{"id":493,"date":"2009-12-11T00:49:43","date_gmt":"2009-12-11T02:49:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=493"},"modified":"2010-03-11T23:15:46","modified_gmt":"2010-03-12T02:15:46","slug":"mestre-ozu-o-movimento-na-imobilidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/mestre-ozu-o-movimento-na-imobilidade","title":{"rendered":"MESTRE OZU, O MOVIMENTO NA IMOBILIDADE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nCostuma-se chamar Yasujiro Ozu (1903-1963), o cl\u00e1ssico cineasta japon\u00eas, de pintor, pelo apuro da composi\u00e7\u00e3o visual, que faria de cada filme uma exposi\u00e7\u00e3o de arte. Ozu deve ser enquadrado pelo que \u00e9 e n\u00e3o pelo que a intelig\u00eancia da cr\u00edtica sugere ser. \u00c9 cineasta, e como tal vive do movimento. Seus filmes mant\u00eam a postura r\u00edgida imposta pela cultura, a tradi\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o. Mas desfolham, como os cataventos, que ficam fixos no horizonte enquanto giram suas h\u00e9lices para provar que tudo sopra ao redor.<\/p>\n<p>Uma cena de <em>O sabor do ch\u00e1 verde sobre o arroz<\/em> ilustra essa s\u00edntese. O protagonista, funcion\u00e1rio de uma multinacional, viaja para o Uruguai a bordo de um avi\u00e3o. No aeroporto, colegas, amigos e parentes se despedem. Est\u00e3o todos perfilados, fixos, de p\u00e9, r\u00edgidos. Mas seus bra\u00e7os e m\u00e3os giram no gesto de adeus. Pode ser encarado como uma met\u00e1fora do cinema do Ozu. O japon\u00eas mant\u00e9m a postura, mas ele est\u00e1 mudando.<\/p>\n<p>No final do filme que \u00e9 considerado sua obra-prima, <em>Viagem a T\u00f3quio<\/em>, o vi\u00favo e a nora ficam em frente ao porto. Im\u00f3veis, contemplam os navios em movimento. \u00c9 assim o tempo todo. Seu cinema \u00e9 uma vitrine r\u00edgida que enfrenta a decomposi\u00e7\u00e3o, a press\u00e3o do tempo, da idade, das mudan\u00e7as. Aparentemente, nada acontece. Jamais os personagens mudam o tom da voz. Nunca deixam de sorrir, mesmo diante da mais completa trag\u00e9dia. Mas h\u00e1 crueldade nessa sociedade t\u00e3o arrumada e tudo indica que ela entrar\u00e1 em colapso.<\/p>\n<p>Em Viagem a T\u00f3quio, o casal de idosos que vai visitar os filhos e por eles s\u00e3o recebidos com indiferen\u00e7a, acabam ficando na rua, tendo que improvisar um pouso. Isso \u00e9 fatal para o equil\u00edbrio f\u00edsico e emocional dos dois, que voltam para casa com as seq\u00fcelas da visita desastrada. Nada escapa da vista de Ozu. A vizinha invejosa que deseja toda a felicidade do mundo na viagem, as pessoas que n\u00e3o cansam de dizer como s\u00e3o sortudos, tudo isso \u00e9 contrariado pela realidade: um pa\u00eds marcado pelos massacres e a guerra, em que as fam\u00edlias enlutadas enfrentam a decomposi\u00e7\u00e3o e a morte em meio a uma rotina brutal, de um pa\u00eds cl\u00e1ssico que incorporou a modernidade e nela comp\u00f5e uma transforma\u00e7\u00e3o profunda.<\/p>\n<p>Gostam de dizer que o cameraman de Ozu filmava de c\u00f3coras. Esquecem de notar que esse olhar, formatado pela postura do corpo que n\u00e3o usa cadeiras nem sof\u00e1s nem camas, \u00e9 o que define a cultura japonesa. Ozu n\u00e3o poderia filmar com o olhar acima da cabe\u00e7a de seus personagens, que passam a maior parte do tempo no ch\u00e3o, conversando, comendo, rezando, dormindo. Nele, o cinema \u00e9 mais embaixo, ou seja, fica abaixo do n\u00edvel definido como \u201cnormal\u201d pelo ocidente, que dirige filmes sentado na cadeira (e as c\u00e2maras rodopiando no alto), como n\u00e3o cansa de nos mostrar a foto cl\u00e1ssica do diretor em frente \u00e0 cena que est\u00e1 sendo filmada.<\/p>\n<p>Cinema \u00e9 o olhar do espectador formatado pela postura da c\u00e2mara. Ozu enxerga a realidade com sua c\u00e2mara ao n\u00edvel do olhar dos seus protagonistas. Quando sentam em bancos altos, como acontece no bar, \u00e9 para beber at\u00e9 cair, para experimentar a decad\u00eancia. Mas suas constata\u00e7\u00f5es n\u00e3o compartilham do desespero da paisagem aparentemente imut\u00e1vel e dos personagens que enfrentam dor e remorso. Ele \u00e9 po\u00e9tico, o que \u00e9 sua salva\u00e7\u00e3o e sua gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mestre Ozu: cinema obrigat\u00f3rio, did\u00e1tico. Fundamento da S\u00e9tima Arte, influ\u00eancia total em Wim Wenders e Jim Jarmush, entre outros. Ver Ozu \u00e9 adotar o h\u00e1bito de curvar-se em sinal de respeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Costuma-se chamar Yasujiro Ozu (1903-1963), o cl\u00e1ssico cineasta japon\u00eas, de pintor, pelo apuro da composi\u00e7\u00e3o visual, que faria de cada filme uma exposi\u00e7\u00e3o de arte. Ozu deve ser enquadrado pelo que \u00e9 e n\u00e3o pelo que a intelig\u00eancia da cr\u00edtica sugere ser. \u00c9 cineasta, e como tal vive do movimento. Seus filmes mant\u00eam a postura r\u00edgida imposta pela cultura, a tradi\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o. 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