{"id":491,"date":"2009-12-11T00:48:51","date_gmt":"2009-12-11T02:48:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=491"},"modified":"2009-12-21T23:24:26","modified_gmt":"2009-12-22T01:24:26","slug":"novo-chat-com-alunos-de-jornalismo-da-ufsc","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/novo-chat-com-alunos-de-jornalismo-da-ufsc","title":{"rendered":"NOVO CHAT COM ALUNOS DE JORNALISMO DA UFSC"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nGra\u00e7as ao jornalista e professor F\u00e1bio Mayer, com quem tive o privil\u00e9gio de trabalhar por tr\u00eas anos na revista Empreendedor, aqui de Florian\u00f3polis, todo semestre tenho o prazer de conversar via chat com seus alunos de jornalismo da UFSC. O bom \u00e9 que o exerc\u00edcio est\u00e1 me dando cancha, como se diz em Uruguaiana,e cada chat fica melhor, principalmente porque fico mais atento ao que me perguntam e estou mais preparado para responder (o h\u00e1bito ensina). \u00c9 uma conversa de mais de uma hora, que est\u00e1 integralmente reproduzida aqui. Fica como registro do evento e documento para quem se interessar pelo assunto.<\/p>\n<p>NO PRINC\u00cdPIO, ERA O R\u00c1DIO<\/p>\n<p>P &#8211; Vou apresentar a turma pra voc\u00ea&#8230;Mariana Porto, Karen Prestes, Sarah Westphal, Marina Lopes, Francisco Dantas, Cinthia Raasch, Larissa Almeida e o professor F\u00e1bio Mayer.<\/p>\n<p>R &#8211; Boa tarde a todos. \u00c9 um prazer estar aqui e uma honra.<\/p>\n<p>P &#8211; O prazer \u00e9 nosso! Como surgiu o jornalismo em sua vida?<\/p>\n<p>Nei &#8211; Como interesse, muito cedo. Como profiss\u00e3o, s\u00f3 depois de entrar na faculdade. O que havia de jornalismo na minha terra era o r\u00e1dio. Gostava do notici\u00e1rio, principalmente das radios internacionais. Voz da Am\u00e9rica, Radio Pequim, Radio Moscou, BBC de Londres. Est\u00e1vamos conectados com o mundo nos anos 50 e 60<br \/>\nComo tenho vocac\u00e3o de conferencista, \u00e9 melhor vcs me interromperem, pois \u00e9 conversa para mais de metro. Direcionem, por favor, a conversa.<\/p>\n<p>P &#8211; Rsrs, tudo bem<\/p>\n<p>R &#8211; Tnhamos um bom noticiario local, regional e nacional, com radios da cidade, de Porto Alegre e do Rio.<\/p>\n<p>P &#8211; S\u00f3 gostaria de acrescentar mais uma pessoa ao chat: Denise Camargo<\/p>\n<p>Nei &#8211; Ol\u00e1, Denise. Pois ent\u00e3o, haviam tamb\u00e9m as grandes revistas, como cruzeiro e manchete, que traziam excelentes reportagens. Dos jornais o forte era o Correio do Povo, mais tarde a Ultima Hora de Porto Alegre. Tudo isso configurou um interesse brutal pelo jornalismo. Lembro que aos 15 anos rodeei a r\u00e1dio da minha cidade e cheguei a perguntar por uma vaga. Fui recebido, claro, com deboche. Fiquei escaldado e s\u00f3 resolvi pedir emprego quando entrei na faculdade.<\/p>\n<p>Tinha fasc\u00ednio n\u00e3o apenas pelo notici\u00e1rio, mas tamb\u00e9m pelos programas culturais. Recentemente faleceu o Walter Silva, o descobridor da Elis Regina Eu escutava o Walter Silva todos os dias pela Bandeirantes. \u00c0 noite, escutava jazz pela Tupi com o Fausto Canova. A Bandeirantes e a Tupi pegavam muito bem no miolo do pampa, terra sem obst\u00e1culos para as ondas curtas. Em cidade grande, como porto Alegre, perdi o h\u00e1bito de escutar radio, que foi meu primeiro contato s\u00e9rio com o jornalismo. Mas profissionalmente nunca fiz radio, s\u00f3 uma vez, por tr\u00eas meses, na Gaucha. Mas n\u00e3o valeu. Perguntem.<\/p>\n<p>P &#8211; Qual a maior dificuldade que voc\u00ea encontrou ao longo da sua trajet\u00f3ria?<\/p>\n<p>R &#8211; O jornalismo n\u00e3o era considerada profiss\u00e3o. Hoje est\u00e1 em crise, mas na \u00e9poca que comecei nem entrava nas considera\u00e7\u00f5es, nas op\u00e7\u00f5es profissionais. Era coisa de pessoas com dois empregos, bo\u00eamios. Como disse meu pai quando deixei a faculdade de engenharia pela de jornalismo: vais ser tocador de viol\u00e3o? Quem me dera. At\u00e9 hoje n\u00e3o sei tocar viol\u00e3o! Havia muita indiferen\u00e7a e preconceito. Depois virou moda e excesso. Tudo isso num curto espa\u00e7o de tempo, s\u00f3 uns 40 anos. \u00c9 pouco, me acreditem.<\/p>\n<p>\u201cO NYT VAI MAL, MAS O DI\u00c1RIO DA FONTE VAI DE VENTO EM POPA\u201d<\/p>\n<p>P &#8211; Em sua opini\u00e3o, a chegada da internet influenciou positiva ou negativamente o trabalho jornal\u00edstico? (pode citar exemplos?)<\/p>\n<p>R &#8211; Acho que fa\u00e7o parte da primeira gera\u00e7\u00e3o que encarou o jornalismo full time, como profiss\u00e3o mesmo. Apear de sempre ser mal paga e tirar o couro da gente em qualquer ve\u00edculo. A rede \u00e9 um terremoto. A internet desmoralizou uma s\u00e9rie de equ\u00edvocos, de op\u00e7\u00f5es que acabaram fazendo o jornalismo decair. Por exemplo, virou febre o tal jornalismo de servi\u00e7os. P\u00e1ginas e p\u00e1ginas de servi\u00e7os, todos os dias, endere\u00e7o de cinema, que sei eu. A internet simplesmente acabou com isso. os jornais ficaram com o pincel na m\u00e3o.<\/p>\n<p>P &#8211; Desculpe se te interrompi o racioc\u00ednio&#8230; pode ficar \u00e0 vontade pra responder direito a pergunta anterior&#8230;<\/p>\n<p>R &#8211; Esse tro\u00e7o de dicas e servi\u00e7os \u00e9 para o espa\u00e7o virtual., O impresso deve ficar com o fil\u00e9. Mas a internet \u00e9 devoradora, cabe tudo nela, jornalismo de todos os tipos. Simplesmente o jornalismo vai ter que se reinventar a partir desse terremoto. A internet influenciou positivamente: acabou essa vaidade da exclusividade. Nada mais \u00e9 exclusivo. Tudo vai ao ar ao mesmo tempo agora. Ao mesmo tempo, abriu espa\u00e7os n\u00e3o s\u00f3 para um numero infinito de jornalistas, como eliminou a intermedia\u00e7\u00e3o do jornalista, em muitos casos. Hoje, a fonte \u00e9 m\u00eddia. Acho a internet a m\u00eddia das fontes.<\/p>\n<p>P &#8211; Voc\u00ea poderia ser mais espec\u00edfico? O que seria o fil\u00e9 do impresso?<\/p>\n<p>R &#8211; Obriga tamb\u00e9m o jornalista a caprichar mais e a radicalizar, no bom sentido. Mais qualidade, mais agilidade, mais talento, mais criatividade. A concorr\u00eancia se multiplicou e os ve\u00edculos est\u00e3o em xeque. Costumo dizer: o NYT vai mal, mas o meu Diario da Fonte vai de vento em popa. rs rs rs<\/p>\n<p>P &#8211; rsrsrs<\/p>\n<p>R &#8211; Claro, n\u00e3o custa nada para ningu\u00e9m. Esse \u00e9 o desafio. Como fazer jornalismo sem remunera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O fil\u00e9 do impresso \u00e9 a ess\u00eancia do jornalismo. A grande reportagem, super bem escrita, bem apurada, livre. Como existia mito em tempos idos e depois caiu em desuso. A grande reportagem sobrevive, mas muito amarrada. Acho que o NYT pode se livrar de toda a tralha e trolhas e ficar s\u00f3 no que \u00e9 essencial, as grandes reportagens que lhe d\u00e3o tantos Pullitzers. Para isso n\u00e3o precisa ter uma sede gigantesca.<\/p>\n<p>Ou o impresso retoma seu caminho ou some de vez. Ningu\u00e9m tem saco de comprar jornal impresso para ler abobrinhas ou saber onde vai passar o filme tal. Todo mundo sabe: o filme tal est\u00e1 na rede!<\/p>\n<p>P &#8211; Pois \u00e9&#8230; Alguns pesquisadores acreditam que os jornais di\u00e1rios impressos v\u00e3o desaparecer. Qual a sua opini\u00e3o sobre isso?<\/p>\n<p>R &#8211; Acho que n\u00e3o. V\u00e3o ficar s\u00f3 os melhores. As porcarias, que \u00e9 o que mais tem, v\u00e3o sumir, acredito. E vai ficar aquela maravilha de jornal que todo mundo espera para ler, folhear, pegar, cheirar. Isso vai continuar. Junto, paralelamente, com a rede. Hoje n\u00e3o existe jornal que voc\u00ea fica na banca esperando chegar, como acontecia com o Pasquim do Tarso de Castro, o Globo do Nelson Rodrigues, o Cruzeiro das grandes reportagens. Os jornais encalham porque s\u00e3o ruins. N\u00e3o \u00e9 culpa da internet, \u00e9 culpa do jornalismo e das empresas de comunica\u00e7\u00e3o. Agora que dizem que o impresso vai acabar \u00e9 que me d\u00e1 vontade de dirigir um. Sem ab rir m\u00e3o do jornal virtual, claro.<\/p>\n<p>P &#8211; Se precisar de rep\u00f3rteres&#8230;&#8230;. rsrsrs. A exemplo do NYT, voc\u00ea acha que no Brasil as grandes empresas jornal\u00edsticas, familiares, tamb\u00e9m seguem essa tend\u00eancia de decad\u00eancia e v\u00e3o ter que repensar sua estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R &#8211; V\u00e3o ter que repensar tudo, acabou a moleza, acabou a ditadura. Acabou o mesquitismo, o frianismo, os Tanure ou que sei eu. Os jornais precisam retomar sua ess\u00eancia, ou seja, ter jornalismo separado da publicidade. Rep\u00f3rter, talento, \u00e9 que n\u00e3o falta. \u00c9 um assombro o que temos de gente boa em todas as gera\u00e7\u00f5es no Brasil. Tudo desperdi\u00e7ado. Os jornalistas precisam voltar a ser bem pagos, tem que acabar essa explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra absurda em que as pessoas ficam horas, dias, semanas apressados em frente ao micro tentando dar furo. O furo acabou. Hoje o furo est\u00e1 no Twitter. Jornalismo n\u00e3o \u00e9 furo, \u00e9 texto\/talento\/coragem.<\/p>\n<p>Jornalismo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 denuncia. Ficam achando que temos jornalismo porque temos den\u00fancias. Estas, s\u00e3o manipuladas pelos interesses. E quando surgem as falcatruas, todos apontam o culpado: povo, claro, que elegeu os pol\u00edticos! \u00c9 de chorar.<\/p>\n<p>A MEMOR\u00c1VEL PAUTA DE EDENILTON LAMPI\u00c3O<\/p>\n<p>P &#8211; O que o jornalista deve observar e fazer, hoje, pra se destacar, j\u00e1 que os furos n\u00e3o s\u00e3o mais nosso foco&#8230;?<\/p>\n<p>R &#8211; Estamos rodeados de pautas. Pauta n\u00e3o precisa de gancho, quem precisa de gancho \u00e9 a\u00e7ougue. Acho que a pauta bem sacada \u00e9 meio caminho andado. Precisa prestar aten\u00e7\u00e3o.Vejam o caso do Edenilton Lampi\u00e3o, l\u00e1 de S\u00e3o Paulo. O Lampi\u00e3o (tinha esse apelido porque era do nordeste e usava \u00f3culos redondos) passava todos os dias na avenida Paulista. L\u00e1 estavam aqueles casar\u00f5es tombados pelo patrim\u00f4nio, mas que os donos n\u00e3o queriam preservar, e sim por abaixo para vender caro (que foi o que aconteceu). Numa janela, o Lampi\u00e3o viu aquele velho, aprecia ter uns duzentos anos. Todos os dias estava l\u00e1. Um dia Lampi\u00e3o foi at\u00e9 a janela e quis saber quem era. Descobriu que era o psiquiatra que livrou o Nelson Gon\u00e7alves da coca\u00edna. Colocava quilos de coca em frente o Nelson Gon\u00e7alves, que via aquilo e acabou perdendo o vicio.<\/p>\n<p>Veja a pauta! O Lampi\u00e3o escreveu milh\u00f5es de linhas e o Miltainho, o Mylton Severiano, o maior editor de texto do Brasil, transformou a mat\u00e9ria numa reportagem maravilhosa. Foi publicado no tabl\u00f3ide do Samuel Wainer, Aqui, S\u00e3o Paulo. Trabalhei l\u00e1 com o Samuel Wainer mais tarde. Samuel me dizia: o Lampi\u00e3o ficou c\u00e9lebre com essa mat\u00e9ria. N\u00e3o \u00e9 uma maravilha?<\/p>\n<p>P &#8211; O que voc\u00ea pensa da obrigatoriedade do diploma para exercer a profiss\u00e3o de jornalista? Pode haver qualidade no meio jornal\u00edstico sem forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria?<\/p>\n<p>R &#8211; Pode haver nos dois modos. Acho importante a forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, mas n\u00e3o apenas especificamente no jornalismo. Acho que uma boa faculdade, uma boa forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica resolve. Depois, se aprende. Acho que n\u00e3o deveria haver obrigatoriedade do diploma. Eu mesmo tenho diploma de Historia da USP. Acabei n\u00e3o me formando em jornalismo. O AI 5 pegou meu curso de jornalismo pelo meio. Entrei em 68. Em 69, era clima de vazio na faculdade. N\u00e3o deu para continuar.<\/p>\n<p>P &#8211; Como foi pra voc\u00ea trabalhar com Samuel Wainer e Mino Carta?<\/p>\n<p>R &#8211; S\u00e3o escolas de jornalismo. O SW tinha um olho cl\u00ednico e grandes id\u00e9ias. Me deu uma coluna sobre juventude para fazer, me colocou na reportagem policial, entre outras coisas. Era um cara din\u00e2mico demais, um grande rep\u00f3rter que inventou um imp\u00e9rio do nada. Depois, com o golpe de 64 caiu em desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>O Mino Carta tem a forma\u00e7\u00e3o de pa\u00eds rico, faz jornalismo americano, todas as suas revistas s\u00e3o inspiradas no modelo americano, mas gosta de dizer que faz parte do jornalismo italiano. O Mino \u00e9 um l\u00edder, e um cara de vanguarda. Na Senhor dos 80, t\u00ednhamos uma reda\u00e7\u00e3o enxuta e um grande veiculo. Era um veiculo influente e super bem feito. Trabalhei pouco tempo com o Samuel, um ano no m\u00e1ximo, mas fiquei seis anos trabalhando com o Mino. Com o Mino aprendi a fazer um ve\u00edculo a partir do nada.<\/p>\n<p>P &#8211; Qual foi a influ\u00eancia da ditadura na sua forma\u00e7\u00e3o como ser humano? E como jornalista? Como foi viver sempre vigiado, censurado? Essa experi\u00eancia determinou em voc\u00ea a forma\u00e7\u00e3o de uma postura mais cr\u00edtica e engajada?<\/p>\n<p>R &#8211; O mal que a ditadura nos faz a gente acaba descobrindo com o tempo. Enquanto dura o entusiasmo e a juventude, vamos levando. Depois vemos o quanto a gente precisou recuar, se acomodar. Sorte que com a internet foi poss\u00edvel cortar essa press\u00e3o e voltar o front. A posi\u00e7\u00e3o critica eu ganhei na faculdade, militando no movimento estudantil e lendo autores da esquerda. Nas reda\u00e7\u00f5es, \u00e9ramos sempre os insubordinados, fazendo greve, saindo em massa, procurando driblar a censura. Foi barra. Saindo em massa: pedindo demiss\u00e3o em massa, como aconteceu v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>P &#8211; De quem voc\u00ea acha que \u00e9 a culpa do jornalismo sem gra\u00e7a feito hoje em dia?<\/p>\n<p>R &#8211; Das empresas de comunica\u00e7\u00e3o e dos poderes econ\u00f4micos e pol\u00edticos. O jornalismo \u00e9 uma profiss\u00e3o perigosa, tem poder. \u00c9 preciso esvaziar isso, manter o tac\u00e3o, ficar de olho em cima do talento, da coragem, da liberdade de estilo. Vejo o sistema econ\u00f4mico como uma grande ditadura financeira mundial. O pa\u00eds est\u00e1 sintonizado com isso. Acho que continuamos na ditadura, apesar das apar\u00eancias em contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Acho impressionante as consultorias. Eles chegam, fazem a limpa, tiram as pessoas mais capacitadas, deixam apenas a m\u00e3o-de-obra barata, padronizam tudo, levam o ve\u00edculos \u00e0 bancarrota e depois saem para fazer o mesmo servi\u00e7o em outro lugar.<br \/>\nOs consultores n\u00e3o tem qualidade de texto pra passar numa peneira s\u00e9ria. S\u00f3 isso d\u00e1 a dimens\u00e3o dessa sacanagem.<\/p>\n<p>MUITA POESIA NA REDA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>P &#8211; Vamos falar um pouco sobre voc\u00ea agora&#8230; Todos introduzem Nei Ducl\u00f3s como poeta, jornalista e escritor. O que disso tudo voc\u00ea \u00e9 mais (poeta ou jornalista) e quanto de poesia existe no seu modo de fazer jornalismo?<\/p>\n<p>R &#8211; Acho que a literatura te fornece todos os recursos da linguagem. Isso pode ser aplicado ao jornalismo. Veja o caso do Ano da Peste, do Daniel Defoe, sobre a peste bub\u00f4nica no s\u00e9culo 18 em Londres (Artes e Of\u00edcios, 2002, tradu\u00e7\u00e3o de Eduardo San Martin). Ele inventou um narrador fict\u00edcio e usou dados concretos da peste. O resultado, jornalismo liter\u00e1rio, \u00e9 magn\u00edfico, considerado a obra-prima do autor do Robinson Cruso\u00e9.<br \/>\nSou essencialmente poeta. O resto veio depois. Comecei na poesia aos nove anos de idade, no jornalismo aos 20. Mas o jornalismo tamb\u00e9m influiu na minha poesia<\/p>\n<p>P &#8211; Voc\u00ea j\u00e1 publicou seis livros. O que voc\u00ea busca transmitir atrav\u00e9s deles?<\/p>\n<p>R &#8211; S\u00f3 complementando a poesia e o jornalismo. Desculpem a auto-cita\u00e7\u00e3o, mas vejam este poema<\/p>\n<p>TODOS OS DIAS EU DIGO<\/p>\n<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Todos os dias eu digo:<br \/>\nescreverei um poema<br \/>\nTodos os dias eu falho<br \/>\nescrevo acontecimentos<\/p>\n<p>O poema \u00e9 a not\u00edcia<br \/>\nque n\u00e3o veio<br \/>\nque ficou no meio<br \/>\ncensurada pelo tempo<br \/>\n(pela caneta<br \/>\nde um funcion\u00e1rio alheio)<\/p>\n<p>Pois o tempo \u00e9 exigente<br \/>\ne exerce o medo<br \/>\ncomo um c\u00e3o no jardim<br \/>\nde olho azedo<\/p>\n<p>Todos os dias eu pulo<br \/>\nno quintal seco<br \/>\ne sou mordido no ventre<br \/>\n(lugar onde o vento<br \/>\nn\u00e3o chega)<\/p>\n<p>De mim nascer\u00e1 um filho<br \/>\ntalvez eu mesmo<br \/>\nque n\u00e3o morrer\u00e1 t\u00e3o cedo<\/p>\n<p>At\u00e9 l\u00e1<br \/>\nmil gera\u00e7\u00f5es<br \/>\ntombar\u00e3o antes do tempo<br \/>\n(a eternidade n\u00e3o tem<br \/>\na pressa que eu tenho)<\/p>\n<p>P &#8211; T\u00e1 desculpado! rsrs&#8230; muito bom o texto!<\/p>\n<p>R &#8211; A poesia \u00e9 misteriosa, ela vem de algum lugar, nasce muitas vezes pronta, parece ser soprada. Mas o que eu busco \u00e9 expressar a barra de estar vivo e lan\u00e7ar pontes para os contempor\u00e2neos. E tamb\u00e9m viver desse oficio de escritor, o que \u00e9 muito mmais dificil. \u00c9 a fase em que me encontro agora, tentando viver da profiss\u00e3o de escritor.<\/p>\n<p>P &#8211; Voc\u00ea utiliza a poesia como um desabafo?<\/p>\n<p>R &#8211; N\u00e3o, como constru\u00e7\u00e3o de linguagem, como obra que busca a perman\u00eancia. N\u00e3o como div\u00e3, mas como engenharia da linguagem. Poesia para ser dita em voz alta, para convocar, acontecer. \u00c9 a minha pretens\u00e3o e meu sonho.<\/p>\n<p>P &#8211; Outubro, al\u00e9m de ser o m\u00eas de seu anivers\u00e1rio, \u00e9 tamb\u00e9m o t\u00edtulo de seu primeiro livro e nome de seu blog. Qual a sua rela\u00e7\u00e3o com esse m\u00eas (ou com o que parece ser o estado de esp\u00edrito)? Tem a ver s\u00f3 com seu nascimento ou vai al\u00e9m disso?<\/p>\n<p>R &#8211; Outubro \u00e9 mudan\u00e7a de esta\u00e7\u00e3o, chegada de primavera. Tamb\u00e9m lembra a \u00e9poca das revolu\u00e7\u00f5es, a russa, a brasileira de 1930. Outubro \u00e9 tamb\u00e9m uma bomba em termos de vogais e consoantes, palavra muito sonora, que se desdobra em muitas outras. Meus poemas, em sua maioria, est\u00e3o na rede.<\/p>\n<p>P &#8211; Sim, n\u00f3s demos uma espiada antes do chat. hehe<\/p>\n<p>R \u2013 Certo. A rede \u00e9 o fim da gaveta. Fa\u00e7o um poema e imediatamente coloco no ar. Mas sempre fiz poesia enquanto trabalhava em reda\u00e7\u00f5es. Escrevi livros inteiros na hora do expediente<\/p>\n<p>P &#8211; Pode ter certeza de que vamos ser leitores mais ass\u00edduos dos seus textos depois desse papo!<\/p>\n<p>R &#8211; Espero que sim. Um autor precisa de leitores, que tamb\u00e9m s\u00e3o escritores. \u00c9 um c\u00edrculo de grande poder cultural, ler, escrever, compartilhar a obra uns dos outros<\/p>\n<p>P &#8211; Pra encerrar, gostar\u00edamos de fazer mais uma perguntinha sobre jornalismo&#8230;Qual o conselho que voc\u00ea daria aos estudantes de jornalismo que desejam trabalhar em grandes jornais e sonham em ser bem sucedidos?<\/p>\n<p>R &#8211; Diria: sim, \u00e9 poss\u00edvel. Aposte alto. O lugar est\u00e1 te esperando. Vi isso acontecer comigo. Cheguei duro, sem lugar para ficar e de repente estava assinando mat\u00e9ria de capa na Ilustrada. Havia uma vaga de redator l\u00e1, estavam desesperados. Pois ent\u00e3o, cheguei bem na hora. Tem gente demais e vaga de menos? N\u00e3o acredite nisso. Os grande ve\u00edculos s\u00e3o carentes de bons quadros. Acredito porque real. Aposte alto. Jamais diga: isso n\u00e3o \u00e9 para mim. \u00c9, sim, para voc\u00ea. O sucesso \u00e9 justo e deve ser alcan\u00e7ado. N\u00e3o o sucesso a qualquer pre\u00e7o, mas o sucesso que chega a partir de escolhas sinceras, solid\u00e1rias. A \u00e9tica \u00e9 o melhor caminho. Precisa \u00e9 ter f\u00f4lego, paci\u00eancia e determina\u00e7\u00e3o. Coloque-se no miolo do furac\u00e3o. Assuma seu lugar. E prepare-se. Leia, escreva, ouse, informe-se, fique tento aos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>P &#8211; Nei, muito obrigada pelo papo! Foi um prazer conversar com voc\u00ea, saber das suas id\u00e9ias&#8230; agradecemos muito pela aten\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>R &#8211; Acho que \u00e9 isso. Vim de longe de uma pequena cidade do interior, sem nenhuma pessoa da fam\u00edlia jornalista. Inventei o caminho. Numa \u00e9poca braba. Vi isso acontecer com muitos de n\u00f3s.<\/p>\n<p>P &#8211; Levaremos com muito carinho seus conselhos e um pouco da sua experi\u00eancia, pra servir de exemplo, n\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>R &#8211; Eu \u00e9 que agrade\u00e7o. Fico feliz e repito, honrado. Mantenham contato comigo.<br \/>\nSempre que precisar, estou \u00e1 disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P &#8211; N\u00f3s podemos entrar em contato pra fazer mais algumas perguntas, eventualmente?<\/p>\n<p>R &#8211; Claro, \u00e0 vontade<\/p>\n<p>P &#8211; Ok, ent\u00e3o!<\/p>\n<p>R &#8211; Maravilha, boa tarde a todos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gra\u00e7as ao jornalista e professor F\u00e1bio Mayer, com quem tive o privil\u00e9gio de trabalhar por tr\u00eas anos na revista Empreendedor, aqui de Florian\u00f3polis, todo semestre tenho o prazer de conversar via chat com seus alunos de jornalismo da UFSC. O bom \u00e9 que o exerc\u00edcio est\u00e1 me dando cancha, como se diz em Uruguaiana,e cada chat fica melhor, principalmente porque fico mais atento ao que me perguntam e estou mais preparado para responder (o h\u00e1bito ensina). \u00c9 uma conversa de mais de uma hora, que est\u00e1 integralmente reproduzida aqui. Fica como registro do evento e documento para quem se interessar pelo assunto.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/491"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=491"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/491\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1792,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/491\/revisions\/1792"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=491"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}