{"id":577,"date":"2009-12-12T13:06:53","date_gmt":"2009-12-12T15:06:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=577"},"modified":"2009-12-21T23:27:44","modified_gmt":"2009-12-22T01:27:44","slug":"umberto-d-adeus-ao-tempo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/umberto-d-adeus-ao-tempo","title":{"rendered":"UMBERTO D.: ADEUS AO TEMPO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Vittorio de Sica \u00e9 o diretor imprescind\u00edvel que nos legou v\u00e1rias obras-primas. Uma delas \u00e9 Umberto D. (1952), o celebrado filme sobre um aposentado em Roma e seu c\u00e3o. Ele enfrenta a ferocidade da sua senhoria, que quer expuls\u00e1-lo do quarto de pens\u00e3o que ocupa h\u00e1 vinte anos, e \u00e9 apoiado pela empregada gr\u00e1vida que tem d\u00favidas, entre dois soldados, sobre quem \u00e9 o pai da crian\u00e7a. Atores amadores, como Carlo Battisti, que faz o papel principal, e loca\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas de uma Roma decadente e po\u00e9tica, nos levam para uma intensa, lenta, dilacerada dimens\u00e3o onde se destaca a despedida n\u00e3o apenas de uma \u00e9poca, mas do Tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 revelador o momento em que Umberto coloca o rel\u00f3gio despertador embaixo das cobertas para lhe fazer companhia. Ele estava com gripe, se encontrava numa situa\u00e7\u00e3o complicada, mas quem sofria de doen\u00e7a terminal era o Tempo. O mundo jogava fora os velhos que lutaram por ele e no seu lugar colocava o Eterno Presente, a juventude irrespons\u00e1vel e superficial, a indiferen\u00e7a ol\u00edmpica dos antigos companheiros, o desprezo coletivo no lugar da solidariedade e do amor. N\u00e3o h\u00e1 lugar para o velho e seu afeto representado pelo c\u00e3o. E n\u00e3o h\u00e1 mais tempo para sobreviver.<\/p>\n<p>Para conseguir honrar seu compromisso na pens\u00e3o, onde acumulou d\u00edvidas por for\u00e7a de uma aposentaria escassa, Umberto se livra do rel\u00f3gio de bolso, rel\u00edquia que guardava como um talism\u00e3 e que significava sua posi\u00e7\u00e3o est\u00e1vel, sua liga\u00e7\u00e3o com o mundo produtivo, quando precisava ver as horas para trabalhar ou sair do escrit\u00f3rio. Ele torra o rel\u00f3gio, d\u00e1 adeus ao Tempo que o embalou por toda a vida, mas o dinheiro n\u00e3o \u00e9 suficiente. A dona da pens\u00e3o, uma coquete salafra que faz reuni\u00f5es cantantes atormentando os h\u00f3spedes na hora de dormir, quer o pagamento total da d\u00edvida. Era apenas uma desculpa para expuls\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Fora de sintonia em todos os estamentos sociais, tanto em rela\u00e7\u00e3o aos ex-colegas quanto da humanidade ao redor, o velho tenta ganhar tempo passando um per\u00edodo numa gigantesca enfermaria p\u00fablica, ambiente de pesadelo que ele enxerga como sua salva\u00e7\u00e3o passageira. Tentava assim economizar na pens\u00e3o para poder continuar nela, pois os dias em que estava internado n\u00e3o contavam no aluguel. Inclusive a dona alugava o quarto para encontros amorosos. Mas em v\u00e3o. Ele acaba indo mesmo para a rua, viver sua situa\u00e7\u00e3o limite. Leva com ele algumas roupas, nenhum rel\u00f3gio e o cachorro.<\/p>\n<p>\u00c9 salvo pela quebra de confian\u00e7a que produz no seu companheiro fiel, ao tentar um suic\u00eddio duplo na ferrovia. Os dois escapam, mas Flicke (esse \u00e9 o nome do c\u00e3o) agora foge dele. O esfor\u00e7o que faz para recuperar o amor perdido acaba trazendo de volta a alegria e a esperan\u00e7a. Na cidades dos grandes espa\u00e7os carcomidos e vazios, onde as pessoas cumprem seus afazeres rotineiros, onde n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para a comunh\u00e3o coletiva, onde todos est\u00e3o apartados de todos, a liga\u00e7\u00e3o amoroso de um velho com um cachorro encerra uma li\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso recuperar o tempo jogado fora, n\u00e3o desesperar, insistir, mesmo que tudo pare\u00e7a conspirar contra.<\/p>\n<p>Eis a obra-prima de Vittorio de Sica, que conheci primeiro como ator, fazendo ador\u00e1veis bobagens e interpretando pap\u00e9is histri\u00f4nicos de juiz, advogado, pilantra. Um talento fant\u00e1stico, que ao dirigir Ladr\u00f5es de Bicicleta ou Duas Mulheres deslumbrou a todos. Grande Vittorio de Sica, que desafia o tempo com suas li\u00e7\u00f5es de Mestre do cinema. Vamos ver, rever seus filmes e redescobrir a S\u00e9tima Arte, essa maravilha da ind\u00fastria pautada pelo g\u00eanio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na obra-prima de Vitorio de Sica, \u00e9 revelador o momento em que Umberto coloca o rel\u00f3gio despertador embaixo das cobertas para lhe fazer companhia. Ele estava com gripe, se encontrava numa situa\u00e7\u00e3o complicada, mas quem sofria de doen\u00e7a terminal era o Tempo. O mundo jogava fora os velhos que lutaram por ele e no seu lugar colocava o Eterno Presente, a juventude irrespons\u00e1vel e superficial, a indiferen\u00e7a ol\u00edmpica dos antigos companheiros, o desprezo coletivo no lugar da solidariedade e do amor. N\u00e3o h\u00e1 lugar para o velho e seu afeto representado pelo c\u00e3o. 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