{"id":537,"date":"2009-12-11T11:52:25","date_gmt":"2009-12-11T13:52:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=537"},"modified":"2009-12-21T23:53:09","modified_gmt":"2009-12-22T01:53:09","slug":"a-pauta-o-polegar-e-o-breque","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-pauta-o-polegar-e-o-breque","title":{"rendered":"A PAUTA, O POLEGAR E O BREQUE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Pauta \u00e9 o que est\u00e1 na cara de todo mundo e ningu\u00e9m v\u00ea. \u201cQuanto o Tel\u00ea Santana ganha?\u201d perguntou um dia Jorge Escosteguy, o Scotch, para o rep\u00f3rter. \u201cN\u00e3o sei, n\u00e3o perguntei?\u201d respondeu o setorista. \u201cMas por qu\u00ea?\u201d quis saber Scotch. \u201cPorque ele n\u00e3o ia me dizer mesmo\u201d. Ao que o editor replicou: \u201cVoc\u00ea precisa perguntar. Se ele n\u00e3o te responder, essa \u00e9 a pauta\u201d.<\/p>\n<p>A partir do insight da pauta, parte-se para a apura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisa ser uma tortura, como na investiga\u00e7\u00e3o policial. Ou um emaranhado de t\u00e9cnicas e expedientes, como na advocacia. Mas uma aventura, como nos melhores romances. H\u00e1 mais chances de acertar no veio do assunto se o instinto ficar alerta. Seguir os tr\u00e2mites consagrados leva sempre ao mesmo lugar: ao encalhe. Farejar a pauta e seguir o que ela aconselha conquista leitores.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa ir atr\u00e1s de picuinhas, exotismos, bizarrices. O que \u00e9 enfocado de maneira for\u00e7ada como original acaba sempre na mesmice. Uma pauta pode estar nos classificados, como acontece na hist\u00f3ria escrita por Jerome Cady, que tinha 45 anos quando tomou uma dose excessiva de p\u00edlulas para dormir e morreu no seu iate em 1948, um pouco depois do lan\u00e7amento de Call Nightside 777. Jerry Cady, como era conhecido, era um escritor de sucesso e este filme, dirigido por Henry Hathaway, conta como uma reportagem investigativa livra um prisioneiro de ficar a vida toda na cadeia.<\/p>\n<p>Come\u00e7a com uma pauta sugerida pelo editor, estrelado por Lee J. Cobb. O rep\u00f3rter, James Stewart, esnoba, acha fraco. O an\u00fancio oferecia cinco mil d\u00f3lares por uma informa\u00e7\u00e3o que livrasse um condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua. Stewart o considerava culpado, mas foi atr\u00e1s. Descobriu que an\u00fancio tinha sido feito pela m\u00e3e do acusado, lavadora de ch\u00e3o e que economizara por 11 anos o dinheiro para remunerar quem soubesse de alguma coisa. O rep\u00f3rter fez uma mat\u00e9ria humana e deu por encerrado o assunto. O editor ent\u00e3o levou-o at\u00e9 o pres\u00eddio e l\u00e1 aconteceu. A pauta era a inoc\u00eancia do presidi\u00e1rio. E n\u00e3o o amor da m\u00e3e extremosa e esfor\u00e7ada.<\/p>\n<p>Hoje temos o jornalismo do polegar. Na televis\u00e3o, o rep\u00f3rter fica de costas para uma cena e aponta com o polegar o que est\u00e1 atr\u00e1s dele. Acontece em quase tudo que \u00e9 mat\u00e9ria. O aquecimento do mercado de ventiladores, por exemplo. Os trabalhadores ficam ao fundo e o rep\u00f3rter joga o polegar para cima deles.<\/p>\n<p>Ficou um pouco fora de moda, talvez pelo excesso de uso, o jornalismo de breque, mas ainda sobrevive. A passagem tem um ritmo quase fren\u00e9tico de frases que jorram para cima do espectador. A fala prepara algo surpreendente. No momento em que vai ser colocada a chave do enigma ele suspende a voz, fica mudo, olhando significativamente para a frente. Dura poucos segundos. \u00c9 o breque. Logo em seguida, vem a revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos esses artif\u00edcios tentam mascarar a pobreza da pauta. N\u00e3o h\u00e1 investimentos para a reportagem, ent\u00e3o o jornalista se vira como pode. \u00c9 preciso uma grande massa de profissionais, com liberdade de a\u00e7\u00e3o, para poder gerar alguma coisa que preste. N\u00e3o pode fazer de cada rep\u00f3rter massa de manobra para in\u00fameras passagens, su\u00edtes e repeti\u00e7\u00f5es de assuntos. O que se faz hoje \u00e9 seguir receitas, como se o notici\u00e1rio fosse um card\u00e1pio de pratos feitos. Para dourar a p\u00edlula, existem as materinhas humanas, com rep\u00f3rteres especializados naquela voz de ninar o Papa.<\/p>\n<p>Rep\u00f3rter \u00e9 bicho arisco, bruto. N\u00e3o que v\u00e1 fazer rapel para mostrar como a coisa funciona ou comer alfafa com chocolate e dizer \u201chum, est\u00e1 muito bom\u201d. Precisa de liberdade e de um editor que lhe coma os calcanhares. Como Jason Robards em \u201cTodos os homens do presidente\u201d. \u00c9 um editor cl\u00e1ssico. Mas o cinema \u00e9 o melhor dos mundos para o jornalismo, pois dificilmente tem rep\u00f3rter na reda\u00e7\u00e3o. O cara est\u00e1 na rua, correndo perigo. De repente o acaso, ou sua insist\u00eancia, colhe o material que salva sua vida. Pelo menos, naquele dia.<\/p>\n<p>Era a pauta, jogada fora como um toco de cigarro vagabundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso uma grande massa de profissionais, com liberdade de a\u00e7\u00e3o, para poder gerar alguma coisa que preste. N\u00e3o pode fazer de cada rep\u00f3rter massa de manobra para in\u00fameras passagens, su\u00edtes e repeti\u00e7\u00f5es de assuntos. O que se faz hoje \u00e9 seguir receitas, como se o notici\u00e1rio fosse um card\u00e1pio de pratos feitos. 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