{"id":613,"date":"2009-12-12T14:24:47","date_gmt":"2009-12-12T16:24:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=613"},"modified":"2009-12-21T23:49:37","modified_gmt":"2009-12-22T01:49:37","slug":"o-brilho-das-arvores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-brilho-das-arvores","title":{"rendered":"O BRILHO DAS \u00c1RVORES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nTanto para ser dito ainda, no ano findo. Por mais que escreva, mais coisa fica. Devemos nos entregar \u00e0s evid\u00eancias da m\u00eddia, sapatos que voam, morros que desandam, ou procurar o sinal humano afogado entre malandros e fac\u00ednoras? Ningu\u00e9m permite a ascens\u00e3o desse surdo escoar de gritos. Est\u00e1 estabelecido, h\u00e1 s\u00e9culos, o enterro expl\u00edcito do que um dia foi poema e hoje \u00e9 produto. Quites com a d\u00edvida, o fisco, resta o esc\u00e2ndalo de permanecer mudo. \u00c9 a morte prematura da palavra nua, a que vem ao mundo para soar no templo, e que acaba confinada ao feno apodrecido.<\/p>\n<p>Do est\u00e1bulo vemos a rua coberta de lances obscuros. Balbuciamos uma nova l\u00edngua, mas s\u00f3 os bichos escutam. As pessoas se transformaram em mercadorias. N\u00e3o h\u00e1 como escapar, dizem, nem mesmo o talento que afias diariamente, nem mesmo o sonho de acordar dessa loucura. Deves te ordenar na comunh\u00e3o dos aflitos, enquanto envelhecem os bandidos e seus tesouros acumulados. Nenhum franco atirador postado na torre da capela, para mant\u00ea-los \u00e0 dist\u00e2ncia, enquanto resistimos.<\/p>\n<p>O escritor tamb\u00e9m \u00e9 omisso. Permanece oculto, teclado entre v\u00edboras. N\u00e3o pode apartar a briga pelo butim, nem encaminhar a mocidade, amarrada aos p\u00e9s da viol\u00eancia e o desatino. N\u00e3o \u00e9 um l\u00edder. Faz parte da paisagem tomada pelo lixo, como os andarilhos, os b\u00eabados comuns. Ele olha, pela vitrine, o bom mocismo dos escribas de aluguel fazendo confer\u00eancias. Inclusive os transgressores, esses cabelos revoltos, esses andrajos medidos, essas express\u00f5es de falsa f\u00faria, esses livros descart\u00e1veis e p\u00edfios, premiados em todas as inst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>O escritor faz parte do trigo, o que foi reservado num pequeno galp\u00e3o do instituto de pesquisa. \u00c9 um exemplar das sementes n\u00e3o modificadas, guardadas mais por curiosidade cient\u00edfica do que por esperan\u00e7a de que, no futuro, ven\u00e7am a partida. Ao lado do gr\u00e3o, o escritor faz o balan\u00e7o. Perde a conta do tempo escoado pela trilha. Seleciona os momentos em que esteve perto da literatura: foi quando, despido, enfrentou voragem e frio.<\/p>\n<p>Agora, o que fazer com tanto trabalho guardado na pele, nos ombros, nos bolsos furados? Onde guardar a poesia que sobra em seu embornal? O linho do amor cobre seu rosto ainda vivo, enquanto o olhar se atira, aprendiz de sonhos, confessor de mendigos. O escritor esquece o que guardou para se jogar de novo na aventura da cria\u00e7\u00e3o, a que \u00e9 dita por compuls\u00e3o e heran\u00e7a, e que se projeta como um m\u00edssil desgovernado espa\u00e7o afora, em busca de um planeta solto sem estrela.<\/p>\n<p>L\u00e1, nesse territ\u00f3rio \u00edntimo, ele exercita mais um gesto do esp\u00edrito que n\u00e3o se entrega, mesmo sendo v\u00edtima de armadilhas. Foi levado para golpes de vista, apontamentos brutos, p\u00e1ginas de brita. Mas voltou e colabora com os feixes de luz do sol que inaugura, mais uma vez, a pesca sobre escombros, as pombas entre p\u00e1lidos lampi\u00f5es, as luas feridas. Um l\u00e1pis sem ponta, um v\u00eddeo riscado, uma conex\u00e3o tosca. Ei-lo de volta, o anunciador de espinhos, ba\u00fa de murm\u00farios.<\/p>\n<p>Tanto por dizer no ano que finda. Tanto para escrever, com a insist\u00eancia das den\u00fancias, at\u00e9 a dem\u00eancia absoluta. Recolham as palavras no campo rec\u00e9m lavado. Elas brilham nas \u00e1rvores, como os pingos depois da chuva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do est\u00e1bulo vemos a rua coberta de lances obscuros. Balbuciamos uma nova l\u00edngua, mas s\u00f3 os bichos escutam. As pessoas se transformaram em mercadorias. N\u00e3o h\u00e1 como escapar, dizem, nem mesmo o talento que afias diariamente, nem mesmo o sonho de acordar dessa loucura. Deves te ordenar na comunh\u00e3o dos aflitos, enquanto envelhecem os bandidos e seus tesouros acumulados. 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