{"id":505,"date":"2009-12-11T01:15:24","date_gmt":"2009-12-11T03:15:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=505"},"modified":"2009-12-21T23:45:57","modified_gmt":"2009-12-22T01:45:57","slug":"che-parte-i-revolucao-e-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/che-parte-i-revolucao-e-linguagem","title":{"rendered":"CHE, PARTE I: REVOLU\u00c7\u00c3O \u00c9 LINGUAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\n<strong>Che, o Argentino<\/strong>, primeira parte do filme de quatro horas do cineasta Steven Soderbergh, com Benicio Del Toro no papel principal, pode ser comparada a Queimada, de Gillo Pontecorvo: \u00e9 uma obra did\u00e1tica sobre a revolu\u00e7\u00e3o. Queimada \u00e9 marxismo cl\u00e1ssico \u2013 a tomada do poder pela burguesia, que vence a aristocracia intensificando as lutas populares e delas tirando o melhor proveito. Che \u00e9 guerrilha: o n\u00facleo rebelde define uma a\u00e7\u00e3o que aglutina as oposi\u00e7\u00f5es e convence o povo a derrubar o regime, no caso a ditadura de Fulgencio Batista. Ambas s\u00e3o linguagem: as armas obedecem \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o das palavras, o texto que se imp\u00f5e por todos os meios.<\/p>\n<p>Antes de ser a\u00e7\u00e3o, a linguagem revolucion\u00e1ria \u00e9 um exerc\u00edcio de auto-convencimento por meio da argumenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, ou melhor, por meio da composi\u00e7\u00e3o de um discurso dial\u00e9tico, que faz interagir condi\u00e7\u00f5es objetivas para a guerra com decis\u00f5es acertadas pela clareza das posi\u00e7\u00f5es dos combatentes. Fidel Castro \u00e9 um emissor principal dessa sedu\u00e7\u00e3o dos argumentos. Ele escuta a pr\u00f3pria voz para que obtenha sucesso, ou seja, chegue aos receptores. Fidel \u00e9 pol\u00edtica: \u201cSe tomarmos um caminh\u00e3o, o inimigo dir\u00e1 que foi um acidente de estrada; se tomarmos um quartel, provocaremos um impacto psicol\u00f3gico na na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Che \u00e9 estrat\u00e9gia: quando necess\u00e1rio, cuida da retaguarda; investe sem ajuda dos refor\u00e7os, porque acha menos perigoso do que ficar parado; re\u00fane as for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o por meio da centraliza\u00e7\u00e3o do comando no front. E se coloca na vanguarda, onde corre bala, conseguindo com isso duras advert\u00eancias do seu l\u00edder. Baseado no livro de Che, \u201c Passagens da guerra revolucion\u00e1ria\u201d, o filme trabalha o envolvimento do m\u00e9dico argentino que vira guerrilheiro cubano. Divide-se em guerra rural e guerra urbana. A primeira \u00e9 o in\u00edcio, a base: a falta de f\u00f4lego, a dispers\u00e3o, a fraqueza e a organiza\u00e7\u00e3o. A segunda \u00e9 a c\u00fapula: os tiros dados casa a casa, a marreta que cruza cinco paredes at\u00e9 chegar \u00e0 igreja onde se esconde o inimigo; o tiro certeiro no companheiro que sobe no terra\u00e7o para espiar; o morteiro estra\u00e7alhando um tanque.<\/p>\n<p>Nos dois ambientes, sempre, a catequese. Na selva, a fala \u00e0 tropa, o combate \u00e0s defec\u00e7\u00f5es, \u00e0s trai\u00e7\u00f5es, aos abusos. No meio da natureza e das planta\u00e7\u00f5es, a semeadura da \u00e9tica, para diferenciar revolu\u00e7\u00e3o de golpe e luta de carnificina. Nas cidades, o aceno aos soldados do governo para que deponham as armas, as negocia\u00e7\u00f5es duras com os oficiais do regime, o pronunciamento por meio da r\u00e1dio, as aclama\u00e7\u00f5es populares. Do mato ao tijolo, a linguagem costura os atos e em cada epis\u00f3dio h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea monta a guarda, deve cuidar para que funcione; se voc\u00ea assume a tropa, se prepare pois ficar\u00e1 dias sem comer e dormir\u00e1 embaixo da chuva; se desertar, deponha as armas e n\u00e3o permane\u00e7a mais do que 30 minutos no acampamento; se a igreja \u00e9 o lugar mais alto, deve ser tomada imediatamente; se n\u00e3o houver rendi\u00e7\u00e3o em uma hora e onze minutos, o oficial renitente ser\u00e1 responsabilizado pela matan\u00e7a; se n\u00e3o souber ler e escrever, ficar\u00e1 \u00e0 merc\u00ea dos ditadores; se lutar sem amor, n\u00e3o ver\u00e1 sentido na luta.<\/p>\n<p>Fiquei estarrecido com a rid\u00edcula jornalista de Miami que ficou torrando o Ben\u00edcio Del Toro sobre Che, dizendo que ele encarnava um assassino odiado por seus atos. Del Toro travou, n\u00e3o respondeu nada. S\u00e3o falas incomensur\u00e1veis. A comunicadora de araque que confunde cinema com posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica; e o tremendo ator que ao desistir de imitar Che encontrou o caminho para interpret\u00e1-lo. S\u00f3 a arte salva. O filme que permanece fiel a um texto, acaba convencendo. E a m\u00eddia obcecada com id\u00e9ias fixas, perde a credibilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Che, o Argentino, primeira parte do filme de quatro horas do cineasta Steven Soderbergh, com Benicio Del Toro no papel principal, pode ser comparada a Queimada, de Gillo Pontecorvo: \u00e9 uma obra did\u00e1tica sobre a revolu\u00e7\u00e3o. Queimada \u00e9 marxismo cl\u00e1ssico \u2013 a tomada do poder pela burguesia, que vence a aristocracia intensificando as lutas populares e delas tirando o melhor proveito. Che \u00e9 guerrilha: o n\u00facleo rebelde define uma a\u00e7\u00e3o que aglutina as oposi\u00e7\u00f5es e convence o povo a derrubar o regime, no caso a ditadura de Fulgencio Batista. Ambas s\u00e3o linguagem: as armas obedecem \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o das palavras, o texto que se imp\u00f5e por todos os meios.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=505"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1846,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505\/revisions\/1846"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}