{"id":549,"date":"2009-12-11T12:34:42","date_gmt":"2009-12-11T14:34:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=549"},"modified":"2009-12-21T23:52:28","modified_gmt":"2009-12-22T01:52:28","slug":"a-esperanca-em-mother-jones","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-esperanca-em-mother-jones","title":{"rendered":"A ESPERAN\u00c7A EM MOTHER JONES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Aconteceu em Nova York, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Milhares de crian\u00e7as, com o rosto borrado de carv\u00e3o, cruzaram a cidade gritando e exibindo cartazes com os dizeres: \u201cQueremos ir para a escola, n\u00e3o para as minas\u201d. Na lideran\u00e7a da passeata, firme, do alto dos seus 93 anos, aquela que era considerada pela pol\u00edcia \u201ca mulher mais perigosa da Am\u00e9rica\u201d, conhecida como Mother Jones. Pessoa marcada, de orat\u00f3ria precisa e poderosa, foi presa v\u00e1rias vezes como agitadora, numa \u00e9poca em que as reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, que n\u00e3o tinham sal\u00e1rio nem jornada de trabalho fixos, eram consideradas atos de trai\u00e7\u00e3o \u00e0 P\u00e1tria, em plena v\u00e9spera da participa\u00e7\u00e3o americana na guerra na Europa.<\/p>\n<p>O que fazia nas ruas uma anci\u00e3, envergando longo vestido preto, com sua carranca herdada de suas origens irlandesas e de suas trag\u00e9dias pessoais, como a morte fam\u00edlia por motivo de doen\u00e7a e a perda de todos os seus bens num inc\u00eandio? Por que n\u00e3o se recolhera \u00e0 cadeira de balan\u00e7o e ao tric\u00f4, como queriam seus inimigos? Por que insistia em esfregar nas fu\u00e7as da Am\u00e9rica o crime que se cometia contra a inf\u00e2ncia pobre, quando se gerava uma cidadania despossu\u00edda e assim se condenava o futuro do pa\u00eds? Por que Mother Jones n\u00e3o ficou vendo tudo assustada, pela fresta das janelas?<\/p>\n<p>Porque, entre outras coisas, ela sabia dos fatos, tanto pela viv\u00eancia e pelas reportagens da imprensa combativa da \u00e9poca, onde se destacava John Reed, o maior rep\u00f3rter do mundo, que escreveu livros sobre o M\u00e9xico Rebelde, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, o front europeu da I Grande Guerra e o massacre dos mineiros nos Estados Unidos. No seu livro \u201cEu vi um novo mundo nascer\u201d ele cita a figura de Mother Jones, que com suas milhares de crian\u00e7as foi at\u00e9 as portas do presidente Theodore Roosevelt, que se recusou a receb\u00ea-la. Hoje ela \u00e9 t\u00edtulo de revista alternativa importante. Deveria virar um grande filme. Ver\u00edamos aquela senhora idosa \u00e0 frente da inf\u00e2ncia maltratada a meter o dedo nas fu\u00e7as dos marmanjos bem nutridos.<\/p>\n<p>Mother Jones encarna a esperan\u00e7a na idade em que tudo fica claro depois de tanto sofrimento. O grande evento da longevidade n\u00e3o \u00e9 o que aparece no espelho, mas essa lucidez que atrapalha o tr\u00e2nsito e faz a Terceira Idade vociferar contra a injusti\u00e7a. \u00c9 o recado terminal de quem n\u00e3o tem mais nada a perder e ainda precisa enfrentar a retalia\u00e7\u00e3o alheia. Hoje, quando se vive al\u00e9m do permitido numa era de altos custos e nenhum sentimento, as cobran\u00e7as se sucedem. \u00c9poca em que n\u00e3o se deve esperar reconhecimento e intensificar a presen\u00e7a quando todos d\u00e3o as costas.<\/p>\n<p>Churchill achou que seria eleito depois de tudo o que fez na II Guerra. Foi derrotado nas elei\u00e7\u00f5es, apesar de ter sido o l\u00edder que venceu os alem\u00e3es. Resolveu colher os louros, acabou com um ma\u00e7o de urtigas. \u00c9 constrangedor aguardar homenagens. Mais saud\u00e1vel \u00e9 enxergar a indiferen\u00e7a dos que ainda, em tese, viver\u00e3o por muito tempo. N\u00e3o existe nada de mais desumano do que a comisera\u00e7\u00e3o tardia. \u00c9 prefer\u00edvel ser xingado, assim se faz justi\u00e7a a quem continua vivo. Ou temido, como acontecia com Mother Jones.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m muito antigo \u00e9 tratado sem aquele olhar bovino de afetividade forjada, ele se sentir\u00e1 muito melhor. Num ambiente de sinceridade, quando vier alguma homenagem, ter\u00e1 muito mais impacto e ser\u00e1 mais ben\u00e9fico. Mas vivemos na \u00e9poca dos corretos, onde tudo foi substitu\u00eddo por sua representa\u00e7\u00e3o, pela falsidade das inten\u00e7\u00f5es e resultados, pelas apar\u00eancias. Ao mesmo tempo em que se fala tanto em prote\u00e7\u00e3o aos animais, respeito aos idosos ou defesa das crian\u00e7as, sobram exemplos de explora\u00e7\u00e3o infantil, comercializa\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria da fauna silvestre e jogo bruto do abandono dos velhos nas ruas, asilos ou quartos dos fundos.<\/p>\n<p>A grande solid\u00e3o hoje da Terceira Idade \u00e9 o desperd\u00edcio de uma chance de recuperarmos os paradigmas perdidos. A viv\u00eancia por muitas d\u00e9cadas \u00e9 o testemunho vivo do que se foi, especialmente no Brasil, onde se somaram as mudan\u00e7as radicais da era p\u00f3s-industrial e o longo regime de exce\u00e7\u00e3o, ainda vigente, apesar do discurso recorrente sobre democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aconteceu em Nova York, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Milhares de crian\u00e7as, com o rosto borrado de carv\u00e3o, cruzaram a cidade gritando e exibindo cartazes com os dizeres: \u201cQueremos ir para a escola, n\u00e3o para as minas\u201d. Na lideran\u00e7a da passeata, firme, do alto dos seus 93 anos, aquela que era considerada pela pol\u00edcia \u201ca mulher mais perigosa da Am\u00e9rica\u201d, conhecida como Mother Jones. Pessoa marcada, de orat\u00f3ria precisa e poderosa, foi presa v\u00e1rias vezes como agitadora, numa \u00e9poca em que as reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, que n\u00e3o tinham sal\u00e1rio nem jornada de trabalho fixos, eram consideradas atos de trai\u00e7\u00e3o \u00e0 P\u00e1tria, em plena v\u00e9spera da participa\u00e7\u00e3o americana na guerra na Europa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/549"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=549"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/549\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1864,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/549\/revisions\/1864"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=549"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=549"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=549"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}