{"id":507,"date":"2009-12-11T01:16:16","date_gmt":"2009-12-11T03:16:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=507"},"modified":"2009-12-21T23:46:13","modified_gmt":"2009-12-22T01:46:13","slug":"che-parte-ii-a-luta-depois-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/che-parte-ii-a-luta-depois-da-morte","title":{"rendered":"CHE, PARTE II: A LUTA DEPOIS DA MORTE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\n\u201cPara vencer nessa selva, \u00e9 preciso lutar como se j\u00e1 estivesse morto\u201d, diz Ernesto Guevara para o companheiro que sonha em deixar a guerrilha. Ou seja, \u00e9 preciso entregar-se n\u00e3o porque exista o sentimento de perdi\u00e7\u00e3o e derrota, mas porque a esperan\u00e7a de manter a vida que se pretende soterrar atrapalha o foco da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Se voc\u00ea quer mudar o mundo, precisa mudar sua vida, morrer para o que est\u00e1 acostumado e se reinventar. Sonhar com o imposs\u00edvel: viver no futuro com uma outra persona, constru\u00edda ao longo da batalha.<\/p>\n<p>Livre das amarras, o soldado da ideologia se transforma no demiurgo de sua pr\u00f3pria saga, no m\u00e1gico capaz de reinventar o mundo. Foi assim com o m\u00e9dico argentino Ernesto Guevara, que na luta virou o her\u00f3i cubano Che. Mas ele n\u00e3o tinha f\u00f4lego para o empreendimento que tomou conta da sua vida, o de libertar a Am\u00e9rica Latina da servid\u00e3o. A asma, que \u00e9 o esfor\u00e7o de respirar, intensifica a percep\u00e7\u00e3o e escancara as portas do sonho: para contrabalan\u00e7ar o del\u00edrio de interromper 500 anos de hist\u00f3ria colonial, Guevara lan\u00e7ou m\u00e3o da l\u00f3gica do materialismo dial\u00e9tico, a filosofia pragm\u00e1tica em luta contra as armadilhas da ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cVim para c\u00e1 e daqui s\u00f3 saio morto\u201d, dizia, advertindo pelo exemplo os que queriam se engajar sem pensar nas conseq\u00fc\u00eancias. \u201cS\u00f3 existem duas op\u00e7\u00f5es: a vit\u00f3ria ou a morte\u201d. N\u00e3o era, portanto, uma aventura. Obedecia \u00e0 evid\u00eancia de que a luta armada estaria a servi\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o oprimida. Como acontecera em Cuba em 1958\/59, com uma diferen\u00e7a: na Bol\u00edvia, onde se deu o desfecho tr\u00e1gico do her\u00f3i andante, n\u00e3o houve a mesma costura pol\u00edtica, nem as armas expressavam o momento maduro da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para Che, n\u00e3o importava. Quando o representante do partido comunista lhe avisou que n\u00e3o existiam condi\u00e7\u00f5es objetivas para a luta armada, Guevara replicou com estat\u00edsticas: a maioria dos mineiros n\u00e3o chegava \u00e0 idade dos 30 anos, por exemplo. A mis\u00e9ria e a brutalidade eram as condi\u00e7\u00f5es objetivas que lhe bastavam. Outro argumento ele brandiu para Fidel Castro: \u201cSe esperarmos, s\u00f3 iremos agir daqui a 50 anos\u201d. Instrumentado por essa l\u00f3gica, o guerreiro partiu para o isolamento, sendo ca\u00e7ado at\u00e9 ser preso e depois fuzilado com tr\u00eas tiros, antes de ser exibido ao mundo como um trof\u00e9u.<\/p>\n<p>A selva n\u00e3o tem nada a dizer: a c\u00e2mara de Sordenberg percorre o vazio da paisagem at\u00e9 encontrar algum sentido nela, a luta. As batalhas deste filme admir\u00e1vel s\u00e3o opostas \u00e0 facilidade sanguinolenta do espet\u00e1culo americano da morte virtual, nos blockbusters mort\u00edferos. A paisagem s\u00f3 faz sentido quando h\u00e1 presen\u00e7a humana: os guerrilheiros em contato com os desconfiados camponeses, as tropas do ex\u00e9rcito fechando o cerco, os tiros arrancando peda\u00e7os de quem tenta se esconder em \u00e1rvores ou pedras. As tropas bolivianas treinadas pelos americanos, que trouxeram sua experi\u00eancia do Vietn\u00e3, s\u00e3o essa varredura de extrema interven\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio disputado. Enquanto os guerrilheiros se confundem com a natureza, os soldados do governo se destacam com suas ferramentas e em massa assombram o horizonte no anoitecer.<\/p>\n<p>Dividir a saga de Che em duas partes, uma sobre a revolu\u00e7\u00e3o cubana vitoriosa (<strong>Che, o Argentino<\/strong>) e a outra sobre a guerrilha derrotada na Bol\u00edvia (<strong>Che, o Guerrilheiro<\/strong>), significa que o diretor Steven Sordenberg conseguiu fazer um \u00e9pico cl\u00e1ssico sobre um personagem hist\u00f3rico, mas a ind\u00fastria n\u00e3o comporta mais longas como t\u00ednhamos antigamente, quando entre as duas partes havia um intervalo de dez minutos. Preferiram lan\u00e7ar dois filmes, mas \u00e9 um s\u00f3. Um filme sobre cinema de guerra. Com tiros espor\u00e1dicos, di\u00e1logos incisivos, a\u00e7\u00e3o o tempo todo sem apela\u00e7\u00f5es in\u00fateis, Che, de Sordenberg, \u00e9 uma narrativa did\u00e1tica sobre uma id\u00e9ia, a revolu\u00e7\u00e3o, e de como seus soldados enfrentaram o front sabendo que estavam mortos para a vida que j\u00e1 estava decidida antes de nascerem.<\/p>\n<p>Che, interpretado por Benicio Del Toro (que ganhou em Cannes de 2008 o pr\u00eamio de melhor ator) , \u00e9 obra antol\u00f3gica e permanecer\u00e1, n\u00e3o por mitificar o hero\u00edsmo, mas porque \u00e9 um trabalho que honra a S\u00e9tima Arte. Longa vida ao talento. E \u00e0 coragem de entregar-se \u00e0 miss\u00e3o de n\u00e3o permitir sua derrota.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPara vencer nessa selva, \u00e9 preciso lutar como se j\u00e1 estivesse morto\u201d, diz Ernesto Guevara para o companheiro que sonha em deixar a guerrilha. 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