{"id":623,"date":"2009-12-12T14:45:50","date_gmt":"2009-12-12T16:45:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=623"},"modified":"2009-12-21T22:30:49","modified_gmt":"2009-12-22T00:30:49","slug":"ensaio-sobre-a-cegueira-nao-ver-e-sentir","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ensaio-sobre-a-cegueira-nao-ver-e-sentir","title":{"rendered":"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: N\u00c3O VER \u00c9 SENTIR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica \u00e9 cega. N\u00e3o consegue enxergar um filme. Acharam \u201cEnsaio sobre a cegueira\u201d, de Fernando Meirelles, baseado no romance de Jos\u00e9 Saramago, deprimente, apocal\u00edptico, azedo, \u00f3bvio. Se \u00e9 para despejar adjetivos, para que a cr\u00edtica? Uma an\u00e1lise precisa ver o que a obra mostra de maneira expl\u00edcita, em todos os frames, cortes, formas, objetos, situa\u00e7\u00f5es, di\u00e1logos, cores. E n\u00e3o o que o cr\u00edtico acha. N\u00e3o podemos achar nada sobre coisa alguma, apenas nos render ao que \u00e9 evidente. E o filme \u00e9 de uma transpar\u00eancia did\u00e1tica e cristalina: despojados da vis\u00e3o, as pessoas se desvinculam dos la\u00e7os sociais, que regem a vida contempor\u00e2nea por meio do massacre dos signos manipulados (os far\u00f3is do tr\u00e2nsito, as faixas de seguran\u00e7a, a ind\u00fastria visual). Emerge ent\u00e3o o que estava enterrado sob press\u00e3o, a barb\u00e1rie e o sentimento.<\/p>\n<p>A barb\u00e1rie se manifesta na reprodu\u00e7\u00e3o fiel da sociedade no microcosmo de um abrigo dos infectados pela epidemia (com um assustador Gael Garcia Bernal na lideran\u00e7a dos malfeitores). As pessoas chafurdam na sujeira, se submetem \u00e0s maiores humilha\u00e7\u00f5es por comida, matam-se mutuamente, abrem m\u00e3o dos v\u00ednculos familiares, se despeda\u00e7am. Quando ficam livres da pris\u00e3o, encontram o Brasil, o pa\u00eds que n\u00e3o v\u00ea onde est\u00e1 realmente metido. As cenas de S\u00e3o Paulo imunda \u00e9 o retrato do pa\u00eds entregue \u00e0s moscas e aos cachorros. Numa das cenas, em que essa maravilhosa atriz chamada Juliane Moore entra num supermercado que est\u00e1 sendo saqueado, vemos exatamente as mesmas imagens que recentemente assombraram o notici\u00e1rio, quando uma multid\u00e3o entrou num supermercado inundado. As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o praticamente id\u00eanticas.<\/p>\n<p>O Brasil, no filme de Meirelles, \u00e9 a met\u00e1fora do mundo entregue ao caos, por for\u00e7a dos que n\u00e3o conseguem mais ver o ambiente que produziram. \u00c9 muito pior do que a favela carioca. No Rio, a brutalidade est\u00e1 confinada aos redutos da mis\u00e9ria. Aqui, \u00e9 a cidade inteira, gigantesca, que est\u00e1 imersa no caos. Os cegos tentam sobreviver assaltando, aos berros, encontr\u00f5es, empurr\u00f5es, arranh\u00f5es. Ao mesmo tempo, descobrem que podem sentir alguma coisa pelos seus semelhantes, os que est\u00e3o mais pr\u00f3ximos, que compartilham a saga e o mart\u00edrio.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de amor \u00e0 esp\u00e9cie, que a simples elimina\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o n\u00e3o ir\u00e1 despertar. Mas de algum amor, que se manifesta no velho (um tocante Danny Glover) que se declara \u00e0 mo\u00e7a (Alice Braga, a estrela cresce), na rela\u00e7\u00e3o de amantes isolados, no arrependimento das trai\u00e7\u00f5es (Mark Rufallo, intenso, concentrado), na descoberta dos rostos antigos e distantes. Livres dos signos que decidem a vida social do dinheiro, dos carros, dos edif\u00edcios, dos pap\u00e9is e fun\u00e7\u00f5es profissionais, as pessoas se reencontram, emocionadas com o que podem tocar e ouvir.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o em queda, em Meirelles, \u00e9 o pared\u00e3o de concreto que tolda a vis\u00e3o do pr\u00f3ximo. O c\u00e9u, a natureza, ou a tempestade branca, s\u00edmbolo da cegueira, \u00e9 o rito de passagem necess\u00e1rio para que volte o que perdemos. \u00c9 por isso que Juliane olha para o alto e v\u00ea a representa\u00e7\u00e3o da cegueira. Depois desce o olhar e v\u00ea o muro de edif\u00edcios de Metr\u00f3polis. S\u00e3o Paulo, a megal\u00f3pole brasileira, encarna o pesadelo da civiliza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se enxerga e vai em frente com seu trem de ins\u00e2nias.<\/p>\n<p>Todo filme \u00e9 sobre cinema: Juliane, a \u00fanica que v\u00ea, \u00e9 o olhar do cineasta que acompanha a trag\u00e9dia. Ela pouco pode fazer a n\u00e3o ser olhar a loucura tomando conta de tudo. H\u00e1 impot\u00eancia em sua express\u00e3o de dor diante da brutalidade. H\u00e1 den\u00fancia nesse desespero mudo, mas n\u00e3o cego. Quando todos perdem a vis\u00e3o, o artista \u00e9 o \u00fanico que enxerga. Se ning\u00e9m conseguir ver o que ele mostra de maneira t\u00e3o eloq\u00fcente, \u00e9 porque o Mal venceu e pouco resta de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ficar indiferente ao filme \u00e9 participar do cerco a essas evid\u00eancias. Fernando Meirelles, autor de grandes obras, comp\u00f5e a dor de ver, e o que ele enxerga \u00e9 uma janela para o que nos oprime. Vamos ficar atentos, descobrir o que nosso olhar viciado oculta. Para isso existe o grande cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica \u00e9 cega. N\u00e3o consegue enxergar um filme. 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