{"id":54,"date":"2005-05-13T21:49:56","date_gmt":"2005-05-13T23:49:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/brizola-a-devocao-civica"},"modified":"2009-12-20T23:33:23","modified_gmt":"2009-12-21T01:33:23","slug":"brizola-a-devocao-civica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/brizola-a-devocao-civica","title":{"rendered":"BRIZOLA, A DEVO\u00c7\u00c3O C\u00cdVICA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nN\u00e3o somos uma religi\u00e3o, Brizola, nem sequer um partido. Somos um sentimento, agradecido pela tua longa exist\u00eancia. Somos hoje o que dever\u00edamos ser sempre, um povo ocupando dignamente a rua. N\u00e3o queremos revanche, Brizola, porque tivemos a nossa chance. Deus h\u00e1 de nos explicar um dia porque n\u00e3o te colocamos na presid\u00eancia. E h\u00e1 de nos perdoar por n\u00e3o te enterrarmos hoje como chefe supremo de Estado. Te enterramos apenas como her\u00f3i da P\u00e1tria, como irm\u00e3o que nos alistou na honra, e como l\u00edder que nos ensinou a grandeza que ainda nos falta, aprendizes que somos do civismo verdadeiro, o que n\u00e3o tem volta porque nele devemos apostar n\u00e3o s\u00f3 uma luta, mas toda uma vida.<\/p>\n<p><strong>FRONTEIRA<\/strong> &#8211; Foi o que fizeste, Brizola, neste tempo que deveria ser de luzes, mas foi de trevas. Neste intermin\u00e1vel pesadelo que acabou nos devorando com suas promessas n\u00e3o cumpridas. Morei anos perto de ti, Brizola. Estavas recolhido no Uruguai, esse ref\u00fagio dos guerreiros do pampa, esse lugar que um dia recebeu Hon\u00f3rio Lemos e o devolveu armado, \u00e0 frente de um ex\u00e9rcito de 800 homens vestindo len\u00e7o vermelho. Lembro como tinham medo que cruzasses a fronteira, Brizola. Qualquer movimento e prendiam o orador que saudou o ex-aluno e paraninfo Jo\u00e3o Goulart numa formatura memor\u00e1vel do Col\u00e9gio Santana. Como se ele representasse algum perigo. Esse estudante, que sofreu anos a tortura de ser recolhido \u00e0 pris\u00e3o me confessou o medo que tinha de acabar sendo o que ele n\u00e3o era, pois exigiam que se declarasse comunista. &#8220;Vou acabar me comunizando&#8221;, dizia ele, amedrontado, com sua cara cheia de espinhas, menino ainda, que no seu discurso havia levantado a voz e a m\u00e3o para saudar o ilustre presidente que ali estava na sua frente, escutando suas palavras. Tiraram essa gl\u00f3ria dele, Brizola, porque tinham medo. E lembro o grande pavor que sentiram quando enfim o cora\u00e7\u00e3o de Jango n\u00e3o ag\u00fcentou e a\u00ed sim cruzou a fronteira para sempre, num caix\u00e3o de madeira. Jango foi carregado pela ponte de Uruguaiana, Brizola, para ser carregado at\u00e9 S\u00e3o Borja, o\u00adnde foi enterrado ao lado de Get\u00falio. Foi a\u00ed que eles sentiram que podiam abrir um pouco, achavam que tinham rompido a linhagem popular que elegia os trabalhistas em todos os n\u00edveis, municipais, estaduais, federais. Lembro como foi a gest\u00e3o de \u00cdris Valls, do PTB, na minha cidade, querido amigo. Uruguaiana era uma cidade esplendorosa, arborizada, rica, cheia de vida. A esposa do prefeito trabalhista foi minha professora do primeiro ano prim\u00e1rio e me ensinou a ler. Era assim a t\u00eampera daquelas pessoas maravilhosas que governavam o pa\u00eds e foram expulsas pela inc\u00faria, pela viol\u00eancia e pela inveja.<\/p>\n<p><strong>MEM\u00d3RIA<\/strong> &#8211; Por isso somos um sentimento, Brizola. Somos essa mem\u00f3ria que n\u00e3o cessa de nos estocar com seu arsenal de cobran\u00e7as. Lembro minha m\u00e3e escandalizada com as manipula\u00e7\u00f5es do voto que as campanhas pol\u00edticas j\u00e1 faziam naqueles tempos terr\u00edveis. Votem nos trabalhistas, dizia ela, n\u00e3o se deixem enganar. Lembro tamb\u00e9m meu pai proclamando-se centrista, como Jango, que a todos conseguia passar a perna, dizia, rindo, aquela perna que Jango puxava principalmente quando passava as tropas em revista. T\u00ednhamos ent\u00e3o amor \u00e0s For\u00e7as Armadas, Brizola. Elas ainda n\u00e3o haviam sido ludibriadas por essa direita que acabou empalmando tudo, para nos entregar de gra\u00e7a para a pirataria internacional. Lembro que minha m\u00e3e ficou de cama quando o novo falso presidente fardado assumiu o poder falando mal dos trabalhistas, os acusando do que nunca foram, de comunistas. Adoecemos todos naquela \u00e9poca, Brizola. Contra\u00edmos a tristeza incur\u00e1vel das na\u00e7\u00f5es derrotadas. Olh\u00e1vamos para a fronteira e sab\u00edamos que l\u00e1, por tr\u00e1s daquela linha imagin\u00e1ria, estavas em sil\u00eancio for\u00e7ado, louco para voltar. Mas quando voltaste j\u00e1 \u00e9ramos outros, Brizola. Tiveste que recolher todos os cacos da na\u00e7\u00e3o e provar que ainda estava viva a chama da terra brava que hoje faz teu funeral. Foste de rua em rua, de casa em casa e conseguiste de novo a vit\u00f3ria, nesse Rio de Janeiro que ser\u00e1 sempre a capital da na\u00e7\u00e3o amada e que teve de ser despossu\u00edda para que os verdugos triunfassem. O Rio de Janeiro que recebeu Get\u00falio em 1930 e que te elegeu governador duas vezes, como a repetir que te queria presidente na capital que esvaziaram e que hoje est\u00e1 entregue \u00e0 sanha da viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>ACAMPAMENTO<\/strong> &#8211; Fiquei impressionado com o rosto de dor da governadora do Rio, Brizola. Como a nos dizer que devia tudo \u00e0 tua generosidade e que talvez n\u00e3o fora suficientemente expl\u00edcita no seu reconhecimento. E agora, tarde demais, carrega sua dor incur\u00e1vel pelo vel\u00f3rio com a cara transtornada pelo choro sem fim. A pol\u00edtica que temos hoje n\u00e3o permite esse tipo de emo\u00e7\u00e3o, Brizola. Foi esse sentimento, que desenha o rosto dela, que prevalece nesta hora em que te depositamos na morada definitiva. Apesar das falsidades que desfilaram no teu vel\u00f3rio, l\u00e1 estava o povo, chorando, discursando, levantando os bra\u00e7os, porque algo terr\u00edvel aconteceu: morreste, Brizola, foste para sempre e levaste contigo a oportunidade de resgatarmos ainda nesta vida o pa\u00eds perdido, a na\u00e7\u00e3o brasileira que precisa ressuscitar deste horror a que nos submeteram. Somos devotos do teu civismo, Brizola, e n\u00e3o teus fan\u00e1ticos seguidores. N\u00e3o temos fanatismo, porque somos um povo que veio de longe, junto contigo, e soube combater o bom combate. Nossa cultura \u00e9 de acampamento guerreiro, comandante. Dormimos debaixo de lonas grossas, conversamos ao redor do fogo, nos amparamos no tiroteio, passamos uma bebida amarga e quente de m\u00e3o em m\u00e3o. Tem gente que acha gra\u00e7a, Brizola. Mas hoje ningu\u00e9m ri dos teus compatriotas que te enterram, querido amigo. Mesmo nesta profiss\u00e3o extinta, o jornalismo, houve alguns claros no obscurantismo. Tiveram que fazer a cobertura completa, Brizola, apesar de alguns deboches, de algumas vaidades (todos te entrevistaram!) e desse desfile de fantasmas em vida que se referem a ti como se tivessem te conhecido em toda a tua dimens\u00e3o. Mas o verdadeiro testemunho j\u00e1 est\u00e1 enterrado, Brizola. Imagino o que diriam Tarso de Castro ou Darcy Ribeiro. Resta apenas a nossa dor e a pobreza destas palavras.<\/p>\n<p><strong>LEVANTE<\/strong> &#8211; Porque nasci poeta no pampa que despertaste, te sa\u00fado, Brizola. Assim, sem que ningu\u00e9m me pedisse e sem que eu tivesse a m\u00ednima chance de representar quem quer que seja. Porque tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a saudade que nos move, Brizola. N\u00e3o somos saudosos, somos apenas o povo que hoje te enterra. Por nossas m\u00e3os desces \u00e0 terra como um p\u00e1ssaro procura a luz, como a dor que se redime, como o sentimento que aflora. Nosso cora\u00e7\u00e3o te leva junto, companheiro, nesta jornada ainda no meio, como a bandeira de uma na\u00e7\u00e3o que, pelo teu exemplo, se levanta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o somos uma religi\u00e3o, Brizola, nem sequer um partido. Somos um sentimento, agradecido pela tua longa exist\u00eancia. Somos hoje o que dever\u00edamos ser sempre, um povo ocupando dignamente a rua. N\u00e3o queremos revanche, Brizola, porque tivemos a nossa chance. 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