{"id":589,"date":"2009-12-12T13:45:01","date_gmt":"2009-12-12T15:45:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=589"},"modified":"2009-12-21T23:34:46","modified_gmt":"2009-12-22T01:34:46","slug":"especialistas-em-nao-saber","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/especialistas-em-nao-saber","title":{"rendered":"ESPECIALISTAS EM N\u00c3O SABER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA especialidade do jornalista \u00e9 o pr\u00f3prio jornalismo, e n\u00e3o pol\u00edtica, economia, cultura, esporte. \u00c9 um profissional especializado em n\u00e3o saber, por isso vive das perguntas que faz e das respostas que obt\u00e9m e veicula por meio de um texto, de uma fala pr\u00f3pria, composta pelo pr\u00f3prio jornalista em pleno exerc\u00edcio de sua profiss\u00e3o em regime de liberdade. Ou seja, contraria frontalmente a cultura conservadora de que as pessoas nascem sabendo, ou adquirem sapi\u00eancia por meio de um diploma universit\u00e1rio. A universidade, qualquer uma de qualquer \u00e1rea, ensina a aprender. N\u00e3o deposita no estu\u00e1rio privilegiado da mente estudantil a sapi\u00eancia a ser distribu\u00edda como man\u00e1 ao gentio. Simplesmente lhe repassa os instrumentos para que procure saber. Assim \u00e9 no jornalismo.<\/p>\n<p>M\u00e9dico pediatra dos meus filhos, o g\u00eanio da homeopatia Mario Sposati estudava na nossa frente cada caso apresentado. Ele pegava os livr\u00f5es que tinha na estante, abria e ficava lendo. N\u00e3o s\u00f3 lia, como refletia. Isso depois de examinar o paciente demoradamente e perguntar aos implicados \u2013 pais e o doente \u2013 tudo o que precisava saber sobre h\u00e1bitos, alimenta\u00e7\u00e3o, hist\u00f3rico familiar da doen\u00e7a etc. Queria saber dos av\u00f3s, dos tios. \u00c9 assim que se comporta um profissional de verdade. N\u00e3o \u00e9 como muitos m\u00e9dicos que tem t\u00edtulo de doutor para colocar diploma na parede e receitar antibi\u00f3tico.<\/p>\n<p>Um jornalista n\u00e3o pode, da mesma forma, apenas sacudir a cabe\u00e7a em frente ao interlocutor, como se este estivesse confirmando tudo o que ele, o jornalista sabich\u00e3o, j\u00e1 sabia de antem\u00e3o. Pois saber desde o ber\u00e7o \u00e9 coisa de coronel de sert\u00e3o. Esse sabe tudo e d\u00e1 ordens da varanda. Tirar diploma \u00e9 s\u00f3 por uma quest\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o familiar, pois nem precisava tanto. Bastava nascer na Casa Grande para pontificar sobre a senzala. Muito jornalista \u00e9 assim: sabe onde bicho pega antes de fazer perguntas. Pois perguntar \u00e9 humilhante: revela que ele nada sabe.<\/p>\n<p>Pode-se contra-argumentar: mas com o tempo, ou por meio de cursos, o jornalista n\u00e3o adquire conhecimento suficiente sobre o tema que aborda, transformando-o num profissional de comunica\u00e7\u00e3o especializado naquela \u00e1rea? \u00c9 o que acontece hoje: jornalistas colocados em nichos. Isso deforma a profiss\u00e3o. Por mais que entenda do assunto, o jornalista vai sempre depender das fontes. Um rep\u00f3rter s\u00f3 pode se especializar sobre seu pr\u00f3prio of\u00edcio. Ou ent\u00e3o, muda de profiss\u00e3o. Por sua vez, um historiador ou economista pode ser um bom jornalista. Na hora em que exercer o jornalismo, ser\u00e1 apenas rep\u00f3rter ou editor (ter\u00e1 que veicular crit\u00e9rios opostos aos que abra\u00e7a no seu nicho de origem), jamais um economista ou historiador. Isso ele s\u00f3 ser\u00e1 exercendo sua profiss\u00e3o e n\u00e3o sendo jornalista.<\/p>\n<p>Por que insisto neste tema, t\u00e3o abordado aqui no Di\u00e1rio da Fonte? Porque noto que um dos pilares do jornalismo, a pauta, est\u00e1 desaparecendo. As mat\u00e9rias j\u00e1 vem prontas nos releases ou nas recomenda\u00e7\u00f5es do patronato e seus clientes. Uma pauta cont\u00e9m a ess\u00eancia da profiss\u00e3o: l\u00e1 est\u00e3o as perguntas! Uma pauta n\u00e3o \u00e9, como soube de muita revista semanal importante, aquilo que o editor diz para o sub-editor \u00e0s onze da noite: \u201cTelefona para o ministro e confirma o que foi comentado sobre tal assunto. Ele vai te dizer isso e vais replicar aquilo. A\u00ed escreves o seguinte\u201d. Muita \u201cpauta\u201d j\u00e1 \u00e9 a mat\u00e9ria, o rep\u00f3rter \u00e9 apenas o office-boy, o mandalhete de interesses maiores, de falas impositivas.<\/p>\n<p>Uma pauta bem feita permite que o rep\u00f3rter saia a campo para fazer as perguntas necess\u00e1rias . O que ele vai colher com isso \u00e9 surpresa, \u00e9 a ma\u00e7aroca de dados que depois vai compor numa teia, num tecido da linguagem, o texto. Quem escreve profissionalmente precisa de m\u00e9todos e de conhecimento do m\u00e9tier, ou seja, saber como construir uma frase, como fazer uma abertura que comece esclarecendo sem cair no ramerr\u00e3o de amontoar jarg\u00f5es e muletinhas. E n\u00e3o, como muitos fazem, fingir que s\u00e3o a pr\u00f3pria fonte (o editor de economia tem pose de presidente do Fed, o de pol\u00edtica \u00e9 um senador vital\u00edcio, o de cultura s\u00f3 falta ganhar o Nobel, o de esportes faria todos os gols perdidos). Ou, como todo rep\u00f3rter de TV hoje, clonar a fonte provando tudo o que v\u00ea (&#8220;hum, est\u00e1 muito bom&#8221;), descendo cachoeira com cordas suspeitas ou abanando sorridente da asa delta para as c\u00e2maras, enquanto o personal trainer encocha por tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Por isso nos parece que a profiss\u00e3o de jornalista est\u00e1 extinta. No seu lugar colocaram os chamados gerenciadores de conte\u00fado, ou seja, os malabaristas das frases feitas, das id\u00e9ias prontas, das den\u00fancias consolidadas, das express\u00f5es da moda, das conclus\u00f5es compartilhadas. Sem falar no jornalismo chapa branca, que em alguns lugares atinge o status de fundamentalismo, comparando pol\u00edticos (os que pagam as despesas geradas pela falta de jornalismo) a divindades.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 perigo de melhorar. O que significa, por exemplo, um MBA de jornalismo investigativo? Pode ser coisa boa, n\u00e3o sei. Mas se colocaram esse vetor b\u00e1sico da profiss\u00e3o, a investiga\u00e7\u00e3o do rep\u00f3rter, como um curso \u00e0 parte, \u00e9 que esse n\u00facleo, essa ess\u00eancia, est\u00e1 apartado das rotinas jornal\u00edsticas de hoje. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, pois prescinde do jornalista. Tem gente adoidado desempregada exatamente porque h\u00e1 esse consenso de que o jornalismo \u00e9 desnecess\u00e1rio, o que vale \u00e9 o atendimento preferencial ao cliente, ou seja, achar que o povo gosta mesmo \u00e9 de BBB, esse ro\u00e7ar bandido, e da Suzana Vieira dando a volta por cima.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata aqui de defender diploma para a profiss\u00e3o ou de garantir reserva de mercado, me incluam fora disso. Mas sim de aproveitar o que temos de melhor, rep\u00f3rteres bem formados, com um hist\u00f3rico razo\u00e1vel, ou talentos emergentes loucos para cumprirem seus destinos. E n\u00e3o de desperdi\u00e7\u00e1-los, desmoraliz\u00e1-los, enquadr\u00e1-los ou empurr\u00e1-los para o telemarketing. Pois para isso temos ditadura: para transformar todo mundo em gerundista e passeador de cachorro. Basta, porra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A especialidade do jornalista \u00e9 o pr\u00f3prio jornalismo, e n\u00e3o pol\u00edtica, economia, cultura, esporte. \u00c9 um profissional especializado em n\u00e3o saber, por isso vive das perguntas que faz e das respostas que obt\u00e9m e veicula por meio de um texto, de uma fala pr\u00f3pria, composta pelo pr\u00f3prio jornalista em pleno exerc\u00edcio de sua profiss\u00e3o em regime de liberdade. Ou seja, contraria frontalmente a cultura conservadora de que as pessoas nascem sabendo, ou adquirem sapi\u00eancia por meio de um diploma universit\u00e1rio. A universidade, qualquer uma de qualquer \u00e1rea, ensina a aprender. N\u00e3o deposita no estu\u00e1rio privilegiado da mente estudantil a sapi\u00eancia a ser distribu\u00edda como man\u00e1 ao gentio. Simplesmente lhe repassa os instrumentos para que procure saber. Assim \u00e9 no jornalismo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/589"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=589"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/589\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":591,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/589\/revisions\/591"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}