{"id":485,"date":"2009-12-11T00:46:11","date_gmt":"2009-12-11T02:46:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=485"},"modified":"2009-12-22T00:00:16","modified_gmt":"2009-12-22T02:00:16","slug":"fallen-idol-o-mosaico-genial-de-carol-reed","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/fallen-idol-o-mosaico-genial-de-carol-reed","title":{"rendered":"FALLEN IDOL: O MOSAICO GENIAL DE CAROL REED"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nNo ano em que eu nasci, 1948, era assim que se fazia cinema: no filme <em>Fallen Idol<\/em>, dirigido por Carol Reed (1906-1976) com roteiro de Graham Greene, o policial tira o avi\u00e3ozinho de papel da m\u00e3o do garoto, que tinha ca\u00eddo ao recuperar o brinquedo preso num enfeite; depois, do alto da escada (onde possivelmente a v\u00edtima tinha pulado para a morte) o joga l\u00e1 embaixo, no vest\u00edbulo, onde est\u00e3o os inspetores, o detetive, os diplomatas e o suspeito, o mordomo Baines, interpretado por Sir Ralph Richardson, o ator brit\u00e2nico que antes de entrar para o cinema j\u00e1 era uma lenda do melhor teatro do mundo. O brinquedo faz uma evolu\u00e7\u00e3o e pousa no mosaico do piso de m\u00e1rmore da embaixada onde aconteceu um assassinato, o da esposa do mordomo.<\/p>\n<p>Cai bem nos p\u00e9s de Jack Hawkins, ainda mo\u00e7o naquela \u00e9poca, bem antes de marcar forte presen\u00e7a em outra obra-prima, Lawrence da Ar\u00e1bia, de David Lean, em que faz um general indiferente, bruto e corrupto. Hawkins desfaz a forma do avi\u00e3ozinho e descobre que o papel \u00e9 do telegrama que incrimina o suspeito. O garoto resolvera brincar com ele, depois que o telegrama avisara a Baines que sua esposa n\u00e3o viria para casa naquele dia. Mas Baines tinha mentido. Escondera o fato de que estava com a amante. Dissera que o jantar a tr\u00eas (ele, a amante e o menino) inclu\u00eda a esposa ausente. O detetive interroga ent\u00e3o o mordomo, que cai em contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais suspense, \u00e9 terror feito a partir de elementos simples, que comp\u00f5em uma pintura em preto e branco insuper\u00e1vel, onde a qualidade, a textura da imagem, a coreografia dos atores, a postura de cada um, o clima pesado de desconfian\u00e7a e p\u00e2nico fazem de Fallen Idol uma prova de que o cinema atingiu h\u00e1 tempos seu esplendor e de l\u00e1 para c\u00e1 s\u00f3 vem decaindo. Ningu\u00e9m fez nada parecido com o que vemos na tela. A grande embaixada como ambiente de uma orfandade, o do menino que sente saudades da m\u00e3e e v\u00ea o pai ausentar-se mais uma vez; de uma trai\u00e7\u00e3o, a do marido que namora a funcion\u00e1ria; de um amor, o da mulher que tenta fugir do homem que a atrai e com ele mant\u00e9m encontros furtivos em caf\u00e9s escondidos em becos; de indiferen\u00e7a, das empregadas que falam mal de todos. A grande casa \u00e9 o territ\u00f3rio estrangeiro dentro de Londres que se v\u00ea envolvida por um esc\u00e2ndalo e a pol\u00edtica tenta driblar a todo custo.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio limpo, iluminado, de uma cidade imperial e pacata, de uma mans\u00e3o a cavaleiro de um parque, revela a trag\u00e9dia pessoal dos protagonistas, tudo sussurrado em di\u00e1logos perfeitos, gestos contidos, pequenas espionagens, segredos que n\u00e3o duram uma tarde. Tudo vai num crescendo at\u00e9 chegar \u00e0s cenas de explos\u00f5es de luzes (na brincadeira de esconde-esconde), no acidente que mata a mulher e na investiga\u00e7\u00e3o meticulosa, obsessiva, certeira dos policiais. Um sufoco do come\u00e7o ao fim num filme encantador. \u00c9 inteligente demais para ser verdade. Mas \u00e9 um fato. E est\u00e1 a\u00ed para ser visto. Por que n\u00e3o colocam essas obras ao alcance de todos? Porque h\u00e1 bandidos no poder.<\/p>\n<p>Est\u00e1 vendo muito blockbuster? \u00c9 porque existem gangsters no poder, \u00e9 por isso. Quem programa &#8220;American Pie 5&#8221; no hor\u00e1rio nobre da Tela Quente \u00e9 porque fugiu da pris\u00e3o perp\u00e9tua, onde deveria cumprir pena de crime hediondo. Sim, estou falando contigo, programador da Rede Globo, bund\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 cheio de hist\u00f3rias para contar, justificativas a apresentar, evid\u00eancias a expor, l\u00f3gicas a suplantar qualquer argumento ao contr\u00e1rio. Voc\u00ea fala em nome do povo, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Ou ent\u00e3o diz que cumpre ordens, \u00e9 isso? \u00c9 disso que o povo gosta n\u00e3o \u00e9? Pois teus dias est\u00e3o contados. Pagar\u00e1s caro por colocar adolescentes escrotos americanos pelados vomitando na cara de todo mundo e olhando um para o pau dos outros. Ver\u00e1s, puto. Est\u00e1s solto porque os manda-chuvas s\u00e3o piores do que voc\u00ea.<\/p>\n<p>Sir Carol Reed fez n\u00e3o apenas tr\u00eas reconhecidas obras-primas, como Fallen Idol, The Third Man (1949) e Nosso Homem em Havana (1959). Fez tamb\u00e9m o inesquec\u00edvel Trap\u00e9zio, de 1956, com Burt Lancaster e Tony Curtis. E fez Agonia e \u00caxtase (1965), com Rex Harrison e Charlton Heston. Tem tamb\u00e9m Outcast of the Islands, de 1952, baseado em romance de Joseph Conrad, que eu ainda n\u00e3o vi. \u00c9 um dos grande mestres do cinema. No pres\u00eddio em que ser\u00e3o colocados os atuais programadores de filmes das TVs, as 31 obras de Carol Reed passar\u00e3o todos os dias. Os caras v\u00e3o ter que decorar cada fala, cada imagem. Voc\u00eas ver\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No filme  Fallen Idol, de Carol Reed, de 1948, ningu\u00e9m fez nada parecido com o que vemos na tela. A grande embaixada como ambiente de uma orfandade, o do menino que sente saudades da m\u00e3e e v\u00ea o pai ausentar-se mais uma vez; de uma trai\u00e7\u00e3o, a do marido que namora a funcion\u00e1ria; de um amor, o da mulher que tenta fugir do homem que a atrai e com ele mant\u00e9m encontros furtivos em caf\u00e9s escondidos em becos; de indiferen\u00e7a, das empregadas que falam mal de todos. A grande casa \u00e9 o territ\u00f3rio estrangeiro dentro de Londres que se v\u00ea envolvida por um esc\u00e2ndalo e a pol\u00edtica tenta driblar a todo custo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/485"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=485"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/485\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1880,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/485\/revisions\/1880"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=485"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=485"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=485"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}