{"id":511,"date":"2009-12-11T01:18:42","date_gmt":"2009-12-11T03:18:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=511"},"modified":"2009-12-21T23:51:14","modified_gmt":"2009-12-22T01:51:14","slug":"poder-coragem-e-perdao-em-clint-eastwood","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/poder-coragem-e-perdao-em-clint-eastwood","title":{"rendered":"PODER, CORAGEM E PERD\u00c3O EM CLINT EASTWOOD"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nClint Eastwood vem sempre em dose dupla, \u00e0s vezes batendo uma no cravo, o cinema de autor &#8211; como em <em>Gran Torino<\/em> &#8211; e outra na ferradura, a megaprodu\u00e7\u00e3o de est\u00fadio, como <em><strong>Changeling (A Troca)<\/strong><\/em>, de 2008 e lan\u00e7ado no Brasil no in\u00edcio de 2009. O bem sucedido Ron Howard quase filmou este drama sobre o desaparecimento do filho de nove anos de uma m\u00e3e solteira, que trabalha na companhia telef\u00f4nica, interpretada por Angelina Jolie. Nas duas faces da mesma moeda, Clint n\u00e3o abre m\u00e3o de seus temas recorrentes: poder, coragem e perd\u00e3o.<\/p>\n<p>O poder \u00e9 o das armas, das institui\u00e7\u00f5es, da corrup\u00e7\u00e3o oficial, representado em <em>A Troca<\/em> pela pol\u00edcia de Los Angeles, que disp\u00f5e de esquadr\u00e3o da morte e, para se safar diante da imprensa, substitui a crian\u00e7a perdida por um impostor. O poder normalmente est\u00e1 desvirtuado das suas fun\u00e7\u00f5es e os filmes de Clint servem para recolocar as coisas no lugar. S\u00e3o obras de den\u00fancia sobre a perversidade de quem manda a cidadania para o matadouro e entrega os inocentes para a m\u00e1quina de culpa e persegui\u00e7\u00e3o instaurada como defensora dos direitos dos inocentes.<\/p>\n<p>A coragem \u00e9 o do pastor que denuncia os crimes oficiais, interpretado por John Malkovitch, felizmente livre de seus maneirismos, fruto de sua certeza de que \u00e9 um grande ator (\u00e9, mas se estraga alimentando a megalomania). Ver um filme com Malkovitch sem que ele fa\u00e7a aquela boquinha esperta e t\u00famida de muxoxo cheio de nojo-de-n\u00f3s \u00e9 um privil\u00e9gio. Talvez tenha levado um tranco de Clint.<\/p>\n<p>A coragem \u00e9 tamb\u00e9m o da m\u00e3e desesperada, do detetive que vai fundo na investiga\u00e7\u00e3o, das pessoas do entorno dispostas a testemunhar, das prisioneiras que enfrentam a brutalidade do hosp\u00edcio. A coragem existe em rede e migra do indiv\u00edduo para a comunidade, do profissional para o f\u00f3rum. Ela se manifesta no garoto que volta para libertar o companheiro da armadilha onde foram encarcerados, da mulher que enfrenta o psicopata na v\u00e9spera da execu\u00e7\u00e3o, da ex-prostituta que peita os enfermeiros para defender algu\u00e9m de uma injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>O perd\u00e3o \u00e9 o desafio de Clint. Em Gran Torino, o ex-her\u00f3i da Cor\u00e9ia s\u00f3 confessa os pecados considerados graves pelo puritanismo americano, como um lance de sonega\u00e7\u00e3o de imposto ou um gesto de trai\u00e7\u00e3o \u00e0 esposa. Os protagonistas dos filmes de Clint jamais pedem perd\u00e3o pelos crimes cometidos em nome da na\u00e7\u00e3o ou da justi\u00e7a. Sofre com o peso da culpa, mas n\u00e3o acredita no perd\u00e3o. Em A troca h\u00e1 inclusive um deboche contra o perd\u00e3o religioso, quando o r\u00e9u diz que est\u00e1 se comportando bem depois de ser apanhado e de ter matado vinte meninos.<\/p>\n<p>Um crime hediondo jamais ser\u00e1 perdoado, esteja ele do lado que estiver, da na\u00e7\u00e3o ou do bandido. O her\u00f3i americano n\u00e3o conhece o perd\u00e3o cat\u00f3lico que lava a culpa e deixa livre os criminosos para repetir seus erros. N\u00e3o perdoar, em Clint, \u00e9 manter acesa a vigil\u00e2ncia contra a covardia, \u00e9 n\u00e3o esquecer. Se a mem\u00f3ria carrega a vida com seus fantasmas, tamb\u00e9m pode gerar esperan\u00e7a. \u00c9 a lembran\u00e7a f\u00edsica do garoto que sumiu que mant\u00e9m alerta a m\u00e3e que jamais desistiu de procur\u00e1-lo. \u201cEle pode estar em algum lugar, escondido, com medo de se apresentar\u201d, diz a personagem Christine Collins, constru\u00edda por uma, \u00e0 primeira vista, irreconhec\u00edvel Angelina Jolie (que est\u00e1 bem a maior parte do tempo, s\u00f3 escorrega quando exibe sorrisinhos de vit\u00f3ria ou n\u00e3o sabe direito o que fazer com tantos l\u00e1bios carnudos em meio a tanto sofrimento).<\/p>\n<p>Para que haja esperan\u00e7a, \u00e9 preciso que o poder esteja sob o tac\u00e3o da Justi\u00e7a. S\u00f3 assim a coragem tem condi\u00e7\u00f5es de se manifestar e obter algum resultado. Desde que n\u00e3o esque\u00e7a, ou seja, n\u00e3o perdoe e permane\u00e7a fiel \u00e0 dor provocada pela perda. Clint n\u00e3o brinca em servi\u00e7o, n\u00e3o est\u00e1 no mundo a passeio. Faz cinema, e faz bastante. Para al\u00edvio e alegria dos espectadores.<\/p>\n<p>O filme, &#8220;uma hist\u00f3ria real&#8221;, segundo Clint, foi escrito por J. Michael Straczynski (jornalista que redescobriu o caso na v\u00e9spera de uma grande queima de arquivos), e financiado pela Imagine Entertainment e a Malpaso Productions atrav\u00e9s da Universal Studios. No elenco, destacam-se Jeffrey Donovan (o abomin\u00e1vel policial de Los Angeles), Gattlin Griffith (o garoto sumido), Michael Kelly ( o detetive Lester Ybarra) e Colm Feore (o Chefe James E. Davis).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clint Eastwood vem sempre em dose dupla, \u00e0s vezes batendo uma no cravo, o cinema de autor &#8211; como em Gran Torino &#8211; e outra na ferradura, a megaprodu\u00e7\u00e3o de est\u00fadio, como Changeling (A Troca), de 2008 e lan\u00e7ado no Brasil no in\u00edcio de 2009. 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