{"id":501,"date":"2009-12-11T01:13:15","date_gmt":"2009-12-11T03:13:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=501"},"modified":"2009-12-22T00:29:30","modified_gmt":"2009-12-22T02:29:30","slug":"iluminacoes-de-%e2%80%9co-leitor%e2%80%9d","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/iluminacoes-de-%e2%80%9co-leitor%e2%80%9d","title":{"rendered":"ILUMINA\u00c7\u00d5ES DE \u201cO LEITOR\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA massa cr\u00edtica dos espectadores \u2013 v\u00ea-se pelos coment\u00e1rios nos blogs dos especialistas e pela prolifera\u00e7\u00e3o de textos e autores sobre os filmes \u2013 cobre de desconfian\u00e7a lan\u00e7amentos premiados da ind\u00fastria. \u00c9 uma sinuca de bico: o Oscar \u00e9 justo ou apenas faz parte do lobby? Os truques do cineasta funcionam e devem ser celebrados ou tudo n\u00e3o passa de arma\u00e7\u00e3o de ilusionistas milion\u00e1rios? A carga brutal de obras que s\u00e3o despejadas no mercado funciona como uma armadilha da percep\u00e7\u00e3o. Gostar de um filme famoso significa render-se aos planejamentos dos executivos do ramo? Ou seria mais prudente invocar o cult para desmoralizar o megasucesso?<\/p>\n<p>Como n\u00e3o sou cr\u00edtico e sim um cronista de cinema \u2013 que \u00e0s vezes consegue interferir com alguns aspectos do ensaio, ou seja, contribuindo com id\u00e9ias originais sobre o tema \u2013 e publico numa m\u00eddia pessoal, este Di\u00e1rio da Fonte, j\u00e1 no oitavo ano de exist\u00eancia, n\u00e3o sofro as press\u00f5es de prazos nem de leituras. Fico assim mais \u00e0 vontade para escrever sobre tudo sem me envolver nesse jogo. Pelo menos, assim imagino.<\/p>\n<p>Quem comenta em espa\u00e7os jornal\u00edsticos da S\u00e9tima Arte \u00e9 tamb\u00e9m cin\u00e9filo e possui, como muitas vezes acontece, alguns cacoetes dos cr\u00edticos. Quais s\u00e3o eles? Tratar com um certo ar blas\u00e9 todo filme muito bem embalado, bater em alguns consensos (como a performance de uma atriz ou uma produ\u00e7\u00e3o caprichada) e despejar maldades usando compara\u00e7\u00f5es com outros que, s\u00e3o, em tese, muito mais importantes e melhor realizados.<\/p>\n<p><em>O Leitor<\/em>, terceiro longa de Stephen Daldry , que nos deu o magn\u00edfico<em> As horas <\/em>(que gerou o insight do t\u00edtulo do meu futuro livro \u201cTodo filme \u00e9 sobre cinema\u201d) encara esse cerco. Kate Winslet, vencedora do Oscar deste ano como melhor atriz, \u00e9 elogiada, mas n\u00e3o a maquiagem que a envelheceu 40 anos e que considero perfeita. O tema do Holocausto e a lavagem de roupa suja depois da II Guerra \u00e9 considerado \u201cpano de fundo\u201d. Implico com esse conceito, pois n\u00e3o h\u00e1 pano em cinema, muito menos de fundo. O que est\u00e1 aparentemente \u201cno fundo\u201d de uma trama \u00e9 a sua ess\u00eancia, \u00e9 sobre isso que trata a obra.<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria, neste trabalho iluminado como se fosse um quadro da Renascen\u00e7a, \u00e9 compromisso coletivo e culpa. O perd\u00e3o, que \u00e9 a proposta do filme, \u00e9 um outsider do evento hist\u00f3rico, foi marginalizado pelos tribunais, os sobreviventes e os realmente culpados. A trag\u00e9dia agora, depois da carnificina, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 remorso, mas sim o mil\u00e9simo est\u00e1gio da vingan\u00e7a. Quando uma sociedade procura se vingar n\u00e3o s\u00f3 dos estadistas que inventaram o horror, mas dos seus mais humildes subalternos, \u00e9 preciso continuar procurando o bode expiat\u00f3rio, a pessoa indicada pelas evid\u00eancias da lei, que vai carregar o peso do mundo. Essa \u00e9 a chance de o resto (que compartilha da responsabilidade) poder se safar, ou pelo menos sair com menos arranh\u00f5es.<\/p>\n<p>A condena\u00e7\u00e3o da protagonista livra os outros da mancha. Mas, diante da lei, ela seria inocente, pois n\u00e3o assume um segredo e isso \u00e9 sua perdi\u00e7\u00e3o. Acaba arrostando todo o pecado, primeiro porque foi sincera e disse a verdade (n\u00e3o cometeu o crime sozinha) e segundo porque n\u00e3o contou seu segredo, que poderia salv\u00e1-la (ela n\u00e3o liderou o massacre). O ex-amante, que a conheceu oito anos antes, interpretado na juventude por David Kross e na maturidade por Ralph Fiennes, n\u00e3o interfere no julgamento, quando seu testemunho poderia salv\u00e1-la, pelo menos da acusa\u00e7\u00e3o mais grave (a de responsabilizar-se pela mortandade numa aldeia).<\/p>\n<p>A culpa assim migra da personagem para a coletividade e para quem a amava sem saber. Isso d\u00e1 grande complexidade a um tema super-explorado e ilumina as decis\u00f5es pessoais com a gravidade real dos eventos e n\u00e3o com seus escapes, suas argumenta\u00e7\u00f5es falsas, suas fantasias. A vida n\u00e3o brinca com ningu\u00e9m, muito menos com quem se considera imune a qualquer crime, j\u00e1 que pertenceria \u00e0 por\u00e7\u00e3o virtuosa de humanidade. N\u00e3o existem virtudes, mas leis. N\u00e3o existe fuga, mas comprometimento, volunt\u00e1rio ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o amor, mas para a Justi\u00e7a. Tanto a rela\u00e7\u00e3o amorosa quanto o julgamento no tribunal fazem parte da escassez humana que acaba se impondo d\u00e9cadas afora. S\u00e3o engolidos pela secura do cora\u00e7\u00e3o e a incapacidade de se olhar para a frente e reinventar o futuro. O amor antes do julgamento seria a chance perdida de uma sociedade que j\u00e1 tinha pago seus pecados.<\/p>\n<p>Cinema \u00e9 a arte suprema sobre seu pr\u00f3prio objeto. Que n\u00e3o s\u00e3o as pessoas, os sentimentos, as leis, as guerras ou as mem\u00f3rias. E sim, o cinema mesmo, iluminado pela compet\u00eancia t\u00e9cnica e a grandeza da cultura. \u201cO Leitor\u201d se presta a revela\u00e7\u00f5es importantes sobre como os envolvemos com pessoas e acabamos nos livrando delas. Para isso, usa a linguagem que lhe \u00e9 pr\u00f3pria, e que Godard, no tempo do celul\u00f3ide, chamava de \u201ca verdade a 24 quadros por segundo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria, no filme O Leitor, de Stephen Daldry, um trabalho iluminado como se fosse um quadro da Renascen\u00e7a, \u00e9 compromisso coletivo e culpa. O perd\u00e3o, que \u00e9 a proposta do filme, \u00e9 um outsider do evento hist\u00f3rico, foi marginalizado pelos tribunais, os sobreviventes e os realmente culpados. A trag\u00e9dia agora, depois da carnificina, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 remorso, mas sim o mil\u00e9simo est\u00e1gio da vingan\u00e7a. Quando uma sociedade procura se vingar n\u00e3o s\u00f3 dos estadistas que inventaram o horror, mas dos seus mais humildes subalternos, \u00e9 preciso continuar procurando o bode expiat\u00f3rio, a pessoa indicada pelas evid\u00eancias da lei, que vai carregar o peso do mundo. 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