{"id":516,"date":"2009-12-11T01:38:12","date_gmt":"2009-12-11T03:38:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=516"},"modified":"2009-12-22T16:29:12","modified_gmt":"2009-12-22T18:29:12","slug":"paixao-necessidade-e-fe-nos-teatros-de-linha-de-passe","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/paixao-necessidade-e-fe-nos-teatros-de-linha-de-passe","title":{"rendered":"PAIX\u00c3O, NECESSIDADE E F\u00c9 NOS TEATROS DE \u201cLINHA DE PASSE\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\n\u201cNecessidade \u00e9 a vontade do homem e f\u00e9 a vontade de Deus\u201d, diz o pastor para a plat\u00e9ia de fi\u00e9is em Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Entre essas duas pontas &#8211; a escassez material e sua compensa\u00e7\u00e3o, o excesso espiritual &#8211; floresce a paix\u00e3o: do crente por Jesus, do aspirante pelo futebol, do garoto pelo \u00f4nibus, da mulher pelos seus filhos, do moto-boy pela independ\u00eancia financeira. O inc\u00eandio das vontades no ch\u00e3o est\u00e9ril da grande cidade define os teatros da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 importante dizer que o filme \u00e9 cinema de primeira, com roteiro super-elaborado, seq\u00fc\u00eancias de imagens poderosas, cenas ousadas. Ou seja, \u00e9 cinema mesmo, e nada tem de teatro filmado. Feita essa ressalva, posso abord\u00e1-lo como uma conflu\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es teatrais:<\/p>\n<p>1. O FUTEBOL. Nos campos e est\u00e1dios, l\u00e1 est\u00e3o os diretores (os treinadores), os atores principais (os craques), os coadjuvantes (os jogadores do banco), a plat\u00e9ia (a massa de m\u00e3os ao alto sob gigantescas bandeiras, que s\u00e3o o teto que lhes falta na vida real). No filme, o garoto (interpretado por Vin\u00edcius de Oliveira, que fez Central do Brasil) participa dos ensaios do teatro futebol. Quer ser selecionado para um clube. Aspira ao grande palco, aos cl\u00e1ssicos entre times importantes. Luta por uma temporada, os torneios e campeonatos. Sonha em entrar em cartaz.<\/p>\n<p>Mas sua paix\u00e3o pela bola \u00e9 tamb\u00e9m sua perdi\u00e7\u00e3o: o individualismo aprendido nas ruas n\u00e3o funciona no jogo coletivo, \u00e9 tratado como contraven\u00e7\u00e3o. O protagonista assim, vocacionado pelo talento, entra em desgra\u00e7a. Sua queda significa mais do que uma exclus\u00e3o pessoal: \u00e9 a fam\u00edlia inteira que fica de fora, j\u00e1 que a carreira futebol\u00edstica seria a loteria que beneficiaria a todos. O que sobra \u00e9 um mercado de trabalho massacrante, com sub-empregos disputados por multid\u00f5es. \u00c9 puro teatro de den\u00fancia.<\/p>\n<p>2. A IGREJA \u2013 A f\u00e9 no Salvador costura vidas condenadas pela pobreza. A falta de recursos, expl\u00edcita nos corpos, rostos, roupas, explode em emo\u00e7\u00f5es manipuladas num espa\u00e7o c\u00eanico tosco. L\u00e1 est\u00e1 o diretor e ator principal, o pastor, coadjuvado pelo crente, irm\u00e3o do craque, interpretado por Jos\u00e9 Geraldo Rodrigues, a plat\u00e9ia (os fi\u00e9is), os dramas (a mulher na cadeira de rodas que \u00e9 pressionada para andar, o sal\u00e3o que se esvazia ao enfrentar a concorr\u00eancia de outra religi\u00e3o), os roteiros (o batismo por imers\u00e3o), as falas (a prega\u00e7\u00e3o, as ora\u00e7\u00f5es, os espasmos).<\/p>\n<p>O culto \u00e9 a pe\u00e7a, que tem seu apogeu nas aleluias e seu desfecho no balan\u00e7o da bilheteria (quanto rendeu a prega\u00e7\u00e3o). \u00c9 a exacerba\u00e7\u00e3o dos dramas sociais, representados pela necessidade de transcend\u00eancia, quando a paix\u00e3o atropela a chance da paz do esp\u00edrito. \u00c9 puro Glauber Rocha e teatro Oficina, os dramas brasileiros intensificados pela m\u00edstica dos comportamentos ancestrais, fruto do isolamento e da carnificina.<\/p>\n<p>3. O TR\u00c2NSITO \u2013 Teatro de vanguarda. Os protagonistas s\u00e3o moto-boys, o cen\u00e1rio \u00e9 S\u00e3o Paulo com suas avenidas, edif\u00edcios, ve\u00edculos, polui\u00e7\u00e3o, favelas. As pe\u00e7as s\u00e3o o trabalho (o moto-boy, interpretado por Jo\u00e3o Baldasserini, que \u00e9 o terceiro irm\u00e3o da fam\u00edlia em destaque), os assaltos, os acidentes. Tem at\u00e9 a cena cl\u00e1ssica do teatro de vanguarda, o rompimento das barreiras que dividem os personagens e o p\u00fablico, quando o exclu\u00eddo obrigado o classe m\u00e9dia a encar\u00e1-lo, a identific\u00e1-lo, a notar sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 a plat\u00e9ia, a que torce nos est\u00e1dios, se retorce nas igrejas, se contorce na luta pela sobreviv\u00eancia, que mostra a cara, \u00fanico caminho para ser reconhecido como ser humano e n\u00e3o apenas uma amea\u00e7a vista atrav\u00e9s do vidro fum\u00ea.<\/p>\n<p>4. O TRANSPORTE COLETIVO \u2013 Teatro de periferia, em que o menino (interpretado por Kaique de Jesus Santos ) procura o pai inexistente na figura do motorista de \u00f4nibus, que est\u00e1 em movimento, ao contr\u00e1rio da sucata de \u00f4nibus que fica depositada na casa da fam\u00edlia, que est\u00e1 im\u00f3vel e em ru\u00ednas. O menino procura uma sa\u00edda, a auto-estima que nunca teve, um lugar onde n\u00e3o seja amea\u00e7ada pelos c\u00e3es de guarda, uma coletividade que n\u00e3o se trate aos pontap\u00e9s. No volante, o modelo a ser seguido. Nos corredores, o povo empilhado assistindo o desenrolar do ve\u00edculo, lugar onde todos passam a maior parte do tempo.<\/p>\n<p>5. A FAM\u00cdLIA \u2013 O teatro de costumes revisitado pela dor. A m\u00e3e, interpretada por Sandra Corveloni (premiada em Cannes por esse papel), gr\u00e1vida do quinto filho, tamb\u00e9m de pai desconhecido, sustenta a casa como dom\u00e9stica e acumula pequenos \u00f3dios, amores desesperados, cora\u00e7\u00f5es partidos, situa\u00e7\u00f5es-limite, amores eternos (como o Corinthians), esperan\u00e7as datadas. Cercada por tudo o que o pa\u00eds lhe nega, a mulher \u00e9 a hero\u00edna desses mundos em frangalhos, que revela a perversidade pol\u00edtica e social do Brasil, terra do pavor, da linguagem detonada, dos corpos marcados, dos rostos machucados, das gigantescas avenidas desertas e iluminadas pelo desperd\u00edcio. Um n\u00e3o-lugar da desraz\u00e3o, que investe sobre os protagonistas fazendo press\u00e3o sobre o n\u00facleo familiar que restou, o da mulher com seus filhos para criar e conviver.<\/p>\n<p>Suas paix\u00f5es encontram enfim aquela linha que ser\u00e1 rompida inevitalmente. Cada filho \u00e9 empurrado para o momento decisivo em que precisa saltar no abismo. E ela mesmo, com as dores do parto, olha em p\u00e2nico para o cima, iluminada por um cinema que foi busc\u00e1-la em seus redutos e a lan\u00e7a para cima de n\u00f3s, como uma avalanche. O filme passa a bola para a plat\u00e9ia. O jogo est\u00e1 rolando. Cavamos o p\u00eanalti.<\/p>\n<p>Vamos fazer o gol? Ou somos parte das arquibancadas, com as m\u00e3os para cima, tentando alcan\u00e7ar o que nos parece remoto demais? A necessidade devora a f\u00e9? A paix\u00e3o se extingue? Ou poderemos cruzar a linha do horizonte com as m\u00e3os no volante, o lance final decidido com firmeza, o nascimento de mais uma vida, o caminhar longe das obsess\u00f5es? S\u00e3o perguntas, a bola, que chegam pelo alto, a arte suprema da S\u00e9tima Arte e que nos convocam para entrar em campo e evitar o rebaixamento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vamos fazer o gol? 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