{"id":581,"date":"2009-12-12T13:09:20","date_gmt":"2009-12-12T15:09:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=581"},"modified":"2010-10-20T19:12:06","modified_gmt":"2010-10-20T21:12:06","slug":"o-amor-no-cinema-em-ernst-lubistch","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-amor-no-cinema-em-ernst-lubistch","title":{"rendered":"O AMOR NO CINEMA, EM ERNST LUBITSCH"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A Loja da Esquina (<strong><em>Shop around the corner<\/em><\/strong>, 1940), do alem\u00e3o que migrou para a Am\u00e9rica, <em>Ernst Lubitsch<\/em>, \u00e9 a m\u00e3e de todas as com\u00e9dias rom\u00e2nticas, g\u00eanero que substitui o romantismo liter\u00e1rio do s\u00e9culo 19 pelo realismo amoroso poss\u00edvel em tempos de guerra, de capitalismo ascendente, e tamb\u00e9m em crise, na ci\u00eancia, no com\u00e9rcio e na ind\u00fastria. \u00c9 tanta coisa embutida num \u00fanico filme, sem d\u00favida um dos dez mais da hist\u00f3ria do cinema, que precisamos elencar em itens tudo o que ele nos traz, numa performance invej\u00e1vel para uma obra que vai fazer 70 anos em 2010.<\/p>\n<p>O IDEALISMO CEGA \u2013 Os dois apaixonados, caixeiros de uma loja de badulaques de falso luxo para a classe m\u00e9dia metida a aristocrata, centram seus sentimentos em criaturas ideais que eles mesmo forjaram em cartas an\u00f4nimas. A correspond\u00eancia se desenvolve sem que nenhum saiba quem \u00e9 o outro. Enquanto se odeiam nas rotinas da loja, se amam na proje\u00e7\u00e3o idealista de um rela\u00e7\u00e3o que promete acabar com a solid\u00e3o. Mas a trama, naturalmente, leva \u00e0 revela\u00e7\u00e3o de que o verdadeiro amor existia \u00e0 revelia das mentiras que inventavam para impressionar o outro. A cena final, em que James Stewart, esse ator imprescind\u00edvel, levanta a barra das cal\u00e7as para mostrar, a pedido da amada (interpretada por Margaret Sullavan) os gambitos envoltos em meias, para provar que as pernas n\u00e3o eram tortas, \u00e9 um dos momentos altos do cinema.<\/p>\n<p>AS APAR\u00caNCIAS MATAM \u2013 O dono da loja, interpretado por Frank Morgan (que fez o papel de M\u00e1gico de Oz no cl\u00e1ssico de 1939), acha que est\u00e1 sendo tra\u00eddo pelo seu gerente, mas se enganou. O erro lhe custou caro. Ao descobrir que a mulher o enganava com outro funcion\u00e1rio, tenta o suic\u00eddio. A mo\u00e7a da correspond\u00eancia, ao achar que o amado ideal n\u00e3o tinha comparecido ao encontro, acaba ficando sozinha depois de expulsar seu verdadeiro pretendente, que n\u00e3o se identificou como sendo o autor das cartas. Em conseq\u00fc\u00eancia, ela entra em depress\u00e3o profunda e quase morre. A cigarreira que toca m\u00fasica, vistosa e bonita, que parece ao patr\u00e3o um bom produto para venda, \u00e9 visto pelo gerente como um tiro na \u00e1gua. O mimo acaba se transformando num encalhe da loja e num vetor dos conflitos dentro dela.<\/p>\n<p>O TRABALHO \u00c9 DIGNO &#8211; O filme n\u00e3o esconde os problemas de um ambiente profissional, lugar de muita crueldade, de empurr\u00f5es, fofocas, vilezas, vingan\u00e7as, cobi\u00e7a, puxa-saquismo. Mesmo assim, nada existe de mais humano e encantador do que esta loja que se recupera financeiramente na v\u00e9spera de Natal, quando sai da fal\u00eancia gra\u00e7as \u00e0 determina\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios, que precisam provar que s\u00e3o bons profissionais e retribuir ao dono os empregos que ele mant\u00eam em \u00e9poca de depress\u00e3o. N\u00e3o se trata de uma babaquice. \u00c9 a vida poss\u00edvel de pessoas comuns que transcendem suas limita\u00e7\u00f5es no \u00e1rduo caminho da sobreviv\u00eancia, fazendo da loja uma casa, dos colegas uma fam\u00edlia, procurando adaptar a vida pessoal \u00e0 avassaladora presen\u00e7a do balc\u00e3o e do caixa. H\u00e1 dignidade e at\u00e9 hero\u00edsmo numa vida limitada. \u00c9 o fim dos arroubos de capa e espada. E tudo isso com apenas um s\u00f3 tiro deflagrado, que erra o alvo e atinge o lustre.<\/p>\n<p>OS ESCRITORES S\u00c3O FUNDAMENTAIS \u2013 A pe\u00e7a do h\u00fangaro Mikl\u00f3s L\u00e1szl\u00f3 virou um roteiro magn\u00edfico nas m\u00e3os do competente Samson Raphaelson, autor tamb\u00e9m da pe\u00e7a que originou o primeiro filme falado, The Jazz Singer, e que trabalhou tamb\u00e9m com Alfred Hitchcok. Tudo funciona, numa intensidade crescente, em que nenhum minuto \u00e9 jogado fora. O diretor Lubistch consegue a fa\u00e7anha de transformar os di\u00e1logos confinados a lugares fechados numa seq\u00fc\u00eancia de planos no claro-escuro, de interpreta\u00e7\u00f5es seguras e algumas geniais, como a do office-boy por William Tracy. \u201cSou o contato da loja\u201d, diz ele para o m\u00e9dico. \u201cFa\u00e7o entregas de bicicleta\u201d. Mas voc\u00ea \u00e9 o mensageiro! replica o doutor. \u201cEi, n\u00e3o chamei voc\u00ea de a\u00e7ougueiro, chamei?\u201d. H\u00e1 ainda personagens presentes e fortes que jamais s\u00e3o mostrados, como a esposa traidora do dono e a esposa ciumenta de um dos funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito mais o que dizer sobre este filme que deve ser visto todos os anos, obrigatoriamente, por todos. Ele nos civiliza, nos encanta, nos seduz, nos faz chorar com coisas que parecem quase nada. Podemos ver como o \u00f3dio se transforma em amor, como a brutalidade das rela\u00e7\u00f5es vira um grande abra\u00e7o, como uma festa vazia se enche de comunh\u00e3o, como o desespero encontra consolo, como a solid\u00e3o inventa uma sa\u00edda, como a desesperan\u00e7a pode ser colocada de lado e no seu lugar brilhar a fa\u00edsca de um cora\u00e7\u00e3o que pulsa. Seja rom\u00e2ntico, com Ernst Lubitsch. O cara que, ao ser enterrado, dele disseram dois grandes cineastas, Billy Wilder e George Cukor (se n\u00e3o me engano). &#8220;Nunca mais Ernst Lubitsch&#8221;, disse um deles. &#8220;Pior&#8221;, respondeu o outro. &#8220;Nunca mais filmes de Ernst Lubitsch&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Loja da Esquina (Shop around the corner, 1940), do alem\u00e3o que migrou para a Am\u00e9rica, Ernst Lubistch, \u00e9 a m\u00e3e de todas as com\u00e9dias rom\u00e2nticas, g\u00eanero que substitui o romantismo liter\u00e1rio do s\u00e9culo 19 pelo realismo amoroso poss\u00edvel em tempos de guerra, de capitalismo ascendente, e tamb\u00e9m em crise, na ci\u00eancia, no com\u00e9rcio e na ind\u00fastria. \u00c9 um filme que nos civiliza, nos encanta, nos seduz, nos faz chorar com coisas que parecem quase nada. Podemos ver como o \u00f3dio se transforma em amor, como a brutalidade das rela\u00e7\u00f5es vira um grande abra\u00e7o, como uma festa vazia se enche de comunh\u00e3o, como o desespero encontra consolo, como a solid\u00e3o inventa uma sa\u00edda, como a desesperan\u00e7a pode ser colocada de lado e no seu lugar brilhar a fa\u00edsca de um cora\u00e7\u00e3o que pulsa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=581"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2353,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/581\/revisions\/2353"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}