{"id":598,"date":"2009-12-12T13:52:13","date_gmt":"2009-12-12T15:52:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=598"},"modified":"2009-12-21T23:32:23","modified_gmt":"2009-12-22T01:32:23","slug":"primeiros-passaros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/primeiros-passaros","title":{"rendered":"PRIMEIROS P\u00c1SSAROS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Desconhe\u00e7o os p\u00e1ssaros de penas amarelas que flagro \u00e0s vezes entre a mesmice das esp\u00e9cies voadoras urbanas. Talvez sejam sobreviventes de velhos massacres, da \u00e9poca em que o Brasil decidiu importar pardais numa s\u00fabita saudade da distante Paris. Ou ent\u00e3o fruto de cruzamento das aves advent\u00edcias com os exemplares resistentes da nossa fauna. Eles convivem, an\u00f4nimos, com outros, de papel passado, como o bem-te-vi, t\u00e3o disseminado quanto o quero-quero, que agora n\u00e3o \u00e9 mais exclusivo do pampa.<\/p>\n<p>No meu quintal, debru\u00e7am-se algumas surpresas, como raras rolinhas que fogem em bando ao primeiro sinal da porta. Ou as corru\u00edras, de alarido insistente, lisas nos seus movimentos de eterna fuga por entre a escassa ramagem. \u00c0 espreita, gavi\u00f5es improvisam tocaias em cima de telhados rec\u00e9m constru\u00eddos. E \u00e0 dist\u00e2ncia, mas n\u00e3o muito, o rodopio dos urubus, a sinalizar as presas.<\/p>\n<p>Lembro dos bandos em forma\u00e7\u00e3o que coroavam a fronteira em determinadas \u00e9pocas. Fugiam para mais ao sul, e \u00e0s vezes voltavam rumo aos cerrados, matas atl\u00e2nticas, chacos. Sempre invoquei com a compet\u00eancia da migra\u00e7\u00e3o coletiva, a que chamam instinto, mas que \u00e9 pura sabedoria. Os p\u00e1ssaros pensam, como os outros bichos. Chegaram \u00e0 excel\u00eancia da viagem por meio de tentativa e erro, como o resto de n\u00f3s. Quantas n\u00e3o sucumbiram nas improvisa\u00e7\u00f5es e nos rumos errados? As criaturas possuem esse dom de achar o caminho, nem que levem a eternidade para conseguir.<\/p>\n<p>Por isso, quando vemos as coesas esquadrilhas de patos em dire\u00e7\u00e3o ao ver\u00e3o, ou a desfa\u00e7atez dos esp\u00e9cimes saltimbancos, devemos atentar para essa evid\u00eancia: a de que as aves trafegam e aprendem enquanto se movimentam. Se fixarmos o olhar, deixando-o ao mesmo tempo solto, \u00e0 merc\u00ea dos pulos, bater de asas, pios e olhares r\u00e1pidos em cabe\u00e7as ariscas, saberemos um pouco do que se trata e o que essa presen\u00e7a significa.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros est\u00e3o conectados aos sonhos, premoni\u00e7\u00f5es, encantamentos. H\u00e1 sempre um corvo sobre um caldeir\u00e3o fervente da feiticeira. Um papagaio no ombro do pirata. Andorinhas que conduzem o vestido de Cinderela. Gansos em investidas contra a vilania. Corujas atentas aos mist\u00e9rios do escuro. Penas em sortil\u00e9gios, pombas ao redor de sinos, revoadas em coreografias perfeitas sobre os cardumes, mergulhos em linha reta fisgando escamas indefesas. Os p\u00e1ssaros anunciam n\u00e3o apenas os movimentos definitivos do sol, quando raia o dia ou quando se recolhe no crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>A \u00e1rvore carregada de sons nos traz a not\u00edcia ainda oculta, os sinais evidentes de um acontecimento poderoso. Talvez seja o amor que acene numa algazarra na \u00e1gua, na brincadeira barulhenta na ramaria das margens. Talvez o solit\u00e1rio filhote que escapou do ninho e pousa, ressabiado, no poste, seja aquela visita t\u00e3o esperada que est\u00e1 pronta para tocar o telefone.<\/p>\n<p>Os primeiros p\u00e1ssaros, anunciadores, t\u00eam a for\u00e7a das vit\u00f3rias fecundas, as que nem saem destacadas em jornais ou blogs. Fazem parte do curr\u00edculo da vida e nos ajudam a sobreviver, do mesmo modo que um gr\u00e3o, um miolo de p\u00e3o, uma flor carregados at\u00e9 o ninho, nossa mem\u00f3ria. A crian\u00e7a que inaugura o andar sob a tutela dos adultos e \u00e9 aplaudida quando, cruzando as pernas, consegue cumprir seu primeiro grande objetivo; a v\u00edtima de acidente que encontra for\u00e7as para recuperar os movimentos com o apoio da medicina e dos la\u00e7os familiares; o estudante que entra pela primeira vez no Terceiro Grau ainda sob o efeito do mergulho insano para vencer o vestibular; o filho pr\u00f3digo que enfim se decide e volta para abra\u00e7ar os pais; o casal de aposentados que consegue fazer sua primeira viagem internacional; o devoto que se concentra antes da longa caminhada at\u00e9 o altar santo: todos esses primeiros passos s\u00e3o sagrados e transcendem a data em que s\u00e3o realizados. S\u00e3o vit\u00f3rias pessoais de criaturas limitadas, que ultrapassam a fronteira do sonho e impregnam a realidade de grandeza. S\u00e3o gestos acima do normal, degraus para uma vis\u00e3o mais ampla do que chamamos vida, esse mist\u00e9rio que nos convoca e que pode nos abandonar de uma hora para outra.<\/p>\n<p>Passos, p\u00e1ssaros: a linguagem aproxima o que parece disperso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desconhe\u00e7o os p\u00e1ssaros de penas amarelas que flagro \u00e0s vezes entre a mesmice das esp\u00e9cies voadoras urbanas. Talvez sejam sobreviventes de velhos massacres, da \u00e9poca em que o Brasil decidiu importar pardais numa s\u00fabita saudade da distante Paris. Ou ent\u00e3o fruto de cruzamento das aves advent\u00edcias com os exemplares resistentes da nossa fauna. Eles convivem, an\u00f4nimos, com outros, de papel passado, como o bem-te-vi, t\u00e3o disseminado quanto o quero-quero, que agora n\u00e3o \u00e9 mais exclusivo do pampa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/598"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=598"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/598\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1812,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/598\/revisions\/1812"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}