{"id":554,"date":"2009-12-12T15:33:24","date_gmt":"2009-12-12T17:33:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=554"},"modified":"2009-12-21T23:40:49","modified_gmt":"2009-12-22T01:40:49","slug":"ludwig-de-luchino-visconti","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ludwig-de-luchino-visconti","title":{"rendered":"LUDWIG, DE LUCHINO VISCONTI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nArte, conhecimento, cultura s\u00e3o os pal\u00e1cios mais permanentes da realeza, que sobrevivem \u00e0 decad\u00eancia, ao esquecimento e \u00e0 morte. O rei esclarecido, o mecenas de autores e artistas, garante a sobreviv\u00eancia do criador para que seu reinado usufrua do prest\u00edgio da produ\u00e7\u00e3o que cresce sob essa sombra generosa. Mas h\u00e1 uma clara diferen\u00e7a entre o nobre que det\u00e9m o sustento e o cortes\u00e3o escolhido e pago para pintar, compor, escrever. Um rei ocupa lugar de destaque na plat\u00e9ia, mas jamais pode ser palco, espa\u00e7o exclusivo de seus protegidos. Ou protagonista, concorrer com a obra que nasce sob sua guarda.<\/p>\n<p>Essa divis\u00e3o radical de pap\u00e9is colocou os protetores como coadjuvantes dos seus apaniguados. Goya \u00e9 mais importante que a Corte espanhola, Leonardo da Vinci suplanta a presen\u00e7a do Papa, Machiavel ofusca o pr\u00edncipe. No fundo, a verdadeira realeza pertence \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. O Pr\u00edncipe Ludwig (1845-1886), da Baviera, sabia disso. Tinha no\u00e7\u00e3o exata da falsidade de sua fun\u00e7\u00e3o, herdada pelo sangue numa fam\u00edlia intermin\u00e1vel, que dominava a Europa e onde medrava o fratric\u00eddio. Colocado no miolo desse drama aos 19 anos, Ludwig quis legitimar seu mandato real convidando para ficar debaixo de sua asa o maior criador do seu tempo, Wagner, que comp\u00f4s duas obras primas enquanto foi sustentado pelo rei: Trist\u00e3o e Isolda e O Anel dos Libelungos.<\/p>\n<p>Ludwig queria a perman\u00eancia, n\u00e3o apenas como criatura (o distribuidor de benesses para os g\u00eanios), mas como criador. Desiludido dos neg\u00f3cios de Estado, ferido por um amor n\u00e3o correspondido (a rainha Elizabeth, da Austria), entregou-se \u00e0s fantasias l\u00fadicas cevadas no que ele chamava de enigma, sua identidade sexual e pessoal. Aprofundou-se no conv\u00edvio com a orgia, o estu\u00e1rio onde desaguava o assassinato de sua alegria de viver, que lhe foi negada pela situa\u00e7\u00e3o em que foi convocado ainda adolescente; e com a repeti\u00e7\u00e3o das di\u00e1logos das pe\u00e7as que amava, como se fosse poss\u00edvel negar a fic\u00e7\u00e3o e encarnar em seus aposentos a realidade produzida pelo talento. Manteve-se im\u00f3vel na idade em que n\u00e3o precisava assumir responsabilidades, enquanto crescia nele a imperiosa necessidade de romper o dique que separa poder de beleza, del\u00edrio de realidade.<\/p>\n<p>Luchino Visconti encontra em Ludwig sua pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o. O filme (1972) de quase quatro horas que fez sobre o Pr\u00edncipe da Baviera foi mutilado, esquartejado, desvirtuado exatamente pelo gabinete dos poderosos, os mesmos que, em mais esta obra- prima de sua lavra, aparecem todos de preto, portando guarda-chuvas sinistros em meio ao aguaceiro para cercar, aprisionar e depois levar \u00e0 morte o rei que queria um lugar entre os criadores. Visconti filma o deslocamento de Ludwig diante de seus algozes e sua determina\u00e7\u00e3o em permanecer fiel a si e a seu reinado de imagina\u00e7\u00f5es, apesar de toda oposi\u00e7\u00e3o e maledic\u00eancia.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 uma sucess\u00e3o de castelos suntuosos, as cinco partes em que foi dividido na restaura\u00e7\u00e3o da obra original feita ap\u00f3s sua morte. Cada castelo \u00e9 uma maneira de tornar eterna a vida dedicada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m, cada uma, o cap\u00edtulo do lento e fatal mergulho terminal do pr\u00edncipe maldito. O cineasta \u00e9 a majestade que n\u00e3o se entrega e vai at\u00e9 o fim, usando seu poder para construir algo que fique e que n\u00e3o sucumba \u00e0s press\u00f5es da mediocridade, da inveja e do medo. Um rei sem poder a n\u00e3o ser a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. Confinado em salas estreitas depois de ter constru\u00eddo espa\u00e7os monumentais. Levado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para o impasse gerado pela sua radicalidade.<\/p>\n<p>Um rei n\u00e3o se dobra e lega \u00e0 posteridade os monumentos de sua grandeza aprisionada e ferida. N\u00e3o que Ludwig (interpretado por um intenso Helmut Berger) seja um modelo de \u00e9tica, comportamento, pol\u00edtica. Tudo nele \u00e9 exagero, desde o amor plat\u00f4nico pela prima, rainha austr\u00edaca (interpretada pela atriz perfeita, Romy Schneider), a avers\u00e3o \u00e0 noiva, irm\u00e3 do seu objeto de desejo, a atitude voluntariosa nas decis\u00f5es importantes, o auto-confinamento em pal\u00e1cios inabit\u00e1veis, a dispers\u00e3o de recursos nacionais em favor de golpistas de todo o tipo etc. Mas \u00e9 nessa precariedade humana de algu\u00e9m com mandato divino, esse impulso numa pessoa que deveria, pelo cargo que ocupa, se pautar pela prud\u00eancia, esse afastamento do que \u00e9 razo\u00e1vel e previs\u00edvel que faz o encanto do personagem de Visconti.<\/p>\n<p>Mais do que o encanto: a express\u00e3o de uma vida voltada para a arte por parte de algu\u00e9m que n\u00e3o foi talhado para ela \u00e9 a trag\u00e9dia dessa busca obsessiva pela cria\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio est\u00e9ril. O mestre, no fundo, lega ao futuro seu inconformismo contra a sacraliza\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es, a cristaliza\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is, a defini\u00e7\u00e3o pr\u00e9via dos destinos. Algu\u00e9m com poder, diferente dos despossu\u00eddos que tamb\u00e9m procuram a transcend\u00eancia, intensifica esse drama pessoal e coletivo de vidas talhadas para serem subjugadas por leis imut\u00e1veis e que acabam reinventando algo maior.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, portanto, de um filme sobre \u201ca decad\u00eancia da aristocracia e da nobreza\u201d como querem os que v\u00eaem no Maestro uma eterna repeti\u00e7\u00e3o de Il Gattopardo, outra obra magn\u00edfica e imprescind\u00edvel. Em O Leopardo, o nobre se alia \u00e0 burguesia para ter uma sobrevida. Em Ludwig, o rei \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da mortalidade que tenta ocupar um lugar no Olimpo. S\u00e3o, portanto, temas absolutamente diversos. Em ambos, Visconti trabalha o estranhamento, insumo fundamental da arte que provoca a sabedoria.<\/p>\n<p>Isso acontece na escolha dos atores, na dublagem. Em O Leopardo um atleta americano, o cl\u00e1ssico Burt Lancaster, encarna um nobre siciliano. Em Ludwig, temos personagens falando em italiano na mais profunda pan-Germania. Essa paralaxe nos mant\u00e9m atentos, expectantes, esfor\u00e7ados. Nada nos \u00e9 proporcionado como se algu\u00e9m servisse um jantar com finos talheres. Somos ascetas assistindo a execu\u00e7\u00e3o de uma pena de morte. Vivemos uma vida inteira no longo espet\u00e1culo do Maestro inigual\u00e1vel, aquele que ficar\u00e1 eternamente como prova de que a S\u00e9tima Arte um dia produziu alta cultura.<\/p>\n<p>Poderemos dizer, ent\u00e3o, onde estivermos, no futuro: no tempo em que nos foi dado viver na terra, viv\u00edamos sob o impacto de Luchino Visconti, o g\u00eanio que alcan\u00e7ou a majestade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luchino Visconti encontra em Ludwig sua pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o. O filme (1972) de quase quatro horas que fez sobre o Pr\u00edncipe da Baviera foi mutilado, esquartejado, desvirtuado exatamente pelo gabinete dos poderosos, os mesmos que, em mais esta obra- prima de sua lavra, aparecem todos de preto, portando guarda-chuvas sinistros em meio ao aguaceiro para cercar, aprisionar e depois levar \u00e0 morte o rei que queria um lugar entre os criadores. Visconti filma o deslocamento de Ludwig diante de seus algozes e sua determina\u00e7\u00e3o em permanecer fiel a si e a seu reinado de imagina\u00e7\u00f5es, apesar de toda oposi\u00e7\u00e3o e maledic\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/554"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=554"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/554\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1835,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/554\/revisions\/1835"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=554"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=554"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=554"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}