{"id":519,"date":"2009-12-11T01:42:36","date_gmt":"2009-12-11T03:42:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=519"},"modified":"2009-12-21T22:30:09","modified_gmt":"2009-12-22T00:30:09","slug":"sereias-de-dois-mundos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sereias-de-dois-mundos","title":{"rendered":"SEREIAS DE DOIS MUNDOS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s(*)<\/p>\n<p><em>Novelas de Mempo Giardinelli e Giuseppe Tomasi di Lampedusa s\u00e3o narrativas sobre a rela\u00e7\u00e3o com o mito<br \/>\n<\/em><br \/>\nO canto das sereias \u00e9 a sedu\u00e7\u00e3o impositiva do mito, o chamamento ancestral que leva a criatura para o abismo de suas pr\u00f3prias origens, para a nega\u00e7\u00e3o da sua individualidade e raz\u00e3o. A sereia encarna esse sequestro do humano para os confins do n\u00e3o-ser, ou do ser-um, o caos primordial que indiferencia todos os que foram criados. Fazer parte dessa humanidade primordial, misturar-se a essa \u00e1gua infinita, entregar-se a esse mar que desorienta o navegador \u00e9 renunciar ao esclarecimento, pois no mito a sabedoria \u00e9 cifrada e o enigma pertence aos que est\u00e3o acima do humano (1).<\/p>\n<p>Para se livrar desse la\u00e7o mortal e enxergar sua identidade, o her\u00f3i pede que o amarrem ao mastro, para que n\u00e3o caia na tenta\u00e7\u00e3o de ouvir o \u00edm\u00e3 que o puxa para o fundo. Ele precisa insistir na busca de si mesmo, na rota que deve lev\u00e1-lo de volta ao seu ego. Precisa se autoimolar, para se desprender das ra\u00edzes e empreender uma busca completa de autoconhecimento. Consegue, assim, seu intento e aporta na realidade. Mas quem o espera \u00e9 mais uma armadilha: seu entendimento \u00e9 t\u00e3o triunfante e completo que se transforma numa nova mitologia. Ele descobre, ent\u00e3o, que o esclarecimento estava impl\u00edcito nos velhos mitos e o que fez foi seguir um ciclo de volta ao seu in\u00edcio. O saber racional vira mito e o mito ancestral encerra a sabedoria.<\/p>\n<p>A sereia habita as profundezas do mar primordial e busca na superf\u00edcie as v\u00edtimas do seu encanto. Se for tomada como s\u00edmbolo do que foi formatado na proto-Hist\u00f3ria, o que regula e influencia a Hist\u00f3ria humana posterior, ela assume n\u00e3o s\u00f3 essa dupla maldi\u00e7\u00e3o, a de dem\u00f4nio que rouba a alma por meio da voz, ou de divindade que se interp\u00f5e no destino. Ela \u00e9 mulher, e a\u00ed est\u00e1 o terceiro vetor do tridente. A par\u00e1bola, o poema \u00e9pico, a filosofia e a literatura se encarregam desse tri\u00e2ngulo mortal, as tr\u00eas faces da sereia como constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dois ficcionistas de g\u00eanio abordam o mito da sereia de maneira oposta. Ambos compartilham ambientes parecidos: o sufoco da Sic\u00edlia, no caso de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896\u20131957), ou do Chaco, regi\u00e3o noroeste da Argentina, no caso de Mempo Giardinelli (1947). A lua, o deserto, o calor envolvem o protagonista siciliano de O Senador e a Sereia e o argentino de Luna Caliente, no embate dessa busca de si mesmo, encarnada no encontro libertador (em Lampedusa) e fatal (em Giardinelli) com as sereias (2). S\u00e3o narrativas sobre a rela\u00e7\u00e3o com o mito. Em Lampedusa, h\u00e1 o hero\u00edsmo da entrega e da reden\u00e7\u00e3o. Em Giardinelli, h\u00e1 voragem, em que o anti-her\u00f3i quer devorar o que pretende evitar, sem reconhecer que est\u00e1 sendo engolido. A volta \u00e0 origem \u00e9 feita de maneira consciente no siciliano e por meio da ruptura e da trag\u00e9dia no argentino. Ambos precisam aprender a lidar com a Outra, o g\u00eanero feminino.<\/p>\n<p>Lampedusa tra\u00e7a o perfil do senador e catedr\u00e1tico Ros\u00e1rio de La Curcia, hiperespecialista em cultura grega, arrogante e misantropo, que tortura o narrador, um jovem jornalista decepcionado com seus amores e que acaba conquistando a amizade do helenista c\u00e9lebre. O motivo principal do desprezo que nutre pelos outros, especialmente os de pouca idade, s\u00e3o as ilus\u00f5es do amor. O velho \u00e9 um abst\u00eamio sexual porque na juventude se satisfez com o amor t\u00f3rrido com uma sereia, de verdade, daquelas que at\u00e9 falavam grego. O senador alcan\u00e7ou a imortalidade ao fazer sexo com a sereia, que o espera em qualquer quadra da vida, de volta, quando cansar do mundo. Sua seguran\u00e7a vem dessa promessa, que, afinal, se cumpre.<\/p>\n<p>Giardinelli coloca na roda um trint\u00e3o alienado politicamente, que volta de Paris formado, pronto para ascender socialmente numa Argentina dominada pela ditadura e pelo mito da p\u00e1tria. \u00c9, ent\u00e3o, seduzido pela vis\u00e3o da sereia adolescente e conduzido, por instinto e covardia, ao estupro e ao assassinato. Mas a ninfa imortal sempre volta para atorment\u00e1-lo, por mais que ele se esforce em assassin\u00e1-la. Ao contr\u00e1rio do senador, que se entrega \u00e0s certezas do mito, o carreirista tenta, em v\u00e3o, destru\u00ed-lo.<\/p>\n<p>Giardinelli, um dos mais not\u00f3rios escritores do seu pa\u00eds, destacado autor da literatura das democracias restauradas, como ele gosta de frisar, e que hoje vive no cen\u00e1rio de Luna Caliente, a cidade de Resist\u00eancia, no Chaco, aparentemente trabalha o medo do anti-her\u00f3i diante da mulher. Mas sua narrativa pega mais fundo. O personagem descobre que a Argentina vive uma \u00e9poca de destrui\u00e7\u00e3o de identidade nacional e de imposi\u00e7\u00e3o de uma mitologia obscura, fundada na ideia fascista de uma p\u00e1tria madrasta. \u00c9 tarde demais para escapar, pois j\u00e1 est\u00e1 comprometido com a c\u00e1tedra da universidade local. \u00c9 ent\u00e3o seduzido pelo canto de sereia, o chamamento para as del\u00edcias da falta de raz\u00e3o e identidade, para o caos primordial, para a fuga. O sexo t\u00f3rrido \u00e9 a sa\u00edda para suas amarras, sua decep\u00e7\u00e3o, sua solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele cai na tenta\u00e7\u00e3o e tenta se livrar da culpa, mas os novos verdugos, a ditadura argentina, o perseguem. O poder acena com um acordo: ele assume a culpa, se mant\u00e9m, assim, preso ao regime e continua fora da cadeia. Ou, ent\u00e3o, ser\u00e1 desmascarado e encarcerado por d\u00e9cadas. Prefere escapar pela fronteira, mas \u00e9 alcan\u00e7ado por quem, aparentemente, tinha sido eliminada. \u00c9 o canto da sereia, que o leva de volta para suas origens no Chaco castrador, de onde fugiu para se salvar e voltou porque estava convicto da vit\u00f3ria da sua raz\u00e3o sobre as verdades impostas pelo clima, a paisagem, os la\u00e7os familiares, o regime pol\u00edtico inst\u00e1vel e perverso.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Lampedusa reproduz o ambiente fascista da It\u00e1lia, com seus intelectuais sup\u00e9rfluos, seus jornalistas vendidos, seus costumes amarrados. Tanto o jovem narrador quanto o velho s\u00e1bio remam contra a corrente dessas imposi\u00e7\u00f5es. Est\u00e3o apartados da Sic\u00edlia, vivem no norte do pa\u00eds, lugar considerado frio demais pelos habitantes do sul. Mas a condi\u00e7\u00e3o de conterr\u00e2neos os aproxima, para que compartilhem de um segredo: a rela\u00e7\u00e3o prazerosa com o mito, a salva\u00e7\u00e3o da vida med\u00edocre por meio da entrega pessoal a tudo o que representa as origens, a terra, o mar ignoto. Desde que, claro, esses elementos sejam intermediados pela alta cultura.<\/p>\n<p>\u00c9 uma releitura do que pode fazer uma sereia, que, assim, perde o car\u00e1ter demon\u00edaco, t\u00e3o presente em Giardinelli. O sufoco, em Lampedusa, est\u00e1 no frio, na racionalidade, na capital. A lua, a \u00e1gua do mar que geme de prazer sob o sol a pino, o sop\u00e9 do vulc\u00e3o em repouso, as tempestades, tudo o que \u00e9 primordial e siciliano faz parte dessa mitologia particular dos migrantes que sonham com as del\u00edcias da terra natal.<\/p>\n<p>\u00c9 mais uma sintonia com Giardinelli, que escreveu sua novela no M\u00e9xico, para onde emigrou depois da persegui\u00e7\u00e3o da ditadura. No ex\u00edlio, ele cria a hist\u00f3ria do argentino que volta para suas ra\u00edzes para impor a identidade e a raz\u00e3o e acaba sucumbindo diante da for\u00e7a da irracionalidade mitol\u00f3gica. Lampedusa tece a trama do siciliano que volta para os bra\u00e7os da sereia para escapar da aridez da sua vida, cercada pela irracionalidade e incompet\u00eancia. Giardinelli n\u00e3o fala em sereia, mas em uma chaquense de 13 anos insaci\u00e1vel, incapaz de morrer diante do seu algoz. Mas \u00e9 o mesmo mito. Sen\u00e3o como explicar sua imortalidade, sua reapari\u00e7\u00e3o constante depois de sofrer o atentado do amante?<\/p>\n<p>As duas novelas s\u00e3o puro cinema. Luna Caliente foi filmada pela Casa de Cinema de Porto Alegre e veiculado pela Rede Globo em 1999. O Senador e a Sereia j\u00e1 nasce como sess\u00e3o das quatro, aquela das tardes de ver\u00e3o em que nada se podia fazer al\u00e9m de fugir do calor\u00e3o sentando numa poltrona para ver um filme inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Notas: 1. Sobre o mito e a sereia, me baseei na leitura de J\u00fcrgen Habermas, que no volume O Discurso Filos\u00f3fico da Modernidade, cap\u00edtulo 5 (Martins Fontes, 2000, 540 p\u00e1gs.), comenta A Dial\u00e9tica do Esclarecimento, famoso texto de Horkheimer e Adorno de 1944.<\/p>\n<p>2. Luna Caliente \u2013 Tr\u00eas noites de Paix\u00e3o e O Senador e a Sereia foram editados pela L&amp;PM, em 1985 e 1980, com tradu\u00e7\u00f5es de Sergio Faraco e Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Pinheiro Machado, respectivamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois ficcionistas de g\u00eanio abordam o mito da sereia de maneira oposta. 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