{"id":621,"date":"2009-12-12T14:45:01","date_gmt":"2009-12-12T16:45:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=621"},"modified":"2009-12-21T23:25:35","modified_gmt":"2009-12-22T01:25:35","slug":"a-chama-e-a-sombra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-chama-e-a-sombra","title":{"rendered":"A CHAMA E A SOMBRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nPode ser coincid\u00eancia, mas o significado do nome pr\u00f3prio dinamarqu\u00eas Citronen pode ser, gra\u00e7as a uma varia\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica, o mesmo da palavra francesa Citr\u00f6en: \u201ctodos por um\u201d, segundo especialistas em s\u00e2nscrito. Citronen \u00e9 o nome de um her\u00f3i da Dinamarca da Segunda Guerra. Junto com Flammen (chama), fez parte de uma equipe de resist\u00eancia ao nazismo, eliminando colaboradores no pa\u00eds ocupado. O recente filme <em>Flammen &amp; Citronen <\/em>(2008), de <em>Ole Cristhian Madse<\/em>n, \u00e9 uma revisita ao mito que se formou ao redor dessa dupla de matadores, enterrados com honras depois da derrota alem\u00e3, quando foram retirados de uma vala comum para serem colocados no panteon dos her\u00f3is da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 uma apurada sucess\u00e3o de imagens de alta intensidade visual e dram\u00e1tica. As cores carregadas em contrastes gritantes fazem dele um noir do s\u00e9culo 21: l\u00e2mpadas fortes sobre escrivaninhas minuciosamente produzidas, paisagens maravilhosas de c\u00e9u, mar e grama que duelam com autom\u00f3veis de cores berrantes, Estocolmo e Copenhagen esplendorosas na sua frieza incendiada pela a\u00e7\u00e3o e personagens sinistros em armadilhas mortais fazem desse lan\u00e7amento internacional um acontecimento importante, mesmo quem seja considerado longo demais, confuso muitas vezes e com situa\u00e7\u00f5es for\u00e7adas em algumas partes.<\/p>\n<p>O que vale \u00e9 essa atualiza\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio do pa\u00eds. A ultra-sofisticada e culta Dinamarca n\u00e3o poderia produzir um paneg\u00edrico, j\u00e1 que se trata de uma democracia de verdade e l\u00e1 houve uma guerra feroc\u00edssima que marcou a popula\u00e7\u00e3o. A abordagem \u00e9 sobre a omiss\u00e3o diante da humilha\u00e7\u00e3o, a necessidade de reagir, mas como? Os dois her\u00f3is se prestam ao jogo dos assassinatos, apesar de Flammen (interpretado por Thure Lindhardt) ser um brilhante aluno e Citronen (Mads Mikkelsen) um pai de fam\u00edlia incapaz de matar uma pessoa. As conting\u00eancias empurram os dois idealistas para o crime. Esse idealismo \u2013 a chama segurada pela sombra, a a\u00e7\u00e3o carregada pela id\u00e9ia de na\u00e7\u00e3o, o tiro amparado pela resist\u00eancia \u2013 \u00e9 que faz reviver o hero\u00edsmo.<\/p>\n<p>Eles podem ainda ser lembrados de maneira solene, apesar de terem ca\u00eddo em todas as arapucas, matado inocentes sem saber, se prestarem a um servi\u00e7o sujo enquanto os fac\u00ednoras do servi\u00e7o secreto ingl\u00eas, entre outros comerciantes, dividiam os lucros. Os campos se confundem na luta desigual entre a individualidade e a corpora\u00e7\u00e3o. A d\u00favida \u00e9 encarnada na figura da mulher (a personagem Ketty Selmer, interpretada por Stine Stengade), a agente dupla que acaba delatando o amante procurado a peso de ouro. A trai\u00e7\u00e3o feminina e a solidariedade encarnada pela dupla masculina s\u00e3o recorrentes no cinema europeu e americano. Como a confirmar a fun\u00e7\u00e3o de Eva seduzida pela serpente e o trouxa que acaba provando a ma\u00e7\u00e3 envenenada. Mas esse lugar comum n\u00e3o tira o m\u00e9rito do filme.<\/p>\n<p>Citronen usa capa preta, chap\u00e9u escuro enterrado na testa, enquanto o cabelo loiro de Flamme navega pelos corredores e ruas, armado de chispas de uma revolu\u00e7\u00e3o que ficou inacabada. A chama e a sombra convivem com seus equ\u00edvocos at\u00e9 o fim, sem conseguir mudar nada. O objetivo era matar todo nazista que tivesse invadido a Dinamarca e seus colaboradores. O projeto n\u00e3o deu certo. Os her\u00f3is se enredaram na pr\u00f3pria cegueira diante da complexidade do conflito. Isso \u00e9 recuperado de maneira poderosa pelo cineasta Madsen, que foca o hero\u00edsmo poss\u00edvel nesta \u00e9poca de transpar\u00eancias.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabem mais na cultura de hoje her\u00f3is vistos como antigamente, impolutos, sem nenhuma mancha, sem sua natureza humana, escassa e prec\u00e1ria. Ao mesmo tempo, n\u00e3o podemos sucumbir ao jogo de achincalhes diante dos que arriscaram a vida em nome de uma id\u00e9ia fundamental da sobreviv\u00eancia, a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Longa vida aos her\u00f3is da p\u00e1tria. Mesmo com todos os defeitos, eles se destacam no mundo com sua natureza dupla, entre ilumina\u00e7\u00e3o e a n\u00e9voa, entre o ideal e a pr\u00e1tica, entre a certeza e a d\u00favida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme Flammen &#038; Citronen (2008), de Ole Cristhian Madsen, \u00e9 uma apurada sucess\u00e3o de imagens de alta intensidade visual e dram\u00e1tica. 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