{"id":50,"date":"2005-05-13T21:45:40","date_gmt":"2005-05-13T23:45:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=50"},"modified":"2009-12-20T21:36:08","modified_gmt":"2009-12-20T23:36:08","slug":"brizola-de-corpo-presente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/brizola-de-corpo-presente","title":{"rendered":"BRIZOLA, DE CORPO PRESENTE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Agora estamos s\u00f3s, Brizola. Partes para a nossa terra e nos deixas na m\u00e3o dos tiranos, que se revezam na m\u00eddia dizendo as maiores barbaridades, como se pertencesses ao passado, ao que chamam de &#8220;Hist\u00f3ria&#8221;. Eles distorcem a verdade, como sempre, porque disso tiram proveito com seus dentes cheios de sangue. Mas todos sabem que tu \u00e9s a Hist\u00f3ria, Brizola, n\u00e3o foste a reboque dela, nem ficaste preso ao s\u00e9culo 20. Cruzaste o umbral do mil\u00eanio armado de tua longevidade e estavas no front quando te colocaram na maca para te perfurar os \u00f3rg\u00e3os, pesquisar tuas dores, intervir no teu corpo, agora presente no Rio, em Porto Alegre e definitivamente na terra dos presidentes, S\u00e3o Borja.<\/p>\n<p><strong>S\u00c3O BORJA<\/strong> &#8211; Estive uma vez em S\u00e3o Borja numa viagem dif\u00edcil que fiz com meu pai dentro de um velho jipe Candango, desconfort\u00e1vel, numa estrada de lama. Tivemos que contornar Itaqui, fomos por lugares ermos, caiu a noite. T\u00ednhamos almo\u00e7ado na estrada na Pens\u00e3o da Si\u00e1 Chica, onde fomos servidos pelo dono, um enorme senhor negro, s\u00e9rio, nobre na sua postura de ga\u00facho estradeiro. Encontrei ent\u00e3o no dia seguinte a terra que agora vais ser enterrado, querido amigo. Parecia Uruguaiana, era quase id\u00eantica, com suas ruas, cal\u00e7adas, pra\u00e7as. Tinha um ar de capital de um pa\u00eds long\u00ednquo, o que um dia foi conhecido como Brasil. Fazia sol nesse dia, Brizola, e toda a cidade tinha o clima da grandeza dos her\u00f3is que l\u00e1 est\u00e3o enterrados. Agora tu, Brizola, que n\u00e3o tiveste a ventura de ser nosso presidente. Tiveste a hombridade de apoiar os que te apunhalaram. Pensando no pa\u00eds, que entregaram, na democracia, que enfim n\u00e3o veio, abriste espa\u00e7o e deste votos para esse governo que traiu o povo e que subiu ao Planalto gra\u00e7as aos teus votos, Brizola. Um desses votos foi o meu, querido amigo. Agora parece que o tal presidente vai abrir um claro na agenda para visitar teu corpo, como se ele fosse grande coisa, esse engano pol\u00edtico, essa trag\u00e9dia que quer mais um mandato, mais um! Para qu\u00ea? Mas, escaldado na experi\u00eancia de Get\u00falio e Jango, aprendeste que apoiar um presidente eleito \u00e9 mais importante do que qualquer outra coisa. Por isso apoiaste os presidentes por certo tempo, Brizola, porque Get\u00falio, do t\u00famulo, te advertia. Claro que n\u00e3o entenderam esse gesto hist\u00f3rico, Brizola. Eles n\u00e3o queriam entender, queriam apenas te enterrar vivo.<\/p>\n<p><strong>PRESIDENTE<\/strong> &#8211; Agora clamam tua coer\u00eancia, tua honradez, tua honestidade. Mas ficaram d\u00e9cadas falando mal da tua fazendinha no Uruguai, a mesma que compraste em troca do peda\u00e7o de terra a que tinhas direito em S\u00e3o Borja, e que quase perdeste, pois at\u00e9 isso os verdugos de 64 fizeram. Eles deram o golpe para impedir tua presid\u00eancia Brizola. O regime de 64, que ainda est\u00e1 em vigor, tinha s\u00f3 esse objetivo: impedir que fosses nosso querido e amado presidente da Rep\u00fablica do Brasil. Conseguiram, Brizola. Ah, dor infinita dessa chance perdida. Tua plataforma era clara como \u00e1gua que brota do pampa: dar de comer a quem tem fome, dar escola a quem tem sede de saber, permitir dignidade ao povo brasileiro e soberania ao nosso territ\u00f3rio. Pois tudo isso \u00e9 considerado passado, Brizola. O eterno presente \u00e9 esse pesadelo de dor e viol\u00eancia, de morte certa em todas as ruas e casas. Ca\u00edmos num horror sem fim. Quando chegaste do ex\u00edlio, bradavas que mulher nenhuma poderia andar pelas cal\u00e7adas do Brasil empurrando um carrinho de beb\u00ea. Porque temos carros, mas n\u00e3o ruas. Temos soja, mas n\u00e3o cal\u00e7adas. Temos tiros, mas n\u00e3o trigo. Temos gente escandalizada porque teu estado ideal era o estado getulista. Eles preferem a Rep\u00fablica Velha, Brizola. Eles se acham modernos, mas Get\u00falio foi o inventor do Brasil moderno, como disse uma vez Samuel Wainer numa edi\u00e7\u00e3o do Folhetim, da Folha, quando era editado pelo Tarso de Castro. Get\u00falio amparou o trabalho e a ind\u00fastria, viabilizou a elite fora do garrote do campo e inventou o oper\u00e1rio remunerado, implantou a infra-estrutura em Volta Redonda, a Petrobr\u00e1s e a Eletrobr\u00e1s (que hoje s\u00e3o sucatas do que foram, institui\u00e7\u00f5es de um pa\u00eds soberano). Foi destru\u00eddo pelos donos do planeta. Estive com Samuel, estive com Tarso. Ia, no fundo, atr\u00e1s de ti. Queria ser algu\u00e9m pr\u00f3ximo a ti, mas n\u00e3o deu certo. Por isso fiz aquele poema que deu t\u00edtulo ao meu livro, No Mar, Veremos, dedicado a ti, pensando em ti, mas nunca falei isso para ningu\u00e9m, porque me iludia que o poema poderia te transcender, fazer parte de outras paragens. Mas tu \u00e9s o pescador de rio moreno, tu \u00e9s o charrua de preta escama e \u00e9 tu, Brizola, que vem do levante.<\/p>\n<p><strong>P\u00c1TRIA<\/strong> &#8211; Tu \u00e9 o cara, Leonel Brizola. O cara que precis\u00e1vamos para ocupar a presid\u00eancia. Mas foste embora sem realizar esse sonho. Ficamos com sarneys, itamares, collors, fhcs e lulas, sucess\u00e3o de mediocridades criminosas, que baixaram as cal\u00e7as para os estrangeiros, que entregaram o pa\u00eds de bandeja para posar de estadistas. \u00c9 coincid\u00eancia, Brizola, que eu esteja em Florian\u00f3polis ao receber a not\u00edcia da tua morte? Lembro que aqui estava quando Glauber Rocha morreu. Quando finalmente volto para o Planeta Terra, para o Brasil que ainda existe, um punhal se crava sobre esses brasileiros das alturas, esses gigantes que nos abra\u00e7am com sua generosidade. Ligo a televis\u00e3o e o que vejo? Pobres criaturas sem escola rebolando sem parar (para isso treinam o povo brasileiro, para rebolar diante do mundo pirata e bandido), publicidade sobre tudo, nada de cultura, nada de emo\u00e7\u00e3o, nada de arte, nada do teu funeral, Brizola, a n\u00e3o ser esses monstros vertendo l\u00e1grimas de crocodilo. E claro, tem o povo. O povo que agora chamam de choldra, patul\u00e9ia, vi\u00fava. Mas que chamavas, com o maior respeito, de meus compatriotas. Compartilhamos a p\u00e1tria, querido amigo. A p\u00e1tria que n\u00e3o te viu no poder federal, como impunha a Hist\u00f3ria, e hoje pagamos caro por isso. Hoje choramos de verdade, l\u00e1grimas de guerreiros diante da batalha perdida, mas tr\u00eamulos de f\u00faria diante da guerra que ainda h\u00e1 de vir. Porque n\u00e3o \u00e9s passado, Brizola. \u00c9s Hist\u00f3ria, e ela se faz com luta. O trabalhismo vencer\u00e1. Para isso, vamos mover c\u00e9us e terra. Iluminados pelo teu exemplo. Carregados pela tua for\u00e7a. L\u00facidos por tuas palavras. Tua morte desmascara os fantoches que dominam o pa\u00eds. Agora adiam a vota\u00e7\u00e3o da merreca m\u00ednima, deboche contra essa institui\u00e7\u00e3o trabalhista, sucateada como todas as outras. Por que? Porque \u00e9 uma vergonha, uma mesquinharia, diante do teu corpo presente, companheiro, amigo, patriota. Presidente que n\u00e3o tivemos, grandeza que agora herdamos, com os ombros pesados que levam teu corpo, enfim morto, para a eternidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora estamos s\u00f3s, Brizola. 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