{"id":509,"date":"2009-12-11T01:17:14","date_gmt":"2009-12-11T03:17:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=509"},"modified":"2009-12-21T23:59:56","modified_gmt":"2009-12-22T01:59:56","slug":"ruas-do-encontro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ruas-do-encontro","title":{"rendered":"RUAS DO ENCONTRO"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_07c7oRWkB08\/SfRDyjlY_fI\/AAAAAAAACNA\/4TzUC4JKZO0\/s1600-h\/rua+dos+encontros.jpg\"><img id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5328958794910727666\" style=\"margin: 0px auto 10px; display: block; width: 400px; height: 208px; text-align: center;\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_07c7oRWkB08\/SfRDyjlY_fI\/AAAAAAAACNA\/4TzUC4JKZO0\/s400\/rua+dos+encontros.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" \/><\/a><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p><em>Eternidade \u00e9 o tempo que voc\u00ea espera para abrir o farol, me disse certa vez um amigo. O conceito se estende a todas as a\u00e7\u00f5es do dia. No sacol\u00e3o, quem est\u00e1 atr\u00e1s deposita suas compras na balan\u00e7a antes que eu consiga contar o troco. Na hora de recolher as frutas, confus\u00e3o: o que estava na balan\u00e7a quase \u00e9 aderido ao meu acervo. O sujeito \u00e9 bruto e reclama, pegando de volta o que lhe pareceu ter sido surrupiado. Quando tento argumentar, ele nem me olha. Sou suspeito. A certeza de que \u00e9 um modelo de honestidade (sua pressa e atropelo s\u00e3o justos) e eu, um biltre (o distra\u00eddo que quase recolhe o que n\u00e3o lhe pertencia) se expressa por gestos e caras. Saio pra evitar conflito.<\/em><\/p>\n<p>Civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s desvantagens. Se a pessoa estiver manobrando para estacionar, \u00e9 l\u00f3gico que ela precisa de compreens\u00e3o ao redor. N\u00e3o disp\u00f5e de espa\u00e7o para ir em frente, est\u00e1 dando r\u00e9 ou cruzando em diagonal, tentando acertar entre o balizamento, quase invis\u00edvel, do ch\u00e3o. Se algu\u00e9m atr\u00e1s decide ser impaciente, surge o impasse. Esperar que o contempor\u00e2neo ocupe legalmente sua vaga, mesmo que isso v\u00e1 prejudicar a pressa de quem vem depois ou at\u00e9 mesmo sua possibilidade de achar um lugar dispon\u00edvel, \u00e9 sinal de que temos chances de sobreviver.<\/p>\n<p>Os ve\u00edculos s\u00e3o caricaturas de quem est\u00e1 dirigindo. O velho, a perua, o garot\u00e3o, o bronco na posse do volante s\u00e3o personagens criados pela intoler\u00e2ncia, que xinga de passagem. O tr\u00e2nsito hoje \u00e9 o \u00fanico lugar permanente de conv\u00edvio, afora os shows de rock e as plat\u00e9ias das in\u00fameras trag\u00e9dias. Assistir um inc\u00eandio, levantar os bra\u00e7os para algu\u00e9m que assassina notas musicais e fazer ultrapassagens s\u00e3o alguns dos poucos gestos coletivos compartilhados. O resto \u00e9 a solid\u00e3o televisiva ou intern\u00e9tica. Como n\u00e3o h\u00e1 conv\u00edvio real, substitui-se a civiliza\u00e7\u00e3o dos encontros pela barbaridade dos coment\u00e1rios desaforados. O xingamento \u00e9 o cumprimento pelo avesso na urbanidade sem lei.<\/p>\n<p>Existe, claro, os grupos nas escolas, trilhas, f\u00e9rias, viagens, cursos, elevadores, shoppings, corredores. Nos s\u00edtios de relacionamento, a imagem p\u00fablica de pessoas identificadas por idade ou hobbies, posa para o celular sempre \u00e0 m\u00e3o. Os sorrisos proliferam, mas sinto que falta alguma coisa nessa exposi\u00e7\u00e3o coletiva. A amizade expl\u00edcita e celebrada em excesso, os abra\u00e7os e beijos de todos os g\u00eaneros, os olhinhos fechados de felicidade, tudo isso faz parte de um acervo que contradiz a quantidade enorme de eventos tr\u00e1gicos em ambientes familiares ou corporativos.<\/p>\n<p>O matem\u00e1tico brasileiro que fazia p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, e foi colhido logo por quem, por um vietnamita armado que tinha dificuldades em aprender e trabalhar, \u00e9 o exemplo t\u00edpico de confrontos cada vez mais freq\u00fcentes. Parece haver um esfor\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es individuais, fruto da vontade que todos t\u00eam de dar certo na vida, de fazer acontecer, de ser feliz. Mas n\u00e3o parece haver um esfor\u00e7o para resolver problemas coletivamente. As na\u00e7\u00f5es n\u00e3o oferecem mais a seguran\u00e7a para uma vida plena. Os sistemas pol\u00edticos acabaram tomando caminhos perversos, desamparando a cidadania. O indiv\u00edduo se recolhe nos estudos, por exemplo, e \u00e9 atingido pela tara, a frustra\u00e7\u00e3o e a vingan\u00e7a de um outro que n\u00e3o consegue uma sa\u00edda.<\/p>\n<p>Nesse v\u00e1cuo, surge o aconselhamento dito correto. Como as escolas s\u00e3o arena de massacres, as empresas s\u00e3o alvos de ex-funcion\u00e1rios irados, ou os parques de divers\u00f5es armadilhas ditadas pela gan\u00e2ncia e a falta de escr\u00fapulos, ent\u00e3o sempre resta uma igreja na esquina, uma academia de gin\u00e1stica, um curso. H\u00e1 vagas para mestres de todos os tipos, j\u00e1 que as plat\u00e9ias se re\u00fanem espontaneamente, tentando escapar do pesadelo.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a \u00e9 que o exerc\u00edcio libert\u00e1rio da individualidade respons\u00e1vel se una a experi\u00eancias semelhantes e encontrem canais diferentes de concilia\u00e7\u00e3o. Existe tecnologia, riquezas, conhecimento e voca\u00e7\u00f5es suficientes para que a amizade prolifere sem m\u00e1scaras. Falta talvez viv\u00eancia, vontade, f\u00e9 no pr\u00f3ximo. Mas isso a humanidade d\u00e1 um jeito. Basta esperar que seu semelhante estacione. Ou deixar que o outro tenha prioridade na rua estreita. Ou ent\u00e3o, dar o bra\u00e7o para determinada senhora cruzar a rua e atingir o outro lado com um sorriso, daqueles que duram uma eternidade.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s desvantagens. Se a pessoa estiver manobrando para estacionar, \u00e9 l\u00f3gico que ela precisa de compreens\u00e3o ao redor. N\u00e3o disp\u00f5e de espa\u00e7o para ir em frente, est\u00e1 dando r\u00e9 ou cruzando em diagonal, tentando acertar entre o balizamento, quase invis\u00edvel, do ch\u00e3o. Se algu\u00e9m atr\u00e1s decide ser impaciente, surge o impasse. 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