{"id":619,"date":"2009-12-12T14:44:20","date_gmt":"2009-12-12T16:44:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=619"},"modified":"2009-12-21T22:32:59","modified_gmt":"2009-12-22T00:32:59","slug":"colt-e-irmao-da-winchester","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/colt-e-irmao-da-winchester","title":{"rendered":"COLT \u00c9 IRM\u00c3O DA WINCHESTER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEm dois filmes irm\u00e3os &#8211; <em>C\u00e3o Danado<\/em> (1949), de <em>Akira Kurosawa<\/em>, e <em>Winchester 73<\/em> (1950), de <em>Anthony Mann<\/em> &#8211; Caim e Abel se defrontam depois de uma persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel. O que liga os protagonistas em cada filme s\u00e3o armas de estima\u00e7\u00e3o, importantes, raras. No Jap\u00e3o do p\u00f3s-guerra, um colt roubado vira instrumento de crimes sucessivos, enchendo de culpa seu dono, o policial (Toshiro Mifune), que depois de muita luta, recupera a arma. No velho Oeste, a Winchester perfeita, considerada \u201cuma entre um mil\u201d, \u00e9 disputada pelos dois filhos de um rancheiro e acaba passando de m\u00e3o em m\u00e3o at\u00e9 o duelo final, quando o filho bom (James Stewart) a resgata ao eliminar, no meio das pedras de um penhasco, o irm\u00e3o assassino.<\/p>\n<p>Existe sempre um Kuroswa maior para assistirmos. C\u00e3o Danado \u00e9 noir criado pelo pai da mat\u00e9ria (o cinema). Todos se inspiraram, chuparam, copiaram o Mestre japon\u00eas, principalmente os americanos. Quantas vezes voc\u00ea n\u00e3o viu uma investiga\u00e7\u00e3o se desenvolver em meio a um calor\u00e3o que faz todo mundo, principalmente os perseguidores, passarem o len\u00e7o no rosto e na cabe\u00e7a a cada segundo? Quantas vezes voc\u00ea n\u00e3o seguiu uma narrativa em que entram apenas as pernas em movimento dos atores? Quantas vezes n\u00e3o viu um filme que come\u00e7a com um animal torturado? Detalhes que intensificam visualmente a obra e se transformam num espet\u00e1culo \u00e0 parte.<\/p>\n<p>O faroeste refilmou v\u00e1rias realiza\u00e7\u00f5es do Mestre (John Sturges, Sergio Leone, entre outros), mas n\u00e3o desta vez. Os dois filmes irm\u00e3os percorrem leitos comuns da narrativa, mas n\u00e3o se trata da mesma hist\u00f3ria. O que notei s\u00e3o os pontos de contato, poderosos. Al\u00e9m dos apontados acima \u2013 irmandade (virtual, no filme japon\u00eas, e real, no faroeste) e as armas roubadas \u2013 o que une os dois filmes \u00e9 a vingan\u00e7a. O policial quer vingar os crimes praticados pelo ladr\u00e3o com seu colt e o rancheiro quer vingar, armado de sua winchester, a morte do pai pelas costas, um crime cometido pelo pr\u00f3prio irm\u00e3o. A revanche se cumpre em pleno calor, mas em ambientes opostos. Em Kurosawa, num ermo florido, onde os duelistas se dilaceram e quase n\u00e3o s\u00e3o percebidos pela vizinhan\u00e7a em bocejo. Em Mann , no meio das pedras e do p\u00f3, com os dois contendores s\u00f3s, sem ningu\u00e9m ao redor, a n\u00e3o ser a Hist\u00f3ria da S\u00e9tima Arte e n\u00f3s, os admiradores confessos e obecados por cinema.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi apontado pela cr\u00edtica, o policial e o ladr\u00e3o s\u00e3o como faces do mesmo rosto. Ambos lutaram na guerra, foram roubados na volta para casa, s\u00f3 que um escolheu o Bem, o emprego, e o outro o Mal, a vida f\u00e1cil e ressentida, sem trabalho mas com dinheiro alheio. Seriam como irm\u00e3os com objetivos diferentes, que acabam se cruzando na obsessiva trajet\u00f3ria compartilhada entre um, que quer solucionar os crimes, e o outro, que quer agradar a namorada com presentes caros. Os dois irm\u00e3os de fato, no faroeste, foram treinados pelo pai, morto depois que o filho tentou se esconder em sua casa fugido dos xerifes.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia \u00e9 imposs\u00edvel quando os crimes s\u00e3o imperdo\u00e1veis. O desfecho \u00e9 obrigat\u00f3rio: um precisa eliminar o outro. A sombra que essas hist\u00f3rias projetam s\u00e3o vividas por n\u00f3s, hoje. Os criminosos s\u00e3o vocacionados para o Mal ou fruto de situa\u00e7\u00f5es de colapso? Como diz um trabalhador do filme de Kurosawa, cunhado do ladr\u00e3o: ele tem muita raiva, culpa o Jap\u00e3o por tudo. Conhecemos essa hist\u00f3ria, n\u00e3o? Quantas vezes ouvimos ou dizemos a explica\u00e7\u00e3o definitiva: \u201c\u00c9 o Brasil!\u201d A culpa \u00e9 do pa\u00eds, por isso todos podem cometer qualquer crime.<\/p>\n<p>Esse tema \u00e9 debatido em di\u00e1logos importantes. O veterano inspetor Sato, interpretado por Takashi Shimura, n\u00e3o acredita em v\u00edtimas do sistema, mas em ruindade mesmo, ao contr\u00e1rio do novato interpretado por Mifune, que v\u00ea na barb\u00e1rie da guerra entre na\u00e7\u00f5es a origem do comportamento do ladr\u00e3o. Debate que nos consome aqui no Brasil, com pessoas divididas entre a recupera\u00e7\u00e3o e a pena de morte. No faroeste, James Stewart explica que o erro do pai foi ensinar a t\u00e9cnica, mas n\u00e3o a \u00e9tica.<\/p>\n<p>O que dizer mais desses dois filmes imperd\u00edveis, sumidos do mapa e que deveriam ser obrigat\u00f3rios , pelo menos uma vez por ano, nos canais de televis\u00e3o aberta e fechada? Podemos apontar a espl\u00eandida pradaria de dia e de noite no filme de Mann, com cactos irmanados com a lua; e as seq\u00fc\u00eancias sufocantes de Kurosawa, intercaladas por grandes janelas, como o jogo de beisebol no est\u00e1dio lotado ou a dan\u00e7a das coristas no bas-fond suspeito. Tudo \u00e9 solene e sublime quando h\u00e1 arte, quando existem cineastas, atores fundamentais, quando o cinema diz a que veio.<\/p>\n<p>Um colt e uma winchester: o talento puxa o gatilho. Algu\u00e9m vai morrer no final. Se segurem nas cadeiras, porque ningu\u00e9m est\u00e1 na terra a passeio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em dois filmes irm\u00e3os &#8211; C\u00e3o Danado (1949), de Akira Kurosawa, e Winchester 73 (1950), de Anthony Mann &#8211; Caim e Abel se defrontam depois de uma persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel. O que liga os protagonistas em cada filme s\u00e3o armas de estima\u00e7\u00e3o, importantes, raras. No Jap\u00e3o do p\u00f3s-guerra, um colt roubado vira instrumento de crimes sucessivos, enchendo de culpa seu dono, o policial (Toshiro Mifune), que depois de muita luta, recupera a arma. 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