{"id":569,"date":"2009-12-12T13:03:48","date_gmt":"2009-12-12T15:03:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=569"},"modified":"2009-12-21T23:36:34","modified_gmt":"2009-12-22T01:36:34","slug":"cinco-bandeides-e-um-samovar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cinco-bandeides-e-um-samovar","title":{"rendered":"CINCO BANDEIDES E UM SAMOVAR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nFui obrigado a ficar na R\u00fassia por quatro meses, tempos atr\u00e1s, num frio que quase me matou. Foi numa regi\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 Sib\u00e9ria, dentro de uma casa abandonada. O dono, um sujeito ruivo retaco com dentes da frente separados (vi pelas fotos que deixou l\u00e1 num pacote escondido no fundo da gaveta do criado-mudo) devia ser algum caixeiro viajante que nunca estava em casa ou um aposentado que migrava na \u00e9poca do inverno para areias tropicais. Como fui parar l\u00e1? Demorei a descobrir os fatos reais que me condicionaram a essa pris\u00e3o de gelo por uma longa esta\u00e7\u00e3o. Porque tudo ficou nebuloso por um tempo.<\/p>\n<p>Quando voltei para c\u00e1, usando os documentos do sujeito que me cedera involuntariamente a moradia, usava o mesmo cabelo de milho dele e cuidei para criar a impress\u00e3o de que tinha os dois dentes da frente separados, como naquela caricatura da revista Mad. Como fiquei encolhido naquele inverno intermin\u00e1vel, tamb\u00e9m ostentava uma apar\u00eancia um pouco retaca, que ficara mais expl\u00edcita ao usar as roupas encontradas dentro do arm\u00e1rio (estavam mofando mesmo, n\u00e3o foi praticamente um roubo, mas uma recupera\u00e7\u00e3o). Eu me transformara no sujeito e conseguia dizer algumas palavras em russo, cuidando para salivar bastante quando pronunciasse niet, enquanto carregava nos erres em grrrusionovna, por exemplo. Com isso fui passando nas barreiras, sempre distribuindo sorrisos ou cenhos carregados, conforme a ocasi\u00e3o, e assim consegui pegar um avi\u00e3o de Moscou ao Rio de Janeiro, sem que desconfiassem de nada.<\/p>\n<p>Mas estou me adiantando. Lembro que fui jogado na neve numa noite tenebrosa, usando minhas roupas de ver\u00e3o. Fora seq\u00fcestrado aqui na praia e rapidamente me encontrava no outro lado do mundo. Por que, o que acontecera? Na hora n\u00e3o atinava. S\u00f3 sei que imediatamente depois que me abandonaram na neve, para morrer, dei um pulo em dire\u00e7\u00e3o a uma sombra protuberante que se sobressa\u00eda do ch\u00e3o. Era o telhado de uma casa submersa. Rompi aos pontap\u00e9s a janelinha do s\u00f3t\u00e3o, que estava encostada no piso de neve, que subira at\u00e9 o teto. Logo que entrei procurei f\u00f3sforos para acender a lareira, mas a chamin\u00e9 estava entupida. Vesti umas roupas grosseiras e cheias de p\u00ealos que encontrei atiradas na sala e voltei para o lado de fora, a essa altura sofrendo de grave hipotermia. Com um ati\u00e7ador de lareira, rompi o gelo da chamin\u00e9 e desci novamente, tendo o cuidado de tapar a janelinha salvadora.<\/p>\n<p>Foi assim que consegui fazer fogo, comida logo em seguida, pois o que n\u00e3o faltava na dispensa da casa era carne congelada (de cavalo, de cervo, sei l\u00e1). O lugar dispunha de uma infra de luz el\u00e9trica, mas eu n\u00e3o soube ligar o gerador. Por isso passei no escuro uns dias at\u00e9 que caiu minha ficha de cavar ao lado de uma janela e assim poder ter alguma luz de fora, se \u00e9 que posso chamar de luz aquele ambiente acinzentado. Engra\u00e7ado, o ar russo, o clima, a cor daquelas paragens, me lembravam o cativeiro a que fora confinado na minha viagem da praia \u00e0s estepes congeladas.<\/p>\n<p>Pois foi isso que aconteceu: me seq\u00fcestraram com Gol e tudo e me colocaram dentro de um lugar amplo e branco-acinzentado. Uma esp\u00e9cie de espuma foi tomando conta de tudo, dos vidros fora do carro e agora dentro. Cheguei a provar aquela espuma gosmenta e me deu um barato parecido com o de morfina, que eu conhecia, pois um dia me operei e me ministraram uma \u00fanica e inesquec\u00edvel dose daquela droga bandida. Fiquei praticamente imobilizado com a espuma, apesar de ostentar a alegria imbecil e delirante dos drogados. Mas tive o cuidado, antes de me ralar, de abrir o porta-luvas, de l\u00e1 tatear uma caixinha de bandeides e colocar cinco no rosto: dois nos olhos, um no nariz e mais dois nos ouvidos. Assim, fui puxado para fora.<\/p>\n<p>As criaturas que me seq\u00fcestraram acharam, imagino , que os bandeides faziam parte de mim e nem deram bola para aquilo. Mas aos poucos se deram conta e come\u00e7aram a arrancar um por um. Eu ainda estava l\u00facido, pois n\u00e3o via, nem cheirava nem escutava nada, gra\u00e7as \u00e0s prote\u00e7\u00f5es que coloquei nos orif\u00edcios do rosto. Foi a\u00ed que vi aquela cabe\u00e7orra, parecida com a de formigas gigantes, com olhos oce\u00e2nicos olhando para mim. Os brutos imitaram o aspecto de formigas, pois quando chegaram por aqui acharam que essa esp\u00e9cie \u00e9 que dominava a terra. S\u00f3 depois descobririam que os humanos faziam todo o servi\u00e7o, mas a\u00ed j\u00e1 era tarde demais. Assumiram o aspecto hediondo, no lugar de clonar a Gisele B\u00fcnchen e o Tom Cruise.<\/p>\n<p>At\u00e9 foi bom assim, sen\u00e3o meu pesadelo seria uma esp\u00e9cie de blockbuster cientolog\u00edstico onde o gal\u00e3 comeria a bandida brasileira e a\u00ed sim seria um grande sofrimento. Como eu estava l\u00facido, resolvi aprontar. E comecei a dar pontap\u00e9s para tudo que \u00e9 lado, pois o efeito da espuma estava passando. At\u00e9 que acertei o gigante que me examinava. O cara deve ter ficado muito puto, pois saiu uma gosma preta da testarra dele. Sangue ou tinta, que sei eu. S\u00f3 sei que resolveram se livrar de mim e me jogaram na neve para me foder. Acreditavam que eu iria congelar para sempre, j\u00e1 que me pegaram na praia e eu usava apenas uma camiseta cavada, uma cal\u00e7a de tectel e um par de sand\u00e1lias havaianas. E eles nem tinham notado a casa semi-enterrada na neve. O lugar era ermo total.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que sobrevivi e deixei o inverno passar. Quando a casa ficou livre da neve, descobri que havia uma garagem ao lado. L\u00e1 dentro havia um portentoso carro amarel\u00e3o, deveria ser Lada, todo caro russo \u00e9 Lada. Eu n\u00e3o entendo nada de russo, desisti de ler os livros que ficavam espalhados por l\u00e1, n\u00e3o descobri nem o nome dos autores. Deveriam ser os de sempre: Puchkin, Gorki, Turguienev, Tolstoi, Tchecov. Mas eu era um analfabeto louco para voltar para casa. Logo atinei que jamais acreditariam em mim e por isso armei todo o esquema de me fantasiar de Vassili Illianovitch Serguienvski, que era o nome do sujeito que clonei.<\/p>\n<p>Como tinha encontrado v\u00e1rios ma\u00e7os de rublos na casa (seria o cara um traficante?) , fui pondo gasolina na longa viagem de volta, que fiz de carro at\u00e9 Moscou. L\u00e1, peguei o avi\u00e3o para o Rio de Janeiro e depois para c\u00e1. Decidi n\u00e3o contar nada a ningu\u00e9m. Aqui em casa, no in\u00edcio nem me reconheceram. Eu cheguei perguntando pelo samovar e quase me expulsaram. Aos poucos, me reacostumei ao caf\u00e9 e deixei essa besteira de samovar para l\u00e1. Mas os bandeides eu jamais esque\u00e7o. S\u00e3o meus talism\u00e3s. Sempre tenho uma caixa generosa no arm\u00e1rio. A toda hora, coloco um para ficar protegido. Eles um dia me salvaram. Poder\u00e3o me salvar de novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui obrigado a ficar na R\u00fassia por quatro meses, tempos atr\u00e1s, num frio que quase me matou. Foi numa regi\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 Sib\u00e9ria, dentro de uma casa abandonada. O dono, um sujeito ruivo retaco com dentes da frente separados (vi pelas fotos que deixou l\u00e1 num pacote escondido no fundo da gaveta do criado-mudo) devia ser algum caixeiro viajante que nunca estava em casa ou um aposentado que migrava na \u00e9poca do inverno para areias tropicais. Como fui parar l\u00e1? 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