{"id":489,"date":"2009-12-11T00:48:00","date_gmt":"2009-12-11T02:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=489"},"modified":"2009-12-21T23:38:13","modified_gmt":"2009-12-22T01:38:13","slug":"sombra-e-neve-o-claro-escuro-de-nicholas-ray","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sombra-e-neve-o-claro-escuro-de-nicholas-ray","title":{"rendered":"SOMBRA E NEVE, O CLARO-ESCURO DE NICHOLAS RAY"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAlguns arriscam que <strong>Casa das Sombras <\/strong>(<em>On Dangerous Ground<\/em>, ou \u201cCinzas que queimam\u201d), de 1952, com Robert Ryan, Ida Lupino e Ward Bond, \u00e9 a grande obra-prima de Nicholas Ray, melhor e mais importante do que seu famoso <em>Rebel Without a Cause<\/em> (&#8220;Juventude Transviada&#8221;, p\u00e9ssimo t\u00edtulo em portugu\u00eas que deveria ser substitu\u00eddo pela tradu\u00e7\u00e3o literal, &#8220;Rebelde Sem Causa&#8221;), de 1955. Talvez mais do que, pecado dos pecados, <em>Johnny Guitar,<\/em> de 1954. Impressionado com este filme, que descubro tardiamente, agora entendi a famosa frase de Jean-Luc Godard, \u201cNicholas Ray \u00e9 o cinema\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mist\u00e9rio nem firula. Trata-se dos fundamentos do claro-escuro como obra de arte em movimento, por interm\u00e9dio de uma divis\u00e3o da narrativa em duas partes iguais: a sombra, ou seja, a metade da hist\u00f3ria que \u00e9 integralmente filmada \u00e0 noite, quando o protagonista amarga a solid\u00e3o e a frustra\u00e7\u00e3o no seu trabalho de policial, que abomina e o torna bruto com suspeitos e colegas; e a neve, a antol\u00f3gica ca\u00e7ada a um estuprador-menino em pleno inverno, em que a claridade fosca do campo des\u00e1gua na casa fechada onde uma cega se revela como o espelho do sofrimento que levou o anti-her\u00f3i at\u00e9 aquelas paragens.<\/p>\n<p>Ward Bond, o ator da troupe de John Ford (que faz o xerife brutamontes de Rastros de \u00d3dio, entre in\u00fameros outros pap\u00e9is) \u00e9 o pai enlouquecido que procura fazer justi\u00e7a com seu rifle carregado. Essa postura violenta j\u00e1 tinha empurrado o policial da cidade (interpretado por Robert Ryan) para aquele ermo, j\u00e1 que foi punido com um caso fora da cidade para poder dar um tempo e deixar de bater nos suspeitos. Agora \u00e9 a sua vez de colocar panos quentes nesse tipo de condena\u00e7\u00e3o pr\u00e9via e puni\u00e7\u00e3o ilegal. O impulso vem da mulher que habita a casa isolada, uma Ida Lupino inesquec\u00edvel, a grande atriz que tamb\u00e9m foi diretora de nove filmes e que, dizem, substituiu o diretor Ray, que caiu de cama, por v\u00e1rios dias nas filmagens.<\/p>\n<p>A sombra espessa e sem janelas \u00e9 a parte sufocante e sem solu\u00e7\u00e3o do policial solit\u00e1rio, que no in\u00edcio \u00e9 apresentado em oposi\u00e7\u00e3o aos seus colegas, todos com mulher e filhos. Ao mergulhar nessa sombra, ele gera o impasse. Seu chefe ent\u00e3o o manda embora, para fora da cidade, para que possa pensar sobre a vida e ajude a resolver o caso do estuprador que matou uma garota do campo. Ao chegar no descampado, os rastros na neve levam \u00e0 casa onde mora seu espelho, a cega de solid\u00e3o que acaba confiando nele. \u201cA diferen\u00e7a entre n\u00f3s dois\u201d, diz ela, \u201c\u00e9 que um policial n\u00e3o confia em ningu\u00e9m e eu, que sou cega, precisa confiar em todos\u201d.<\/p>\n<p>Essa f\u00e9, que nasce em quem n\u00e3o tem mais nada a perder, \u00e9 a prova que faltava para surgir o dia claro, o desfecho em que os dois se reencontram na esperan\u00e7a. Uma coisa recorrente nos filmes da \u00e9poca \u00e9 que se acreditava na cura das pessoas. A psiquiatria e a medicina, segundo essa vers\u00e3o, tinham condi\u00e7\u00f5es de tirar as pessoas do gueto e lev\u00e1-las para uma vida plena. Havia a chance de mudan\u00e7a, o que n\u00e3o ocorre nos filmes de hoje, em que os pap\u00e9is est\u00e3o definidos e ningu\u00e9m escapa de seus destinos de vilania e perdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas esse aspecto n\u00e3o importa. O que vale \u00e9 a obra fundada na sua t\u00e9cnica, o claro- escuro como base da narrativa, como representa\u00e7\u00e3o da vida dos personagens. A paisagem, o que \u00e9 externo \u00e0s pessoas \u00e9, no fundo, a identidade de cada uma delas: o policial sombrio que anda s\u00f3 pelas ruas e se confunde com a noite; o sitiante bruto que pisa na neve de seu cora\u00e7\u00e3o seco e est\u00e9ril; a mulher cercada pelas paredes que escolheu para viver, j\u00e1 que se recusara , por medo, a fazer o tratamento que salvaria sua vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos grandes destaques de On Dangerous Ground \u00e9 a persegui\u00e7\u00e3o de carro numa estrada prec\u00e1ria tomada pela neve, em que a c\u00e2mara segue o caminho do acidente, transformando a cena na vis\u00e3o terminal da c\u00e2mara que tomba e \u00e9 abandonada por quem a manipulava. Grande Nicholas Ray, o sujeito que deixa uma heran\u00e7a que pode ser usufru\u00edda hoje intacta, com a limpeza do trabalho bem realizado e a grandeza do destino cumprido at\u00e9 o \u00faltimo segundo de seus filmes antol\u00f3gicos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns arriscam que Casa das Sombras (On Dangerous Ground, ou \u201cCinzas que queimam\u201d), de 1952, com Robert Ryan, Ida Lupino e Ward Bond, \u00e9 a grande obra-prima de Nicholas Ray, melhor e mais importante do que seu famoso Rebel Without a Cause (&#8220;Juventude Transviada&#8221;, p\u00e9ssimo t\u00edtulo em portugu\u00eas que deveria ser substitu\u00eddo pela tradu\u00e7\u00e3o literal, &#8220;Rebelde Sem Causa&#8221;), de 1955. Talvez mais do que, pecado dos pecados, Johnny Guitar, de 1954. Impressionado com este filme, que descubro tardiamente, agora entendi a famosa frase de Jean-Luc Godard, \u201cNicholas Ray \u00e9 o cinema\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/489"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=489"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/489\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1828,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/489\/revisions\/1828"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}