{"id":596,"date":"2009-12-12T13:51:14","date_gmt":"2009-12-12T15:51:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=596"},"modified":"2010-08-27T15:40:48","modified_gmt":"2010-08-27T18:40:48","slug":"hiroshima-o-amor-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/hiroshima-o-amor-da-memoria","title":{"rendered":"HIROSHIMA, O AMOR DA MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O amor pode perdoar sem esquecer, nos diz o diretor Alain Resnais e a roteirista Marguerite Duras no filme fundamental de 1959, <strong>Hiroshima, mon amour<\/strong>. \u00c9, como todos, um filme sobre cinema: a mulher francesa participa de um document\u00e1rio sobre a necessidade da paz depois da hecatombe nuclear, mas ela mesma \u00e9 a protagonista do filme que estamos vendo, e que vai mais fundo do que os falsos apelos pacifistas, j\u00e1 que joga pesado com a necessidade real de conv\u00edvio depois do massacre e a \u00fanica sa\u00edda para isso \u00e9 resgatar o amor perdido e abrir-se para uma nova rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela precisa ficar em dia com uma d\u00edvida com o passado. Tinha soterrado na mem\u00f3ria o epis\u00f3dio em que amou um soldado alem\u00e3o na Segunda Guerra, em plena Fran\u00e7a ocupada e por isso foi punida com o encarceramento e a loucura. Por ter essa ferida aberta dentro de si, tornou-se incapaz de amar. O encontro com um arquiteto japon\u00eas, que tem tudo para ser um momento descart\u00e1vel de sexo, se transforma numa sess\u00e3o psicanal\u00edtica, em que o amante\/doutor encarna o personagem assassinado, o soldado alem\u00e3o, e faz com que ela recupere cada instante do desejo que enfrentou barreiras e preconceitos e jogou-a na condena\u00e7\u00e3o por parte dos seus conterr\u00e2neos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode falar em paz se existe retalia\u00e7\u00e3o. Todo apelo para o fim das guerras e conflitos cai no vazio se o \u00f3dio continua comandando o espet\u00e1culo depois do cessar fogo. Nevers, a cidade onde aconteceu o amor proibido entre a francesa e o soldado alem\u00e3o, \u00e9 como a m\u00edtica Paris, Texas, de Wim Wenders, o lugar terminal de uma peregrina\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 auto-descoberta. Algo existe l\u00e1, pulsando e que est\u00e1 oculto e confuso, pois o tempo, o medo e o sofrimento cuidaram para colocar uma nebulosa em cima. O sofredor, a v\u00edtima procura o caminho de reconcilia\u00e7\u00e3o com essa presen\u00e7a perdida e para isso conta com a ajuda de quem o cerca. No caso da personagem de Resnais, ela tem no amante japon\u00eas o guia em dire\u00e7\u00e3o a esse vulc\u00e3o de dor e ressentimento.<\/p>\n<p>Quando a mem\u00f3ria \u00e9 capaz de amar, ou seja, quando recuperamos o amor perdido, por mais sofrimento que ele tenha desencadeado, estaremos prontos para uma reconcilia\u00e7\u00e3o com os sentimentos. N\u00e3o viveremos em paz se n\u00e3o existir esse amor recuperado, esse mergulho no tempo sofrido e a coragem de assumir a chance que se apresenta mais uma vez. No filme, o casal roda por Hiroshima, pois n\u00e3o est\u00e3o certos de que ficar juntos seria a melhor solu\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, n\u00e3o conseguem se desgrudar um do outro, como se houvesse uma miss\u00e3o a cumprir, como se trair novamente aquela oportunidade de amar fosse a real trag\u00e9dia humana. Podem cair mil bombas sobre todas as cidades do mundo que nem tudo estar\u00e1 perdido se houver condi\u00e7\u00e3o de duas pessoas se amarem.<\/p>\n<p>Eis o cinema que civiliza, humaniza, torna o cora\u00e7\u00e3o humano um lugar habit\u00e1vel. Da mesma forma que Nevers, o filme Hiroshima mon amour tamb\u00e9m sofre com o esquecimento. Se vimos h\u00e1 tempos, se nem vimos ou se vemos e n\u00e3o entendemos o que significa, ent\u00e3o \u00e9 porque Hiroshima, o amor proibido da mem\u00f3ria continua l\u00e1, enterrado. Precisamos traz\u00ea-lo \u00e0 tona novamente. E mostrar como pode existir um cinema que est\u00e1 \u00e0 altura das maiores obras da literatura, um filme que justifica a exist\u00eancia da S\u00e9tima Arte como manifesta\u00e7\u00e3o suprema do talento humano.<\/p>\n<p>Cruzamos a madrugada insone e o sol est\u00e1 alto, e n\u00e3o sabemos se embarcamos numa viagem sem volta para esquecer tudo ou ficamos em Hiroshima, nosso amor. Vamos permanecer aqui, nessa dor que continua intensa, nessa paix\u00e3o que renasce, nesse lugar feito para o abra\u00e7o, o encontro, o cora\u00e7\u00e3o capaz de superar qualquer viol\u00eancia. \u00c9 nossa \u00fanica salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amor pode perdoar sem esquecer, nos diz o diretor Alain Resnais e a roteirista Marguerite Duras no filme fundamental de 1959, Hiroshima, mon amour. \u00c9, como todos, um filme sobre cinema: a mulher francesa participa de um document\u00e1rio sobre a necessidade da paz depois da hecatombe nuclear, mas ela mesma \u00e9 a protagonista do filme que estamos vendo, e que vai mais fundo do que os falsos apelos pacifistas, j\u00e1 que joga pesado com a necessidade real de conv\u00edvio depois do massacre e a \u00fanica sa\u00edda para isso \u00e9 resgatar o amor perdido e abrir-se para uma nova rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/596"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=596"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/596\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2254,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/596\/revisions\/2254"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}