{"id":555,"date":"2009-12-12T12:56:53","date_gmt":"2009-12-12T14:56:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=555"},"modified":"2009-12-21T23:57:36","modified_gmt":"2009-12-22T01:57:36","slug":"distorcoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/distorcoes","title":{"rendered":"DISTOR\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nQuando era proibido ter d\u00favidas e ningu\u00e9m podia desconfiar de nada, o mundo se assentava em princ\u00edpios eternos. Eles foram varridos mais tarde quando Baudelaire publicou suas \u201cFlores do Mal\u201d e Marcel Duchamp decidiu que seu mict\u00f3rio era arte. A diferen\u00e7a entre tradi\u00e7\u00e3o e ruptura gerou impasses. Uma poltrona antiga foi concebida para sentar, um celebrado banco de design ultra chic \u00e9 feito para expor. Uma obra de Oscar Niemeyer \u00e9 um encanto para os olhos, mas vai passar uma tarde de ver\u00e3o nos seus ambientes de concreto.<\/p>\n<p>Na poesia, \u00e9 infinita a capacidade de produzir coisas sem nenhum significado. O romance chegou a perder a linhagem narrativa, que fazia a cumplicidade entre a curiosidade do leitor e a maestria do autor. Retomou, mas com excesso de pipas e Kabul. O cinema \u00e9 um espanto. Mata-se milh\u00f5es em frente \u00e0s c\u00e2maras para p\u00fablicos cada vez mais anestesiados.<\/p>\n<p>Se o cinema de autor come\u00e7a a dar sinais de vida, ele chega sem a radicalidade que o definia. Passou a fase de obras-primas insuper\u00e1veis, que entrou em descenso a partir do aperto sobre a S\u00e9tima Arte, ind\u00fastria estrat\u00e9gica por excel\u00eancia. Todos tiveram chances de produzir seus filmes de propaganda, a exemplo do modelo hitlerista. CIA, FBI, Pent\u00e1gono, Marinha, Servi\u00e7o Secreto, lobby dos advogados contrataram estrelas, diretores e roteiristas por milh\u00f5es para provarem como s\u00e3o necess\u00e1rios \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>Enquanto isso, fica no limbo filmes fundamentais como \u201cO Intendente Sansho\u201d, de Kenji Mizoguchi, ou \u201cO Barba Ruiva\u201d, \u201cC\u00e9u e Inferno\u201d e \u201cC\u00e3o Danado\u201d, de Akira Kurosawa. A majestade em Luchino Visconti, a erudi\u00e7\u00e3o em Godard, a grandeza \u00e9pica em David Lean, a civiliza\u00e7\u00e3o popular em Vittorio de Sica, o m\u00e1gico realismo em Fellini, tudo ficou para tr\u00e1s. Hoje, arte em cinema \u00e9 alvo de deboche. Triunfou a nulidade posuda de filmes pomposamente descart\u00e1veis e de bilheteria f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Os mestres s\u00e3o esquecidos, enquanto cresce a corrida arrivista. A vanguarda foi clonada pelo oportunismo. Perdeu-se a capacidade de somar, unindo o acervo acumulado e as experimenta\u00e7\u00f5es. Faz falta sentar num tradicional banco de pra\u00e7a. Haveria algo mais inovador do que usufruir, sem medo e com relativo conforto, uma por\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando era proibido ter d\u00favidas e ningu\u00e9m podia desconfiar de nada, o mundo se assentava em princ\u00edpios eternos. Eles foram varridos mais tarde quando Baudelaire publicou suas \u201cFlores do Mal\u201d e Marcel Duchamp decidiu que seu mict\u00f3rio era arte. A diferen\u00e7a entre tradi\u00e7\u00e3o e ruptura gerou impasses. Uma poltrona antiga foi concebida para sentar, um celebrado banco de design ultra chic \u00e9 feito para expor. 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