{"id":559,"date":"2009-12-12T12:58:52","date_gmt":"2009-12-12T14:58:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=559"},"modified":"2009-12-21T23:33:23","modified_gmt":"2009-12-22T01:33:23","slug":"amor-pos-romantico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/amor-pos-romantico","title":{"rendered":"AMOR P\u00d3S-ROM\u00c2NTICO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p><em>No cl\u00e1ssico <strong>Pais e Filhos, Turgueniev <\/strong>(foto) enxerga a for\u00e7a animal de pessoas engessadas em h\u00e1bitos e comportamentos de um pa\u00eds e de uma \u00e9poca<\/em><\/p>\n<p>Amor \u00e9 abandono: os pais andam na ponta dos p\u00e9s para evitar que a admira\u00e7\u00e3o pelo filho pr\u00f3digo, enfim de volta \u00e0 casa, vire desprezo; o estudante pobre e radical oprime a aristocrata, repentinamente dona do seu \u00e1rido cora\u00e7\u00e3o; o amigo suporta todas as humilha\u00e7\u00f5es do companheiro de quarto para manter acesa sua devo\u00e7\u00e3o por algu\u00e9m que julga seu superior. Todos sofrem em sil\u00eancio esse amor fora de hora, pois em 1859, \u00e9poca em que se desenrola a obra-prima de Turgueniev, Pais e Filhos (Cosac Naify, 1994, tradu\u00e7\u00e3o de Rubens Figueiredo), o realismo dava as cartas e havia um esfor\u00e7o para que o romantismo fosse coisa do passado.<\/p>\n<p>Era o tempo da ascens\u00e3o das ci\u00eancias, quando livros at\u00e9 ent\u00e3o considerados can\u00f4nicos ca\u00edam no rid\u00edculo; das mulheres livres, que, apesar da intelig\u00eancia e independ\u00eancia, continuavam sendo desprezadas por parte do poder masculino; dos jovens niilistas (termo que apareceu pela primeira vez neste livro), que n\u00e3o aceitavam nenhum tipo de autoridade ou paradigma; dos senhores progressistas, que distribu\u00edam terras, emancipavam seus servos e os transformavam em m\u00e3o-de-obra assalariada (o que aconteceu com a pr\u00f3pria fam\u00edlia do autor). Onde caberia o amor, totalmente entranhado na ideia do romantismo, contra o qual se insurgiam as mentes que se emancipavam?<\/p>\n<p>Turgu\u00eaniev, que sabia das coisas, coloca o amor onde sempre esteve: nas situa\u00e7\u00f5es irrevers\u00edveis ditadas pelos la\u00e7os consangu\u00edneos (o rebento que nunca se separa do umbigo materno); na solidariedade inata da juventude, que procura protetores e gurus dentro e fora da fam\u00edlia; na rela\u00e7\u00e3o afetiva entre pares que se flagram na arapuca do estranho sentimento. O amor contraria o conforto do mancebo radical, colocando em xeque suas ideias de um novo mundo, livre das amarras das ilus\u00f5es; rema contra a corrente da vida dom\u00e9stica, pois as aten\u00e7\u00f5es do filho se desviam para a amizade n\u00e3o-correspondida; e desestabiliza a rotina da madame isolada e rica, que v\u00ea na paix\u00e3o pelo niilista um transtorno que precisa ser imediatamente extirpado.<\/p>\n<p>Amor, nas circunst\u00e2ncias dessa \u00e9poca que Turgu\u00eaniev reproduz magistralmente, deixa de ficar confinado na literatura rom\u00e2ntica ou de aventuras, ou nos h\u00e1bitos ditados pelos interesses, para se transformar no penetra da festa do realismo. Para que amar, sentimento in\u00fatil, se o mundo se revela avesso a qualquer entrega ao outro, se as pessoas exibem uma transpar\u00eancia sem limites, se nada fica oculto nessa sociedade sacudida pela ansiosa necessidade de mudan\u00e7a? Amor por que, se a soberba toma conta de elites e classes subalternas? Essa m\u00e1 vontade, ou desconhecimento, em rela\u00e7\u00e3o ao amor \u00e9 uma fonte de conflitos e desperd\u00edcios.<\/p>\n<p>Cada personagem encarna uma forma de amor perdido. Paviel, o tio do promissor Arc\u00e1dio, e um solteir\u00e3o angl\u00f3filo que desafia o niilista para um duelo, ama em segredo a jovem cunhada, que tem medo dele. Arc\u00e1dio, que se apaixona pela aristocrata, v\u00ea sua amada escorregar para as m\u00e3os do amigo que tanto admira. Bazarov, o revolucion\u00e1rio contra todas as correntes ideol\u00f3gicas, a tradi\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia e os costumes, perde o prumo diante do envolvimento com algu\u00e9m que considera superficial, limitada, previs\u00edvel. Nicolai, o pai de Arc\u00e1dio, perde a esposa e tenta reencontr\u00e1-la na empregada que lhe d\u00e1 um filho, e com a qual se casa.<\/p>\n<p>Enquanto as emo\u00e7\u00f5es correm por um ver\u00e3o cheio de surpresas, os pap\u00e9is tradicionais acabam se impondo e as tentativas de mudan\u00e7as caem no vazio. Catia, a mo\u00e7a prendada que toca piano e cede \u00e0 corte de Arc\u00e1dio, \u00e9 a continuidade da fam\u00edlia tradicional, em que os c\u00f4njuges se submetem \u00e0 servid\u00e3o social e dos costumes. Piotr, o chefe dos mujiques, que sonha com a ascens\u00e3o social, apenas reitera uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de patr\u00f5es e empregados. Os sentimentos verdadeiros se desencontram, submergem no leito modorrento das rela\u00e7\u00f5es datadas, ou caem em desgra\u00e7a, como \u00e9 o caso do velho casal que perde o filho de tifo. Mas triunfa a narrativa que inventa a pr\u00f3pria perman\u00eancia, apesar de t\u00e3o amarrada aos detalhes provis\u00f3rios da \u00e9poca em que foi escrita.<\/p>\n<p>Leitura obrigat\u00f3ria dos outros g\u00eanios, como G\u00f3rki e Tchecov, Turgu\u00eaniev foi um escritor de grande prest\u00edgio e import\u00e2ncia. Mesmo tendo denunciado a escassez e a precariedade dos radicais, que diziam n\u00e3o acreditar em nada, foi acusado de ter incentivado os niilistas, que tacaram fogo em S\u00e3o Petersburgo. Precisou emigrar em fun\u00e7\u00e3o dessa amea\u00e7a. No fundo, os autores existem \u00e0 revelia do que escrevem. S\u00e3o cultuados ou perseguidos pela percep\u00e7\u00e3o coletiva de sua notoriedade e n\u00e3o pelo mergulho nas suas obras. A verdade \u00e9 que ningu\u00e9m l\u00ea de fato, com raras exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ler para enxergar o pr\u00f3prio pensamento, para confirmar preconceitos, para se escandalizar ou se deslumbrar s\u00e3o formas equivocadas de um exerc\u00edcio \u00e1rduo. Pois o \u00fanico instrumento de um escritor \u00e9 a linguagem. N\u00e3o se pode querer que ele traga \u00e0 leitura os doces e mist\u00e9rios perseguidos por vidas vazias ou ansiosas. Essa ferramenta complicada, a linguagem, \u00e9 o \u00fanico percurso da leitura. Em Turgu\u00eaniev, cada par\u00e1grafo \u00e9 uma escultura de situa\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias que saltam vivas de um livro que tem quase um s\u00e9culo e meio de vida.<\/p>\n<p>Ele conseguiu enxergar a for\u00e7a animal de pessoas engessadas nos h\u00e1bitos e comportamentos de um pa\u00eds e uma \u00e9poca. Encontrou no amor a verdade que resiste aos r\u00f3tulos. Descobriu que o amor n\u00e3o pertence ao romantismo. E que cruza as tend\u00eancias e modas como uma flecha envenenada, capaz de contaminar as certezas mais definitivas. Turgu\u00eaniev encontrou no amor n\u00e3o apenas a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie, j\u00e1 que n\u00e3o faz sentido a reprodu\u00e7\u00e3o f\u00edsica sem o sentimento que empurra as pessoas para um abismo de prazer e ilumina\u00e7\u00f5es. Encontrou, tamb\u00e9m, a transcend\u00eancia.<\/p>\n<p>Os velhos que choram no t\u00famulo esquecido do filho, considerado uma promessa para o mundo; a mo\u00e7a que tocava piano e encontrou no pretendente uma raz\u00e3o para se livrar da influ\u00eancia familiar e gerar uma nova realidade; a jovem m\u00e3e que redescobre no velho marido a esperan\u00e7a que tinha perdido por uns tempos; esses se contrap\u00f5em ao velho solteir\u00e3o recluso que amarga um amor proibido.<\/p>\n<p>O amor, n\u00e3o o dinheiro, n\u00e3o as ideias, \u00e9 o que vale. O amor pode. Por isso tudo se insurge contra ele. Por algum tempo, numa quadra da vida, numa \u00e9poca qualquer do mundo, ele parece ser abandono. Mas todos sabem: n\u00e3o \u00e9. Porque o amor \u00e9 como anatomia: destino. E voca\u00e7\u00e3o para a humanidade, que nasce para morrer e vive por instinto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amor \u00e9 abandono: os pais andam na ponta dos p\u00e9s para evitar que a admira\u00e7\u00e3o pelo filho pr\u00f3digo, enfim de volta \u00e0 casa, vire desprezo; o estudante pobre e radical oprime a aristocrata, repentinamente dona do seu \u00e1rido cora\u00e7\u00e3o; o amigo suporta todas as humilha\u00e7\u00f5es do companheiro de quarto para manter acesa sua devo\u00e7\u00e3o por algu\u00e9m que julga seu superior. 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