{"id":539,"date":"2009-12-11T11:53:54","date_gmt":"2009-12-11T13:53:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=539"},"modified":"2009-12-21T23:44:29","modified_gmt":"2009-12-22T01:44:29","slug":"o-elefante-quebra-a-jaula","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-elefante-quebra-a-jaula","title":{"rendered":"O ELEFANTE QUEBRA A JAULA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Mais massacres na Alemanha e Estados Unidos. \u00c9 sempre o mesmo tipo de delito, cometido pelo assassino que decide destruir o que lhe incomoda: fam\u00edlia, escola, trabalho. \u00c9 uma pessoa reservada, quieta, exclu\u00edda, que vai \u00e0 forra. Os colegas que o esnobam, o emprego que o demite, os parentes que o atordoam. O assassino procura destruir a pr\u00f3pria jaula, pois n\u00e3o tem for\u00e7a, na vida normal, para se livrar dela. Faz parte do encarceramento, foi colocado l\u00e1 e acaba se tornando conivente. A raiva contra a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a no del\u00edrio, no sonho, evolui para o planejamento e a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O cara se veste de preto, \u00e9 um guerreiro ninja. Tem toda a ind\u00fastria de entretenimento para o encorajar. Os comandos, todos de roupas colantes e armados com a mais alta tecnologia mort\u00edfera, escalam pr\u00e9dios, invadem pa\u00edses, resgatam prisioneiros, matam autoridades, ca\u00e7am mafiosos na maior impunidade. Na Alemanha, o assassino (que chamam de adolescente; com 17 anos n\u00e3o \u00e9 adolescente, \u00e9 adulto; adolescente tem treze anos) era filho de um dono do clube do tiro. Tudo a ver. Anos atr\u00e1s, os dois que atacaram uma escola americana tinham armas em casa compradas pelos pais. O arsenal ajuda, proporciona o ato, mas as fontes s\u00e3o essas: o medo de enfrentar a realidade, a vontade de destruir os grilh\u00f5es, se libertar, o que s\u00f3 vem com a ins\u00e2nia e a morte.<\/p>\n<p>Italo Svevo, autor italiano, no seu livro <em>Senilidade<\/em> tem um trecho revelador sobre o protagonista que imagina o crime: \u201cTinha sonhado em sua vida at\u00e9 com o furto, o homic\u00eddio, o estupro. Sentira a coragem, a for\u00e7a e a perversidade do delinq\u00fcente, sonhara com o resultado dos delitos, a impunidade antes de tudo. Mas ap\u00f3s, satisfeito com o sonho, encontrara imut\u00e1veis os objetos que quisera destruir, e se aquietava com a consci\u00eancia tranq\u00fcila. Cometera o delito, mas n\u00e3o havia danos. No entanto, o sonho se fizera realidade, e ele, que antes o desejara, surpreendia-se agora e n\u00e3o o reconhecia porque antes tinha um aspecto totalmente diverso.\u201d<\/p>\n<p>O inferno desses matadores seriais \u00e9 o entorno escolar, dom\u00e9stico, profissional. Eles n\u00e3o se insurgem contra o sistema, a ideologia, o governo, a luta de classes. Eles atacam o que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo. Sinal que o inferno chegou pr\u00f3ximo demais das pessoas e n\u00e3o lhes d\u00e1 outra sa\u00edda. Para que a vida de hoje d\u00ea certo, \u00e9 preciso um monte de coisas: boa forma\u00e7\u00e3o, oportunidades, apoio, orienta\u00e7\u00e3o, f\u00f4lego. N\u00e3o h\u00e1 lugar para o improviso, a falta de vontade, a fraqueza. Trata-se de uma m\u00e1quina de produzir fracassados, perdedores.<\/p>\n<p>O sujeito que n\u00e3o consegue namorar, que n\u00e3o sobe na vida, que tem pai, m\u00e3e, tia, av\u00f3s seguindo cada um dos seus passos, esse \u00e9 o enjaulado perigoso. Ele precisa se libertar, sair. N\u00e3o se trata de justificar nada em crime hediondo, mas de tentar entender um fen\u00f4meno que est\u00e1 se repetindo demais. A sociedade de massas, que toma conta de todos os espa\u00e7os, n\u00e3o deixando ningu\u00e9m respirar, gera insatisfa\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis, inclusive nas pessoas consideradas bem sucedidas. Minha gera\u00e7\u00e3o foi \u00e1 rua, a atual resolve matar todo mundo.<\/p>\n<p>No filme Elephant, Gus Van Sant comp\u00f5e um quebra cabe\u00e7as: intermin\u00e1veis cenas que se passam dentro do col\u00e9gio e como nelas se formam os ninhos de opress\u00e3o, desconforto, exclus\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o, medo. O elefante do t\u00edtulo \u00e9 uma met\u00e1fora, se refere a \u00e0 hist\u00f3ria dos cegos que tentam descobrir que bicho \u00e9 aquele com grande tromba, orelhas enormes etc. Cada um, apalpando uma parte do animal, o descreve conforme sua percep\u00e7\u00e3o. Mas ningu\u00e9m v\u00ea o conjunto.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o se nota mudan\u00e7as \u00e0 vista, com milh\u00f5es de pessoas sendo despejadas de suas casas e trabalhos em todo o mundo, com os comportamentos sociais intensificando suas neuroses, a tend\u00eancia \u00e9 piorar. Mais massacres vir\u00e3o. Vai chegar uma hora em que cair\u00e1 no vazio as caras de espanto e as lamenta\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso cair a ficha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O inferno desses matadores seriais \u00e9 o entorno escolar, dom\u00e9stico, profissional. Eles n\u00e3o se insurgem contra o sistema, a ideologia, o governo, a luta de classes. Eles atacam o que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo. Sinal que o inferno chegou pr\u00f3ximo demais das pessoas e n\u00e3o lhes d\u00e1 outra sa\u00edda. Para que a vida de hoje d\u00ea certo, \u00e9 preciso um monte de coisas: boa forma\u00e7\u00e3o, oportunidades, apoio, orienta\u00e7\u00e3o, f\u00f4lego. 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