{"id":605,"date":"2009-12-12T14:06:55","date_gmt":"2009-12-12T16:06:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=605"},"modified":"2009-12-21T23:30:06","modified_gmt":"2009-12-22T01:30:06","slug":"marienbad-o-fantasma-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/marienbad-o-fantasma-da-memoria","title":{"rendered":"MARIENBAD, O FANTASMA DA MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\n<strong>O ano passado em Marienbad, <\/strong>filme de 1961 de Alain Resnais, com roteiro de Allan Robbe-Grillet, \u00e9 sobre a ruptura da mem\u00f3ria provocada pela morte. No caso, um assassinato, do marido tra\u00eddo, que atinge a mulher que se apaixona por outro. Ela \u00e9 eliminada exatamente quando decide fugir com o amante, depois de voltar atr\u00e1s de uma decis\u00e3o: tinha proposto ficar um ano longe dele, uma esp\u00e9cie de teste, para ver se o caso era para valer, se o cara estava realmente a fim dela. Mas foi convencida a fazer as malas e deixar o marido, que praticava tiro e n\u00e3o permitiu a desonra.<\/p>\n<p>Seria muito simples se a narra\u00e7\u00e3o obedecesse \u00e0 mesmice. Mas este filme absolutamente maravilhoso, perfeito em todos os detalhes, revolucionou a linguagem cinematogr\u00e1fica e criou as bases para uma nova S\u00e9tima Arte, gerando solu\u00e7\u00f5es e recursos mais tarde aproveitada por todos os grandes cineastas. A come\u00e7ar com Stanley Kubrick, que usou todo o ambiente do hotel luxuoso onde est\u00e3o os esnobes da elite para compor sua trama terr\u00edvel em \u201cO Iluminado\u201d (at\u00e9 aquele corredor na v\u00e9spera da inunda\u00e7\u00e3o de sangue est\u00e1 em Marienbad).<\/p>\n<p>Kubrick tamb\u00e9m usou uma cena do jogo de damas com um tabuleiro ao fundo, e o quarto branco impec\u00e1vel da mulher que vai morrer, no seu cl\u00e1ssico 2001, naquela cena final aparentemente incompreens\u00edvel do astronauta que acorda num quarto de luxo com m\u00f3veis antigos. \u00c9 o quarto de Marienbad e ele joga num tabuleiro id\u00eantico ao do filme de Resnais. Mais ainda: Kubrick usou todas as seq\u00fc\u00eancia dos jardins suntuosos de Marienbad, junto com a fachada do castelo, para criar o clima em outra obra sua, \u201cBarry Lindon\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 infind\u00e1vel a quantidade de influ\u00eancias geradas por Resnais. D\u00e1 para citar algumas: \u201cO Sexto Sentido\u201d, sobre a investiga\u00e7\u00e3o de uma fantasmagoria que no fim \u00e9 o pr\u00f3prio narrador; \u201cUma mera formalidade\u201d, de Giuseppe Tornatore, em que o delegado Roman Polanski procura fazer com que o suicida Gerard Depardieu lembre de sua morte. Filmes como \u201cOrgulho e preconceito\u201d, de Joe Wright usam os esquemas de cen\u00e1rios de Resnais. E h\u00e1 muito mais exemplos.<\/p>\n<p>Marienbad \u00e9 narrado pelo amante que tenta lembrar a mulher do acordo que fizeram um ano antes, o de ficar um ano separados para que as coisas se resolvessem. Ela, fantasma, que vaga pelo cen\u00e1rio da sua morte, n\u00e3o lembra de nada e pede que o deixe em paz. Mas ele a persegue e a atormenta com as lembran\u00e7as, exigindo que reencontre aquele momento em que poderiam fugir juntos, talvez para que fosse poss\u00edvel a fuga inspirada pelo amor. Mas o hotel\/castelo visto \u00e0 noite no plano final, sem vegeta\u00e7\u00e3o, s\u00f3 granito e pedra, \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de uma tumba. L\u00e1 est\u00e1 enterrada a mulher que ousou amar e fugir de um casamento est\u00e9ril. E jaz uma elite que treina o tiro enquanto convive de maneira impass\u00edvel, indiferente e criminosa, isolada do resto do mundo. A imagem em que todos aparecem imobilizados no jardim, totalmente fundada no pintor italiano De Chirico, expressa essa classe social morta.<\/p>\n<p>O deslumbre visual, a complexa trama, a qualidade po\u00e9tica do texto, as situa\u00e7\u00f5es de conflito (como a do jogo em que o marido tra\u00eddo sempre ganha), a presen\u00e7a de personagens que n\u00e3o possuem fala, mas ocupam a tela com a for\u00e7a das hist\u00f3rias inesquec\u00edveis fazem de Marienbad um filme de mestre, como poucos, que deve ser visto e revisto para que nos civilizemos cada vez mais, para que possamos habitar as altas esferas do esp\u00edrito, compartilhar com a grande cria\u00e7\u00e3o do nosso tempo. N\u00e3o podemos ficar alheios a essa revolu\u00e7\u00e3o permanente da arte, que desmoraliza a mediocridade e deixa no chinelo imensid\u00e3o de porcarias que despejam no p\u00fablico a cada segundo.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria fragmentada, prec\u00e1ria, escassa, rodeando um sentimento, uma promessa, as d\u00favidas, levam a vanguarda do pensamento e da cria\u00e7\u00e3o para os mais altos n\u00edveis da express\u00e3o art\u00edstica. Precisamos resgatar a mem\u00f3ria para que lembremos aquele instante em que fomos assassinados. S\u00f3 a partir dessa revela\u00e7\u00e3o \u00e9 que poderemos romper com a armadilha. O filme acena com essa possibilidade, ao mostrar o marido, desolado, vendo o casal se afastando. Chamam esse recurso de obra aberta. Prefiro dizer que houve o desenlace, o crime, e a mulher vaga, morta, pelos corredores e quartos. A chance de fugir daquilo \u00e9 nossa, dos espectadores que depois do final ter\u00e3o apenas a lembran\u00e7a do filme como companhia. A mem\u00f3ria \u00e9 um fantasma que precisa saber o que aconteceu conosco.<\/p>\n<p>Ao filmar a est\u00e1tua do casal no jardim de luxo, o grande diretor influenciou tamb\u00e9m Godard, que usou a gram\u00e1tica visual de Resnais em \u201cO Desprezo\u201d. Ou seja, Resnais \u00e9 Mestre dos Mestres. Ignor\u00e1-lo ou fazer pouco dele em fun\u00e7\u00e3o de narrativas \u201cclaras\u201d \u00e9 um h\u00e1bito n\u00e3o apenas perigoso (pois erradica a cultura da vida di\u00e1ria), mas criminoso, pois impede que as novas gera\u00e7\u00f5es tenham acesso a essas obras-primas que foram feitas para ficar entre n\u00f3s, eternamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano passado em Marienbad, filme de 1961 de Alain Resnais, com roteiro de Allan Robbe-Grillet, \u00e9 sobre a ruptura da mem\u00f3ria provocada pela morte. Precisamos resgatar a mem\u00f3ria para que lembremos aquele instante em que fomos assassinados. 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