{"id":542,"date":"2009-12-11T11:58:50","date_gmt":"2009-12-11T13:58:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=542"},"modified":"2009-12-21T23:44:45","modified_gmt":"2009-12-22T01:44:45","slug":"o-reporter-que-parou-o-aviao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-reporter-que-parou-o-aviao","title":{"rendered":"O REP\u00d3RTER QUE PAROU O AVI\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nJorge Edemar Ruwer corre para o meio da pequena pista da cidade do interior do Rio Grande do Sul e faz sinal, de maneira decidida, sacudindo os dois bra\u00e7os, para o pequeno avi\u00e3o que iria partir para Porto Alegre. Ele sabia que aquela era a \u00fanica chance de colocar a mat\u00e9ria na edi\u00e7\u00e3o do dia seguinte. Naquele tempo, final dos anos 60, o telex era considerado ainda \u201ca maquininha m\u00e1gica\u201d, como nos diziam no curso de Jornalismo. Enviar texto e fotos, do lend\u00e1rio fot\u00f3grafo J. B. Scalco, seu companheiro daquela jornada perigosa, antes que a m\u00e1fia se mexesse e impedisse a publica\u00e7\u00e3o, era uma quest\u00e3o de vida ou morte para o grande rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>Ele usava um chap\u00e9u imenso, uma cal\u00e7a surrada da marca Far-west (as pr\u00e9-jeans), botas sanfonadas de ga\u00facho campeiro, camisa de algod\u00e3o e casaco de brim, que nunca tirava. Tinha o olhar que varria horizontes, o queixo sempre levantado, tentando enxergar al\u00e9m do que era visto. Descobriu uma rede de bandidos que exploravam a prostitui\u00e7\u00e3o e o tr\u00e1fico de crian\u00e7as pelo interior ga\u00facho e publicou uma s\u00e9rie de reportagens a pedido do secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o da Folha da Tarde, Walter Galvani, na \u00e9poca \u00e0 frente de uma equipe jamais igualada. Al\u00e9m de Ruwer (que com esse trabalho ganhou o pr\u00eamio Ari &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Riograndense de Imprensa, de 1970) havia Waldir Zwestch, Jorge Escosteguy, Danilo Ucha, Ademar Vargas de Freitas, Luiz Henrique Fruet, entre muitos outros.<\/p>\n<p>O avi\u00e3o teve que parar diante da insist\u00eancia do rep\u00f3rter. Ruwer ent\u00e3o colocou nas m\u00e3os do piloto um envelope lacrado, com os textos e as fotos da den\u00fancia e imp\u00f4s sua vontade, com seu jeito largo, firme e ao mesmo tempo cavalheiro, com a for\u00e7a da sedu\u00e7\u00e3o de um temperamento vocacionado para o perigo da informa\u00e7\u00e3o inadi\u00e1vel. Era preciso que o material fosse entregue para o motorista da Caldas Junior logo que o avi\u00e3o pousasse no aeroporto Salgado Filho. De l\u00e1, partiria queimando pneu at\u00e9 a reda\u00e7\u00e3o, onde seria editado, as fotos reveladas e ampliadas e tudo colocado direto na oficina a chumbo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, os leitores tinham na m\u00e3o a bomba do rep\u00f3rter inesquec\u00edvel que, por \u201ccoincid\u00eancia\u201d, foi assassinado mais tarde, em Passo Fundo, sendo que o seu assassino levou tamb\u00e9m um tiro na nuca. Assim se eliminaram os grandes rep\u00f3rteres da imprensa brasileira. e foi bem na minha vez, quando eu estava entrando na profiss\u00e3o. Tive tempo de ver, de relance, aqueles que deixaram sua marca e hoje est\u00e3o esquecidos. Ruwer \u00e9 nome de rua em Carazinho, mas \u00e9 muito pouco. Seus textos deveriam estar reunidos em livros. Haveria muito mais proveito do que qualquer manual de reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ruwer \u00e9 um dos craques do time de rep\u00f3rteres que fez a hist\u00f3ria do jornalismo brasileiro. Nessa sele\u00e7\u00e3o de ouro, entram, obrigatoriamente, Hamilton Almeida Filho, Marcos Faerman, Octavio Ribeiro (o Pena Branca) e tantos outros, mais conhecidos. Na reda\u00e7\u00e3o que eu tivesse o privil\u00e9gio de montar, os retratos deles estariam nas paredes, a exemplo das galerias de estadistas nas sedes das grandes rep\u00fablicas. Haveria uma biblioteca (nunca conheci reda\u00e7\u00e3o com biblioteca) com todos os livros reunindo suas reportagens e os autores que fizeram suas cabe\u00e7as. Depois, convocaria alguns talentos espalhados pelo Brasil e que, super-capacitados, ainda est\u00e3o por mostrar tudo o que podem fazer (mesmo os mais not\u00f3rios).<\/p>\n<p>Convidaria para visitar a reda\u00e7\u00e3o, periodicamente, alguns veteranos. Na porta, colocaria um quadro do Edemar Ruwer, usando chap\u00e9u de aba larga e botas sanfonadas de cano curto, com olhos r\u00fatilos de tes\u00e3o pela profiss\u00e3o que abra\u00e7ou e por ela dedicou sua vida, fazendo sinal para o avi\u00e3o parar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Edemar Ruwer corre para o meio da pequena pista da cidade do interior do Rio Grande do Sul e faz sinal, de maneira decidida, sacudindo os dois bra\u00e7os, para o pequeno avi\u00e3o que iria partir para Porto Alegre. Ele sabia que aquela era a \u00fanica chance de colocar a mat\u00e9ria na edi\u00e7\u00e3o do dia seguinte. Naquele tempo, final dos anos 60, o telex era considerado ainda \u201ca maquininha m\u00e1gica\u201d, como nos diziam no curso de Jornalismo. Enviar texto e fotos, do lend\u00e1rio fot\u00f3grafo J. B. 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