{"id":551,"date":"2009-12-11T12:36:02","date_gmt":"2009-12-11T14:36:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=551"},"modified":"2009-12-21T23:47:03","modified_gmt":"2009-12-22T01:47:03","slug":"john-reed","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/john-reed","title":{"rendered":"JOHN REED"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\nEle ficou sem dinheiro numa viagem perigosa, quando cobria a Primeira Guerra Mundial, uma carnificina promovida por comerciantes, segundo sua defini\u00e7\u00e3o. Teve que viajar agarrado fora do trem, para n\u00e3o ser visto. Quando, por qualquer motivo, o comboio parava no meio da madrugada e do ermo absoluto, ele corria para o campo, se escondia, esperava. E voltava para pegar o vag\u00e3o em movimento. No M\u00e9xico, seguiu um velho viajante, cruzando montanhas geladas e desertos e foi ao encontro de Pancho Villa. No Colorado, numa sangrenta greve de mineiros, acabou sendo preso e fez suas entrevistas com os l\u00edderes do movimento encarcerados em meio a multid\u00f5es sem ar nem luz, depositados em por\u00f5es imundos.<\/p>\n<p>Foi preso v\u00e1rias vezes, confundido com o objeto de suas mat\u00e9rias: o povo em armas. Contou toda a hist\u00f3ria, com detalhes, do tiroteio entre mineiros e os bandidos a servi\u00e7o das grandes corpora\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos, que durou meses e desembocou num massacre onde foram queimados homens, mulheres e crian\u00e7as. Tentavam impedi-lo de trabalhar. Mas ele chegou at\u00e9 a R\u00fassia e viu a revolu\u00e7\u00e3o, que gerou seu mais c\u00e9lebre livro, \u201cOs dez dias que abalaram o mundo\u201d. De seu texto, magn\u00edfico na reportagem e na fic\u00e7\u00e3o, sa\u00edram in\u00fameros filmes, a come\u00e7ar por \u201cOutubro\u201d e \u201cQue Viva M\u00e9xico\u201d, de Eisenstein.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 o autor do personagem pobre, errante e com ares distintos que influenciou decisivamente Charles Chaplin a criar seu imortal vagabundo, num conto publicado na revista The Masses. Desconfio que as cartas dos mineiros condenados \u00e0 morte pelos chacinadores, que ele publicou em suas grandes reportagens, tamb\u00e9m tenha inspirado o filme \u201cOx Bow Incident\u201d (1943), de Willian Wellman, grande faroeste com Henry Fonda sobre o enforcamento, sem julgamento, de tr\u00eas suspeitos.<\/p>\n<p>Ler John Reed \u00e9 n\u00e3o apenas um prazer como um abismo de infinitas revela\u00e7\u00f5es sobre as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo vinte, ou como ele dizia, de maneira mais apropriada, sobre a luta de classes daquela \u00e9poca. Nele conflu\u00eda a forma\u00e7\u00e3o apurada (fez Harvard), o texto antol\u00f3gico, a ousadia sem limites e a coragem de dizer com todas as letras. Quando Trotski, reportado por Reed no seu livro imortal, disse que a revolu\u00e7\u00e3o russa seria vista no futuro como um modelo de revolu\u00e7\u00e3o, o mesmo serve para a obra de John Reed.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 um modelo de jornalismo, exatamente o jornalismo que precisamos desesperadamente hoje. N\u00e3o pela sua capacidade de den\u00fancia, pois hoje parece moda apontar o dedo para todas as dire\u00e7\u00f5es. Mas pela maturidade da op\u00e7\u00e3o mais perigosa, a de contar toda a verdade e ficar firme no mesmo lugar aguardando a resposta. Quando ele debocha de Rockfeller, patr\u00e3o dos mineiros, que elogiava os verdugos depois de um massacre, sabemos que boa encrenca era esse cara baixo, de queixo proeminente, testa larga, olhar fuzil e sorriso quase a explodir diante de seus contempor\u00e2neos e da posteridade.<\/p>\n<p>Ao descobrir que a maioria passava necessidades para que a minoria vivesse no luxo, John Reed descobriu a miss\u00e3o da sua vida. Parece hoje ing\u00eanuo, ultrapassado. Vivemos uma \u00e9poca de pragmatismo e desilus\u00f5es. Pode-se coloc\u00e1-lo no \u00edndex por estar enterrado ao lado de L\u00eanin, em Moscou. Mas seus funerais, dignos de um her\u00f3i, apenas atestam o quanto foi longe o rep\u00f3rter e escritor que n\u00e3o tinha medo de nada, apesar de, nas suas mem\u00f3rias (\u201cEu vi um mundo novo nascer\u201d) confessar que se sentia sempre um covarde, pois fugia de seus advers\u00e1rios quando era adolescente.<\/p>\n<p>Admiro a coragem, essa fagulha que nos coloca no miolo do furac\u00e3o como se estiv\u00e9ssemos indo na esquina. Quando leio John Reed e mergulho na plasticidade de suas narrativas, no movimento hist\u00f3rico de suas reportagens, na grandeza de sua lucidez, na gra\u00e7a de seu texto admir\u00e1vel, come\u00e7o a fazer parte de algo maior. Algo que me transcende e me leva de rold\u00e3o, como inunda\u00e7\u00e3o repentina numa plan\u00edcie de bocejos. Ele tem o dom de escrever de maneira decisiva, sem transparecer falsidades ou inten\u00e7\u00f5es ocultas.<\/p>\n<p>Vejam que frases: \u201cEu soube, ent\u00e3o, e n\u00e3o foi pelos livros, como os trabalhadores produzem toda a riqueza do mundo, e que esta vai para aqueles que nada fazem para merec\u00ea-la. Vi as batalhas bem de perto, vi meus companheiros serem derrotados e mortos, corri pelo deserto para salvar minha vida. Se algu\u00e9m pensa que as massas russas queriam essa guerra, \u00e9 s\u00f3 colocar o ouvido no ch\u00e3o nesses dias, agora que elas est\u00e3o rompendo seu sil\u00eancio secular, e escutar o troar cada vez mais pr\u00f3ximo da paz\u201d.<\/p>\n<p>John Reed. O texto obrigat\u00f3rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele ficou sem dinheiro numa viagem perigosa, quando cobria a Primeira Guerra Mundial, uma carnificina promovida por comerciantes, segundo sua defini\u00e7\u00e3o. Teve que viajar agarrado fora do trem, para n\u00e3o ser visto. Quando, por qualquer motivo, o comboio parava no meio da madrugada e do ermo absoluto, ele corria para o campo, se escondia, esperava. E voltava para pegar o vag\u00e3o em movimento. No M\u00e9xico, seguiu um velho viajante, cruzando montanhas geladas e desertos e foi ao encontro de Pancho Villa. No Colorado, numa sangrenta greve de mineiros, acabou sendo preso e fez suas entrevistas com os l\u00edderes do movimento encarcerados em meio a multid\u00f5es sem ar nem luz, depositados em por\u00f5es imundos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[14],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/551"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=551"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/551\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":553,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/551\/revisions\/553"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}