{"id":575,"date":"2009-12-12T13:06:02","date_gmt":"2009-12-12T15:06:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=575"},"modified":"2009-12-21T23:31:09","modified_gmt":"2009-12-22T01:31:09","slug":"vira-em-cinco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/vira-em-cinco","title":{"rendered":"VIRA EM CINCO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Cal\u00e7ada e asfalto no ver\u00e3o eram o piso da fornalha da tarde. Nem mesmo embaixo do tufo de \u00e1rvores havia brisa, refresco, al\u00edvio para nossos corpos imobilizados pela sede. De olho no carrinho de picol\u00e9 que passaria ao longe, anunciado pela corneta salvadora, cont\u00e1vamos os minutos que faltavam para nossos compromissos, quando coloc\u00e1vamos \u00e0 prova a sola dos p\u00e9s, grossa de tanto jogar no terreno baldio, situado num declive acentuado. A natureza \u00edngreme do est\u00e1dio definia a natureza de nossas disputas.<\/p>\n<p>Como o tempo era infinito, a partida limitava-se pelo n\u00famero de gols e n\u00e3o pelas horas que pass\u00e1vamos ao ar livre, nos atormentando com caneladas e gritos. Cada jogo ia at\u00e9 dez e virava em cinco. Disputava-se no par ou \u00edmpar quem iria primeiro para a parte mais alta do terreno, pois, a cavaleiro, podia-se avan\u00e7ar sem muito esfor\u00e7o. Rapidamente, o time do andar superior alcan\u00e7ava o f\u00e1cil placar de cinco contra qualquer coisa, pois, dali, tiro de meta era quase um p\u00eanalti. Todo lance era facilitado pela lei da gravidade. Bastava ao advers\u00e1rio do escrete de cima se jogar para frente que j\u00e1 era meio gol.<\/p>\n<p>Mas, com a mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o, a vantagem virava-se contra o pr\u00f3prio vencedor do meio tempo. O jogo ent\u00e3o chegava ao empate terminal dos nove-a-nove, que transformava cada guri num guerreiro medieval, capaz de cortar o bra\u00e7o ou a perna de quem se aventurasse a ganhar a disputa. N\u00e3o era apenas o tempo reservado \u00e0 peleja que contava. Mas principalmente o que vinha depois, quando deposit\u00e1vamos nossa carca\u00e7a embaixo do umbu e as implic\u00e2ncias, sarros e provoca\u00e7\u00f5es atingiam o paroxismo. Os perdedores tinham gana de asfixiar os meliantes que se aproveitavam do resultado para exigir mandados, como ir buscar o picol\u00e9 no calor\u00e3o, por exemplo.<\/p>\n<p>Era uma opera\u00e7\u00e3o complicada. Queimava-se os p\u00e9s em dire\u00e7\u00e3o ao sorveteiro e era preciso trazer todas as encomendas numa velocidade que impedisse o derretimento da prenda. Isso costumava acontecer, provocando, a\u00ed sim, contendas realmente pavorosas, que arrancavam peda\u00e7os naquela pr\u00e9-adolesc\u00eancia feroz, quando \u00e9ramos apenas garotos e o mundo, como hoje, jamais se importava com a no\u00e7\u00e3o de eternidade que regulava nossas vidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como o tempo era infinito, a partida limitava-se pelo n\u00famero de gols e n\u00e3o pelas horas que pass\u00e1vamos ao ar livre, nos atormentando com caneladas e gritos. Cada jogo ia at\u00e9 dez e virava em cinco. Disputava-se no par ou \u00edmpar quem iria primeiro para a parte mais alta do terreno, pois, a cavaleiro, podia-se avan\u00e7ar sem muito esfor\u00e7o. Rapidamente, o time do andar superior alcan\u00e7ava o f\u00e1cil placar de cinco contra qualquer coisa, pois, dali, tiro de meta era quase um p\u00eanalti. Todo lance era facilitado pela lei da gravidade. 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