{"id":608,"date":"2009-12-12T14:12:33","date_gmt":"2009-12-12T16:12:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=608"},"modified":"2009-12-21T23:29:09","modified_gmt":"2009-12-22T01:29:09","slug":"antes-do-telhado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/antes-do-telhado","title":{"rendered":"ANTES DO TELHADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Vi a coruja na ponta do telhado. Vertical, fazendo pose no entardecer. O perisc\u00f3pio do olhar transmite a impress\u00e3o de corpo retorcido, fora de prumo. Ela apenas est\u00e1 atenta, girando a cabe\u00e7a enquanto o corpo, im\u00f3vel, imita uma espiral. Seu canto \u00e9 o sil\u00eancio, a sabedoria dos ouvintes. Calada, como fruto em fim da feira, exibe a presen\u00e7a descart\u00e1vel quando acendem as luzes da aldeia. Quase n\u00e3o se v\u00ea o vulto que se apaga como as ilustra\u00e7\u00f5es de livros obscuros. Mas ela est\u00e1 l\u00e1. Seu segredo \u00e9 que nada anuncia.<\/p>\n<p>Ela se encerra, como um cofre de vime. Guarda-se em penas, desenhos mortos, pinc\u00e9is de espinhos. A coruja trafega no lusco-fusco das celebra\u00e7\u00f5es ocultas. Existia antes do telhado, antes mesmo do terreno baldio cercado, antes do s\u00e9culo, da Hist\u00f3ria, da trilha. J\u00e1 montava guarda quando nem p\u00e1tria existia. Compartilhava o assombro dos habitantes do trov\u00e3o, da nudez dos gigantes, das pedras trabalhadas em alfabetos perdidos. Percebia os invasores armados de velas, sabres, var\u00edolas. Sabia o desfecho, j\u00e1 que pousa no telhado h\u00e1 uma eternidade.<\/p>\n<p>Eu a conhe\u00e7o porque se identifica. N\u00e3o que pronuncie seu nome ou fa\u00e7a algum gesto repetido. \u00c9 porque habitamos esse ch\u00e3o comum do universo imperfeito. Temos no\u00e7\u00e3o exata do pensamento um do outro. J\u00e1 fervemos em caldeir\u00f5es, escapamos de armadilhas, sobrevoamos lobos. Agora jogamos no mesmo time.<\/p>\n<p>Imagino tudo, menos o fato de que continua ali, na v\u00e9spera dos fogos. Talvez n\u00e3o seja o mesmo exemplar que incendiou os antigos. Mas \u00e9 feita da mesma natureza, obedece ao impulso que a gerou. \u00c9 um modelo de criatura que se reproduz na posi\u00e7\u00e3o ereta das ef\u00edgies. Lembra um signo, representando alguma na\u00e7\u00e3o que perdemos. Ou ser\u00e1 o an\u00fancio dos parentes que chegam novamente para ver a festa?<\/p>\n<p>Na quina, avessa ao mundo, a coruja esconde um labirinto. Ao primeiro estrondo, ela voa em curva, como se um gesto imagin\u00e1rio desenhasse a linha de sua desist\u00eancia. Mas um duende permanece, mesmo que o sol rebente e a noite seja devorada na fervura das estrelas. A coruja \u00e9 o ver\u00e3o, ambiente de sonhos. O Ano Novo \u00e9 apenas o guardi\u00e3o de sua asa, fio de suas garras, brinco de realeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vi a coruja na ponta do telhado. Vertical, fazendo pose no entardecer. O perisc\u00f3pio do olhar transmite a impress\u00e3o de corpo retorcido, fora de prumo. Ela apenas est\u00e1 atenta, girando a cabe\u00e7a enquanto o corpo, im\u00f3vel, imita uma espiral. Seu canto \u00e9 o sil\u00eancio, a sabedoria dos ouvintes. Calada, como fruto em fim da feira, exibe a presen\u00e7a descart\u00e1vel quando acendem as luzes da aldeia. Quase n\u00e3o se v\u00ea o vulto que se apaga como as ilustra\u00e7\u00f5es de livros obscuros. Mas ela est\u00e1 l\u00e1. Seu segredo \u00e9 que nada anuncia. Ela se encerra, como um cofre de vime. Guarda-se em penas, desenhos mortos, pinc\u00e9is de espinhos. A coruja trafega no lusco-fusco das celebra\u00e7\u00f5es ocultas. 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