{"id":603,"date":"2009-12-12T14:05:17","date_gmt":"2009-12-12T16:05:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=603"},"modified":"2009-12-21T23:32:02","modified_gmt":"2009-12-22T01:32:02","slug":"o-elevador-no-abismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-elevador-no-abismo","title":{"rendered":"O ELEVADOR NO ABISMO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 no soneto, mais de duzentos, do seu novo livro, <em><strong>Daguerre\u00f3tipos<\/strong><\/em> (Escrituras, 222 p\u00e1ginas) que se situa a poesia de Marcus Accioly. Nem nos seus personagens malditos, de Lennon a Homero, de Maiak\u00f3vsky a Sylvia Plath, de Souza Cruz a Keats, que povoam esta obra, assustadora em todos os sentidos. Nem mesmo no Mal e na Dor, destino manifesto do g\u00eanio, segundo a sucess\u00e3o de suic\u00eddios, enforcamentos, cortes, sangue e morte que impregnam os poemas. Tampouco na erudi\u00e7\u00e3o, admir\u00e1vel, do poeta que dialoga em versos com os grande autores e no posf\u00e1cio explica as fontes do seu ambicioso livro, citando os Mestres da linguagem, de Santo Agostinho a John Milton.<\/p>\n<p>Sua poesia usa todas essas m\u00e1scaras n\u00e3o para se esconder, mas porque o desespero de toda poesia \u00e9 utilizar os instrumentos mais eficazes para se revelar. O excesso da dose aponta para o disfarce. Marcus Accioly procura contrapor seu vasto conhecimento \u00e0s camisas de for\u00e7a de sua biografia, a de poeta pernambucano da gera\u00e7\u00e3o de 65 saudado pelos maiores escritores da l\u00edngua. \u201cDagueorr\u00f3tipos\u201d prescinde do estro, do c\u00e2none, mesmo que dele se alimente. Usa o soneto como andaime para um edif\u00edcio sem utilidade, id\u00eantica \u00e0 estrutura absurda do filme Oito e Meio, em que um Mastroiani\/Fellini fugia das perguntas enquanto distra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o geral com uma torre que enfim n\u00e3o servia para nada.<\/p>\n<p>A poesia de Accioly usa de todos os ardis: a clonagem, a cita\u00e7\u00e3o, a releitura, o resgate, o remorso, a maldi\u00e7\u00e3o. Intensifica o tr\u00e1fego entre a palavra e a sugest\u00e3o, entre o verbo e a tempestade, entre a Queda e salva\u00e7\u00e3o. Prega as t\u00e1buas do seu edif\u00edcio com rimas s\u00f3lidas, com sintonias de m\u00fasica de c\u00e2mara, com apelos de sinfonias, com ritmos complexos ou redundantes (a repeti\u00e7\u00e3o de palavras funcionam como a percuss\u00e3o de perfis colhidos pelo sofrimento). Enrodilhado no verso, que cai em si como gotas de chuva numa paisagem de tambores expostos, ele encarna a imagem que os grandes criadores fazem de si e assume um narrador que \u00e9 a verbaliza\u00e7\u00e3o desse encontro sobrenatural: \u201c\u00d3 Emily Bront\u00eb, sou Heathcliff\/ e ser\u00e1s, para sempre, Catarina:\/ amor que leva o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 ru\u00edna\/ amor que eu n\u00e3o pensava que existisse\u201d.<\/p>\n<p>Isso d\u00e1 grande eloq\u00fc\u00eancia aos poemas, que exibem uma exuber\u00e2ncia de teatro grego cl\u00e1ssico, em que as invoca\u00e7\u00f5es trabalham as trag\u00e9dias traduzidas pelo talento. Ao mesmo tempo, foge do artificialismo com que o soneto foi encarado por muito tempo, at\u00e9 ser recuperado pelos pr\u00f3prios modernistas e ter chegado at\u00e9 hoje com uma performance admir\u00e1vel, como comprovam obras como \u201cA Imita\u00e7\u00e3o do Amanhecer\u201d, de Bruno Tolentino. Em Accioly, o soneto \u00e9 o elevador que aproxima a luz do abismo, a morte da reden\u00e7\u00e3o, a loucura da lucidez.<\/p>\n<p>O poeta n\u00e3o precisa das leituras que faz, da linhagem a qual pertence, das origens ou de suas vit\u00f3rias. O poeta nada possui e por isso \u00e9 livre para tecer o canto como o lugar comum (de todos) que n\u00e3o existe a n\u00e3o ser como arrebatamento provocado pelo dom\u00ednio absoluto da linguagem. Emociona em Accioly sua brasilidade, natureza morta em outras paragens, j\u00e1 que a soberania do pa\u00eds entrou em profunda depress\u00e3o. Aqui, ela existe porque assim decide o poema, quando vibra: \u201cTu, Augusto dos Anjos e Dem\u00f4nios\/ aos miasmas da noite, em teu Pau-Darco\/ como um batr\u00e1quio dentro do seu charco,\/ gastas a multid\u00e3o dos teus neur\u00f4nios\u201d.<\/p>\n<p>Mas essa nacionalidade n\u00e3o se amarra \u00e0 pobreza das consci\u00eancias datadas. Antes, procura sintonias de extrema contund\u00eancia: \u201cTu, que foste feroz (ele foi bravo)\/ tu (dele dizem mercador de escravo)\/ que a escravid\u00e3o rompeste a gritos (salve):\/ pois tu \u00e9s o Brasil (ele \u00e9 a Fran\u00e7a)\/ pois \u00e9 ele o destino (\u00e9s a esperan\u00e7a)\/ porque ele \u00e9 Rimbaud e \u00e9s Castro Alves!\u201d Accioly sabe que o poema \u00e9 o exagero e n\u00e3o teme ser confundindo com a hip\u00e9rbole, ele que recupera a solenidade, hoje enterrada pela linguagem em ru\u00ednas. Trata-se de uma voz grandiosa sem ser grandiloq\u00fcente, uma presen\u00e7a poderosa numa na\u00e7\u00e3o que se tornou mesquinha.<\/p>\n<p>Seus sonetos encontram na precocidade da maioria dos personagens essa f\u00faria insana que n\u00e3o se adapta \u00e0 mediocridade e se consome num cosmo frio que s\u00f3 pode se revelar totalmente pela morte, procurada com paix\u00e3o pelos incendi\u00e1rios de um verbo estelar, que verte de fontes misteriosas: \u201cPois, quando um carroceiro a cada estalo\/ do seu chicote os lombos de um cavalo\/ dilacerava com verg\u00f5es do mal\/ tu, &#8211; s\u00e3o do instinto e da raz\u00e3o doente- \/ choraste, Nietsche, convulsivamente\/ abra\u00e7ado ao pesco\u00e7o do animal\u201d.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o que Accioly faz para entender o Mal, aceit\u00e1-lo, detect\u00e1-lo, n\u00e3o resiste \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o solar, denunciada pela m\u00fasica aberta e redonda dos poemas. As labaredas da perdi\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazem parte da sua paciente urdidura po\u00e9tica, que prescinde de suas admira\u00e7\u00f5es mais chegadas. A prova s\u00e3o os sonetos, gloriosos porque perfeitos, belos porque chegam ao destino sem se perder nas armadilhas do percurso e reveladores de algo que \u00e9 anterior \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o: o talento infinito de quem produziu a Arte e a Beleza sem se socorrer do verniz liter\u00e1rio, das mentiras hist\u00f3ricas ou da fuga ao que realmente importa, a de que somos criaturas mortais, mas nem por isso submissas \u00e0 brevidade f\u00edsica.<\/p>\n<p>O poeta \u00e9 o anjo que ganha a parada, pois enxerga a viol\u00eancia de estar vivo e encara a brutalidade de ser eterno. Sua poesia est\u00e1 em nenhum lugar, a n\u00e3o ser nessa \u201csobra\u201d, quando se desbastam todos os disfarces e ressurge, crua, a loucura do talento pousado nas costuras aparentemente ef\u00eameras. Como no poema para Tchaikovsky: \u201cO inferno atrai e queima a mariposa\/ e uma asa de seda \u2013 um v\u00e9u de esposa \u2013 \/cobriria o teu rosto, al\u00e9m do pranto\u201d.<\/p>\n<p>Isso pode soar estranho quando estamos \u00e0 merc\u00ea da superficialidade cultural produzida industrialmente. Mas se nos colocarmos na mar\u00e9 alta das transforma\u00e7\u00f5es que hoje varrem o mundo, podemos notar, num escriba veterano, aquela transcend\u00eancia arrebatadora das profecias, quando os povos eram lembrados do p\u00f3 a que pertenciam. A poesia que invade a pra\u00e7a cheia despertando a emo\u00e7\u00e3o morta \u00e9 a luz que cont\u00e9m o mundo num pequeno gr\u00e3o. Neste caso, num livro soberbo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre Daguerre\u00f3tipos (Escrituras, 222 p\u00e1ginas), de Marcus Accioly: O poeta \u00e9 o anjo que ganha a parada, pois enxerga a viol\u00eancia de estar vivo e encara a brutalidade de ser eterno. Sua poesia est\u00e1 em nenhum lugar, a n\u00e3o ser nessa \u201csobra\u201d, quando se desbastam todos os disfarces e ressurge, crua, a loucura do talento pousado nas costuras aparentemente ef\u00eameras. Como no poema para Tchaikovsky: \u201cO inferno atrai e queima a mariposa\/ e uma asa de seda \u2013 um v\u00e9u de esposa \u2013 \/cobriria o teu rosto, al\u00e9m do pranto\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/603"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=603"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/603\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1811,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/603\/revisions\/1811"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}