da FEB \u2013 For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira, criada por Get\u00falio Vargas para combater o nazi-fascismo na Europa. Havia uma linhagem da mem\u00f3ria: o veterano de guerra contava hist\u00f3rias para o menino na viagem de bonde. Isso chama-se civiliza\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>\u201cE de um tiro que ele n\u00e3o levou\/levei um susto imenso nas asas da Pan Air\u201d. O tiro que ele n\u00e3o levou significa que sobreviveu. \u00c9 parecido com o grande peixe que escapou: a aventura \u00e9 contada por meio do drama, do suspense, despertando a curiosidade. O fato relembrado \u00e9 quase uma anedota. O humor grudado \u00e0 dor. E o verbo \u201clevar\u201d aqui serve para fazer a liga\u00e7\u00e3o da cena do bonde com a do avi\u00e3o. O susto do veterano diante da morte, que repassa ao menino, levanta v\u00f4o nas asas da m\u00edtica companhia, a que representa o Brasil assassinado. \u00c9 hora do garoto se assustar. O susto mque ele &#8211; e o resto do pa\u00eds &#8211; levou.<\/p>\n<p>\u201cDescobri que as coisas mudam e que o mundo \u00e9 pequeno nas asas da Pan Air\u201d. O s\u00f3lido mundo do menino no bonde \u00e9 desafiado pelo batismo de v\u00f4o. O mundo, que era grande na vis\u00e3o infantil, e imut\u00e1vel, se transforma e \u00e9 pequeno visto da janela de bordo. Ou seja, a inicia\u00e7\u00e3o, o rito de passagem, se fazia naturalmente, n\u00e3o precisava de uma ruptura horrenda como 1964. O mundo tinha sua mem\u00f3ria e seus desafios, as crian\u00e7as viravam adultos num pa\u00eds pac\u00edfico, sem medo, sem terror:<\/p>\n<p>\u201cE l\u00e1 vai menino xingando padre e pedra\/ E l\u00e1 vai menino lambendo podre del\u00edcia\/ E l\u00e1 vai menino senhor de todo fruto\/ Sem nenhum pecado, sem pavor, o medo em minha vida nasceu muito depois\/\u201d. Esse &#8220;muito depois&#8221; sabemos o que \u00e9: o golpe de 1964, a repress\u00e3o de 1968, o clima sinistro de 1969 a 1973, o desespero at\u00e9 que o regime fosse obrigado a abrir um pouco (e abriu, soubemos depois, s\u00f3 para se legitimar, como de fato aconteceu em 1985).<\/p>\n<p>\u201cDescobri que a minha arma \u00e9 o que a mem\u00f3ria guarda dos tempos da Pan Air\u201d. No lugar das armas, que d\u00e3o tiro e cospem fogo, a arma da mem\u00f3ria. Dos tempos da Panair: dos tempos da Era Vargas.<\/p>\n<p>&#8220;Nada existe que n\u00e3o se esque\u00e7a, algu\u00e9m insiste e fala ao cora\u00e7\u00e3o\/ Tudo de triste existe que n\u00e3o se esquece, algu\u00e9m insiste e fere o cora\u00e7\u00e3o\u201d. Duas frases quase iguais, tanto que se confundem, mas s\u00e3o diferentes. A primeira fala do esquecimento e da import\u00e2ncia de algu\u00e9m vir cutucar a mem\u00f3ria. A segunda fala das cicatrizes, das coisas insepultas, que atormentam e que geram sofrimento toda vez que algu\u00e9m coloca o assunto na roda. Esquecer para n\u00e3o sofrer ou lembrar e sofrer? Eis o dilemo do narrador da can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNada de novo existe neste planeta que n\u00e3o se fale aqui na mesa de bar\/ E aquela briga e aquela fome de bola\/ E aquele tango e aquela dama da noite\/ E aquela mancha e a fala oculta\/ Que no fundo do quintal morreu, morri a cada dia dos dias que vivi\/\u201d. O que se fala na mesa de bar? Fala-se da mem\u00f3ria, dos tempos idos, soterrados pela ditadura, da inf\u00e2ncia (a bola), da adolesc\u00eancia (a dama da noite), da marca deixada pelo golpe de estado no cora\u00e7\u00e3o das criaturas do pa\u00eds (a mancha), que matou ou escondeu a express\u00e3o, a arte a poesia (a fala oculta), matando as pessoas junto com esse assassinato abrupto. Pois 1964 foi isso: a morte repentina de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cCerveja que tomo hoje \u00e9 apenas em mem\u00f3ria dos tempos da Pan Air\/ A primeira Coca-Cola foi, me lembro bem agora, nas asas da Pan Air\/ A maior das maravilhas foi\/ Voando sobre o mundo nas asas da Pan Air\u201d. A morte repentina origina o mito, o tempo que se foi. N\u00e3o apenas a inf\u00e2ncia, mas a alegria de viver num pa\u00eds seguro, um lugar de onde se pod\u00edamos ver o mundo de cima. N\u00e3o est\u00e1vamos ao r\u00e9s do ch\u00e3o como agora, quando os brasileiros procuram ref\u00fagio no Exterior, em busca de tudo o que foi assassinado, principalmente a paz e a chance de sobreviv\u00eancia, a oportunidde de ter uma inf\u00e2ncia, uma vida adulta plena.<\/p>\n<p>\u201cEm volta dessa mesa velhos e mo\u00e7os lembrando o que j\u00e1 foi\/ Em volta dessa mesa existem outras falando t\u00e3o igual\/ Em volta dessas mesas existe a rua vivendo o seu normal\/ Em volta dessa rua uma cidade sonhando seus metais\/ Em volta da cidade&#8230;\u201d Velhos e mo\u00e7os s\u00e3o os deserdados da na\u00e7\u00e3o apunhalada de repente, pegos de surpresa pelo sinistro golpe de direita, apelidado de \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d. Vemos a democracia que eles plantaram,, olhando em torno. Uma democracia que se lixa para a opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00fasica e letra da can\u00e7\u00e3o Conversando no bar (Saudades dos avi\u00f5es da Panair), de Milton Nascimento e Fernando Brandt, tem me perseguido nos \u00faltimos dias. Carreguei a magistral interpreta\u00e7\u00e3o de Elis Regina em 1974 no you tube. De que trata a letra? Da ditadura. Foi feita dez anos depois do golpe de 64, naquele ponto de inflex\u00e3o do tempo em que a trag\u00e9dia ainda estava pr\u00f3xima mas j\u00e1 decolava para seu segundo decanato, ou seja, o que viera antes dela tonava-se, irremediavelmente, mem\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/482"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=482"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/482\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":484,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/482\/revisions\/484"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}