{"id":526,"date":"2009-12-11T01:49:25","date_gmt":"2009-12-11T03:49:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=526"},"modified":"2009-12-21T23:52:09","modified_gmt":"2009-12-22T01:52:09","slug":"cair-de-banda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cair-de-banda","title":{"rendered":"CAIR DE BANDA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nVou embora, desistir, sair. Deixar para l\u00e1, pegar um t\u00e1xi, metr\u00f4, \u00f4nibus, avi\u00e3o. Vou a p\u00e9 at\u00e9 a estrada e pe\u00e7o carona. Abandono tudo, abro um restaurante, vou viver numa gruta, uma ilha deserta. N\u00e3o quero saber de pauta, de lead, de deadline, de cobertura, de tantos caracteres. N\u00e3o quero ler, ver ou pensar. Quero ficar de olho parado at\u00e9 o fechamento passar. Nem precisa me indenizar, me trancar na salinha, me advertir. Quero outra vida, sem essa press\u00e3o de devorar o mundo todos os dias e vomit\u00e1-lo para recome\u00e7ar no in\u00edcio de novo expediente.<\/p>\n<p>A vida \u00e9 outra coisa e est\u00e1 fora da reda\u00e7\u00e3o. Ok, n\u00e3o existem mais reda\u00e7\u00f5es, elas sumiram junto com a profiss\u00e3o e hoje o que temos \u00e9 o conte\u00fado a ser gerenciado, o cliente a ser atendido, a publicidade no miolo do texto, o t\u00edtulo sem sentido, mas com o n\u00famero exato de toques para caber no espa\u00e7o devido. Ou sempre foi assim? Lembra daqueles t\u00edtulos de tr\u00eas linhas nas revistas de luxo, em que a primeira precisava ter sete toques, a segunda oito e a terceira onze? Ou ser\u00e1 que sonhei com isso?<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que eu tenha perdido a raz\u00e3o depois de dez milh\u00f5es de edi\u00e7\u00f5es. Talvez tenham me confinado nessa jaula que eu acho ser o mundo real e vis\u00edvel e estou como criatura de Matrix sonhando a liberdade de n\u00e3o pertencer mais \u00e0 maquina de moer carne da profiss\u00e3o. Talvez meu desejo de abandonar tudo tenha enfim se concretizado e eu esteja numa esp\u00e9cie de limbo, pronto para reencontrar alguns companheiros que cruzaram comigo neste rio de palavras.<\/p>\n<p>As celebridades, t\u00e3o consideradas pelos estudantes, e que estiveram muito perto por tanto tempo, nem contam. O que pega s\u00e3o os an\u00f4nimos, os redatores que n\u00e3o assinavam mat\u00e9rias, os diagramadores que jamais chegavam \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da arte, os rep\u00f3rteres que sumiam de verdade para nunca mais. O que pega s\u00e3o os office-boys, como aquele t\u00e3o pern\u00f3stico que o patr\u00e3o dizia ser n\u00e3o um cont\u00ednuo, mas um Editor de Continuidade. Ou o cara que recortava jornal para fazer clipping. Ou o setorista que dedicou cem anos para seu of\u00edcio, cobrindo esportes, ou pol\u00edcia ou necrol\u00f3gios e por fim foi tamb\u00e9m embora, envolto em brumas de uma literatura que cheirava a biblioteca antiga, submersa em p\u00f3 e esquecimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o v\u00e1 fazer poesia com tanta realidade, que de t\u00e3o absurda parece fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o diga que esqueceu aquelas dobras de corredor onde revisoras passavam com pap\u00e9is na m\u00e3o, concentradas em sua dif\u00edcil arte. Ou o rapaz do arquivo, que fazia parte dos m\u00f3veis daquele grande jornal do interior e que um dia respondeu o pedido urgente do editor apressado, que bradava: \u201cFulano de Tal, sabe quem \u00e9?\u201d, com a cl\u00e1ssica resposta: \u201cN\u00e3o sei, mas tenho\u201d. Ou o tempo do off-set quando bravos rapazes analfabetos esfor\u00e7ados da pagina\u00e7\u00e3o (obrigado, Strix, pela corre\u00e7\u00e3o) colavam par\u00e1grafos inteiros de cabe\u00e7a para baixo, mas no maior capricho, fazendo com que a leitura do dia seguinte fosse festejada com gargalhadas.<\/p>\n<p>No fundo, queres do jornalismo o quem nunca pertenceu a ele. As erratas que se repetiam com os mesmos erros, o foca de bolsa e t\u00eanis que chegava com o cerebral \u201cQuatro Quartetos\u201d, de T.S. Elliot, embaixo do bra\u00e7o e arrancava do chefe de reportagem o desabafo: \u201cPronto, mais um intelectual de sovaco\u201d; a happy hour com o pessoal da oficina; e as despedidas. Sim, quando algu\u00e9m decidia enfim ir embora e \u00edamos todos na rodovi\u00e1ria ou na esta\u00e7\u00e3o nos despedir, b\u00eabados, batendo em suas costas como querendo expuls\u00e1-lo, mas no fundo sonhando em fazer a mesma coisa.<\/p>\n<p>Partir, ir embora, deixar esta vida. A pior do mundo, mas que n\u00e3o h\u00e1 nem haver\u00e1 outra igual nem melhor. Longa vida \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 loucura: esse tal de jornalismo, profiss\u00e3o extinta, ninho de loucos, que trabalham sob as ordens do destino e tiram de letra qualquer l\u00e1grima que venha atrapalhar nossa conversa na cal\u00e7ada, no fim da noite, antes do assombroso amanhecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 prov\u00e1vel que eu tenha perdido a raz\u00e3o depois de dez milh\u00f5es de edi\u00e7\u00f5es. Talvez tenham me confinado nessa jaula que eu acho ser o mundo real e vis\u00edvel e estou como criatura de Matrix sonhando a liberdade de n\u00e3o pertencer mais \u00e0 maquina de moer carne da profiss\u00e3o. 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