{"id":503,"date":"2009-12-11T01:14:23","date_gmt":"2009-12-11T03:14:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=503"},"modified":"2009-12-21T23:58:56","modified_gmt":"2009-12-22T01:58:56","slug":"a-cia-como-soma-de-tragedias-pessoais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-cia-como-soma-de-tragedias-pessoais","title":{"rendered":"A CIA COMO SOMA DE TRAG\u00c9DIAS PESSOAIS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO novo irm\u00e3os Cohen, <em>Queime depois de ler<\/em>, \u00e9 sobre filme de espionagem filtrado pelo seu deboche, a famosa s\u00e9rie de TV, Agente 86. \u201cFique esperto\u201d, sugere o nome do protagonista da s\u00e9rie, Get Smart, mas, diz o filme dos Cohen, ag\u00fcente as conseq\u00fc\u00eancias. \u00c9 uma abordagem metida a politicamente correta da ag\u00eancia, feita por meio da com\u00e9dia ligeira, das trag\u00e9dias provocadas pela irresponsabilidade das chefias e do vazio da vida americana hoje. \u00c9 uma dose de inten\u00e7\u00f5es que des\u00e1guam, em sua maior parte, num trabalho for\u00e7ado e apelativo, salvo pela alta dosagem de talento de diretores, que sempre nos d\u00e3o filmes excelentes; roteiristas (arma\u00e7\u00f5es imbricadas num ritmo que chega ao del\u00edrio); e atores \u00f3timos, como John Malkovitch, George Clooney, Brad Pitt, Richard Jenkins, junto com o arraso das atrizes Frances McDormand e Tilda Swinton.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 um conjunto de qualidades que formatam uma besteira comercial. Vamos decidir que \u00e9 algo proposital, que o foco dos diretores n\u00e3o escorregou na maionese de seus pr\u00f3prios exageros. O mais grave, me parece, \u00e9 desprezar a CIA, como se ela tivesse perdido completamente suas fun\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o da presen\u00e7a hegem\u00f4nica da Am\u00e9rica no mundo. Sabemos que n\u00e3o \u00e9 bem assim. Mas h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o de falta de respeito, entre a intelligentsia americana, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ag\u00eancia, como se a por\u00e7\u00e3o progressista da Am\u00e9rica se envergonhasse da sua espionagem oficial como forma de purgar os pecados da na\u00e7\u00e3o-imp\u00e9rio. N\u00e3o tem como escapar: por mais que esperneiem, s\u00e3o todos coniventes e a CIA est\u00e1 mais atuante do que nunca. Por ser uma institui\u00e7\u00e3o gigantesca, que age no mundo inteiro h\u00e1 d\u00e9cadas, tendo feito um monte de barbaridades e sacanagens, \u00e9 claro que se presta a equ\u00edvocos. Isso abre a guarda para o achincalhe.<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a e o despreparo dos agentes diante de um evento bizarro \u2013 a interfer\u00eancia de um casal comum, de amadores, nos neg\u00f3cios da espionagem \u2013 ousam segurar o filme. Os Cohen intensificaram a caricatura para arrancar gargalhadas e l\u00e1grimas \u2013 j\u00e1 que tudo \u00e9 apenas show-bizz \u2013 e o resultado \u00e9 confuso. A falta de sentido de vidas n\u00e3o solid\u00e1rias, casadas com suas carreiras, nas m\u00e3os de advogados fac\u00ednoras , \u00e0s portas da bancarrota financeira pessoal, sem recursos ou capacidade para realizar seus sonhos (um livro, uma cirurgia pl\u00e1stica, um div\u00f3rcio) permeiam as a\u00e7\u00f5es da CIA, que no filme acaba sendo a representa\u00e7\u00e3o dessa trag\u00e9dia coletiva.<\/p>\n<p>A vida social da Am\u00e9rica estaria num beco sem sa\u00edda depois da Guerra Fria, como ocorre com a ag\u00eancia. As pessoas se entredevoram (\u201ctodos est\u00e3o transando com todo mundo\u201d, diz um agente) procuram se preservar diante da idade, das trai\u00e7\u00f5es, dos custos de uma vida artificial. De todas as performances, se sobressai a de Brad Pitt, como o personal trainer sem escr\u00fapulos, burro e superficial. O cara que nos provocava medo com o sil\u00eancio de seu personagem Jesse James, atinge n\u00edveis de hilariedade perversa como o sujeito que tenta chantagear o agente Malkovitch. Este, no papel de um fracassado alco\u00f3latra e neurast\u00eanico, \u00e9 a implos\u00e3o americana diante dos impasses nacionais.<\/p>\n<p>George Clooney abre m\u00e3o de sua imagem de maturidade bem resolvida e s\u00e9ria, presente em todos os filmes onde atua ou dirige. Ele faz um galinh\u00e3o asqueroso, assumindo a facilidade do comportamento virando-se contra o indiv\u00edduo que pretensamente deveria usufruir da liberdade narcisista e brutal. Elizabeth Marvel, no papel de sua esposa, autora de livros infantis, seria o \u00faltimo reduto da fidelidade, sobreviv\u00eancia de uma realidade conjugal que n\u00e3o existe mais, pelo menos no filme. Tilda Swinton \u00e9 \u201ca vaca fria\u201d (segundo suas detratoras), que s\u00f3 pensa em seu patrim\u00f4nio, no amante e na maneira de se manter \u00e0 tona no mundo sem lei.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea me perguntar se gostei do filme, digo que n\u00e3o. Mas n\u00e3o posso simplesmente achar uma droga algo que exp\u00f5e tanta coisa e possui tantas atra\u00e7\u00f5es. Mesmo sem salvar totalmente o filme, elas mostram um trabalho forte, acima do que existe normalmente na programa\u00e7\u00e3o. Escrever sobre \u201cQueime depois de ler\u201d \u00e9 resistir a tenta\u00e7\u00e3o de dizer: \u201cEsque\u00e7a depois de ver\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A indiferen\u00e7a e o despreparo dos agentes diante de um evento bizarro \u2013 a interfer\u00eancia de um casal comum, de amadores, nos neg\u00f3cios da espionagem \u2013 ousam segurar o filme Queime depois de ler. Os irm\u00e3os Cohen intensificaram a caricatura para arrancar gargalhadas e l\u00e1grimas \u2013 j\u00e1 que tudo \u00e9 apenas show-bizz \u2013 e o resultado \u00e9 confuso. A falta de sentido de vidas n\u00e3o solid\u00e1rias, casadas com suas carreiras, nas m\u00e3os de advogados fac\u00ednoras , \u00e0s portas da bancarrota financeira pessoal, sem recursos ou capacidade para realizar seus sonhos (um livro, uma cirurgia pl\u00e1stica, um div\u00f3rcio) permeiam as a\u00e7\u00f5es da CIA, que no filme acaba sendo a representa\u00e7\u00e3o dessa trag\u00e9dia coletiva.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=503"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1876,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503\/revisions\/1876"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}