{"id":563,"date":"2009-12-12T13:01:03","date_gmt":"2009-12-12T15:01:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=563"},"modified":"2009-12-21T23:29:31","modified_gmt":"2009-12-22T01:29:31","slug":"robinho-e-o-gato-de-alice","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/robinho-e-o-gato-de-alice","title":{"rendered":"ROBINHO E O GATO DE ALICE"},"content":{"rendered":"<p>ROBINHO E O GATO DE ALICE<br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\nNo amistoso Brasil 2 x It\u00e1lia 0, disputado dia 10 de fevereiro de 2009, o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foram as distor\u00e7\u00f5es consolidadas da cr\u00f4nica esportiva. \u201cFazer gra\u00e7a\u201d, por exemplo. \u00c9 o nome dado pela m\u00eddia para a criatividade dos craques. Vamos aos exemplos da partida.<\/p>\n<p>Robinho atrasa a bola, com um p\u00e9, para o outro. A bola, nesse repique surpreendente, em que cada p\u00e9 funciona como um jogador \u00e0 parte, vai direto para Ronaldinho, que recebe e devolve de calcanhar. Criaram espa\u00e7os, desestabilizaram a concorr\u00eancia. Principalmente Robinho, que depois (ou antes, n\u00e3o lembro) driblou os zagueiros e chutou cruzado, fazendo gols. E driblou como? Inspirado naquele velho jogo de rua que os malandros oferecem para os passantes. Todos conhecem: oferecendo tr\u00eas op\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o ter\u00e7adas em frente de todos com as m\u00e3os, o jogador desafia os espectadores a adivinhar em qual lugar est\u00e1 a prenda. Normalmente ele sai ganhando.<\/p>\n<p>Acontece o mesmo com Robinho: ele passa um verniz em cima da bola propondo a adivinha\u00e7\u00e3o. Em qual lugar ela vai ficar? Em lugar nenhum, pois a percep\u00e7\u00e3o alheia, driblada pela manipula\u00e7\u00e3o do craque, acaba vendo apenas os detalhes, que somem, do gato da Alice. Lewis Carrol, de Alice no Pa\u00eds das Maravilhas, contou a hist\u00f3ria do gato que mostrava apenas o sorriso, a cauda e assim por diante. Era imposs\u00edvel peg\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Trata-se de futebol em estado de arte. Pois bem. A cr\u00f4nica esportiva chama de fazer gra\u00e7a. Isso quando a jogada d\u00e1 certo. Quando d\u00e1 errado (pode acontecer) ent\u00e3o chamam de irresponsabilidade. Mas a acusa\u00e7\u00e3o de irresponsabilidade j\u00e1 est\u00e1 impl\u00edcita na defini\u00e7\u00e3o de fazer gra\u00e7a. Se o cara, em vez de ser um craque no pleno dom\u00ednio do seu of\u00edcio, \u00e9 apresentado apenas como um palha\u00e7o, est\u00e1 armada a trag\u00e9dia. Se o craque, como \u00e9 o caso de Robinho, ainda se mete numa enrascada, como aconteceu recentemente, acusado de ass\u00e9dio na Inglaterra, ent\u00e3o ele precisa de \u201corienta\u00e7\u00e3o\u201d como disse o Galv\u00e3o Bueno (pronto, falei) logo depois de um lance que saiu errado. \u00c9 a maneira de tocaiar o jogador, preparar uma armadilha de urso para ele, ligar sua atua\u00e7\u00e3o em campo com uma infelicidade na vida pessoal.<\/p>\n<p>J\u00e1 me falaram para s\u00f3 ver o jogo e escutar pelo r\u00e1dio, eliminando o som da TV. N\u00e3o tenho r\u00e1dio e acho um desaforo tirar o som da televis\u00e3o. A TV precisa mudar, abrir o leque de op\u00e7\u00f5es e n\u00e3o ficar sempre com os mesmos caras, por d\u00e9cadas a fio, dizendo asneiras. Olhaqui: Robinho e Ronaldinho Ga\u00facho n\u00e3o fazem gra\u00e7a, seus admiradores do bezerro de ouro Roberto Carlos (nossa, como Falc\u00e3o sente saudade do poste que chutava sempre na barreira!). Eles exercem a criatividade, encontram solu\u00e7\u00f5es para as jogadas e por isso s\u00e3o craques. S\u00e3o inventores e n\u00e3o pernas-de-pau.<\/p>\n<p>Custei a descobrir o que a cr\u00f4nica esportiva quer dizer com t\u00e9cnica. \u00c9 o talento, mas falar em talento est\u00e1 proibido. Dominar os fundamentos do futebol, como o chute, o cruzamento, o drible, a bola em curva, a defesa no \u00e2ngulo \u00e9 s\u00f3 para pessoas vocacionadas. Um tosco de nascen\u00e7a jamais vai aprender coisa alguma. Precisa ter nascido para isso. Ent\u00e3o o cara desenvolve o seu talento, que \u00e9 sempre potencial. Tem voca\u00e7\u00e3o, ou seja, tem queda para o futebol. T\u00e9cnica \u00e9 outra coisa: esquemas de jogo, defesa, ataque, volante, coisa para treinador e jogador experiente. Mas quando o cara consegue tirar a bola do advers\u00e1rio sem \u201cfazer gra\u00e7a\u201d a\u00ed e ele \u00e9 bom de t\u00e9cnica. \u00c9 um jogador t\u00e9cnico, dizem. O resto deve ser poeta.<\/p>\n<p>Outra distor\u00e7\u00e3o \u00e9 a chamada jogada ensaiada. Que import\u00e2ncia tem se a jogada \u00e9 ensaiada ou n\u00e3o? Talvez at\u00e9 tenha, mas do jeito que falam \u00e9 como se chegassem a uma conclus\u00e3o filos\u00f3fica da mais alta intensidade, que tudo explicaria, desde a cria\u00e7\u00e3o do universo at\u00e9 o destino de Poseidon. &#8220;Jogada ensaiada!&#8221; diz um. E o resto repete: &#8220;Jogada ensaiada!&#8221; Grande merda. Para que tanto estardalha\u00e7o para um tro\u00e7o desses? Porque explicaria o lance? Qual o sentido da euforia de proclamar que a jogada foi ensaiada?<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 isso: tudo tem que ser ensaiado no futebol, assim fica explicado tudo, tintin por tintin. Como advertia Garrincha ao tirar um sarro da prele\u00e7\u00e3o na Copa na v\u00e9spera de um jogo contra os russos. &#8220;Mas os russos sabem disso?&#8221; perguntou ele, depois de in\u00fameras hip\u00f3teses levantadas. Ou seja, o advers\u00e1rio vai se comportar conforme nossos ditames? Se depender da cr\u00f4nica esportiva, vai.<\/p>\n<p>Quando Robinho ou Ronaldinho Ga\u00facho \u201cfazem gra\u00e7a\u201d, est\u00e3o contrariando todas certezas da m\u00eddia dita especializada, h\u00e1 tempos envolvida numa gigantesca manobra de desconstru\u00e7\u00e3o da nossa cultura. Ser brasileiro, dar aquele drible que ningu\u00e9m no mundo jamais d\u00e1, n\u00e3o pode, fica feio. O neg\u00f3cio \u00e9 sermos uma na\u00e7\u00e3o de postes a dar caneladas, para a alegria dos zidanes da vida.<\/p>\n<p>Ah: gra\u00e7as \u00e0 gra\u00e7a, ganhamos de dois a zero. Elano tamb\u00e9m esteve \u00f3timo. Mas a Folha disse que foi gra\u00e7as ao time &#8220;italiano&#8221; do Dunga. Como a maioria dos jogadores que estiveram em campo s\u00e3o de times italianos, ent\u00e3o est\u00e1 explicado. O Brasil, claro, n\u00e3o tem nada a ver com isso. &#8220;Tivemos que inventar o Brasil&#8221;, disse Tom Jobim,&#8221;porque o Brasil n\u00e3o existia&#8221;. Agora eles cuidam de desinventar. Mas n\u00e3o conseguem. Uma pedalada e pronto. O Brasil continua l\u00e1, firme.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Robinho passa um verniz em cima da bola propondo a adivinha\u00e7\u00e3o. Em qual lugar ela vai ficar? Em lugar nenhum, pois a percep\u00e7\u00e3o alheia, driblada pela manipula\u00e7\u00e3o do craque, acaba vendo apenas os detalhes, que somem, do gato da Alice. Lewis Carrol, de Alice no Pa\u00eds das Maravilhas, contou a hist\u00f3ria do gato que mostrava apenas o sorriso, a cauda e assim por diante. 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