{"id":626,"date":"2009-12-12T14:59:09","date_gmt":"2009-12-12T16:59:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=626"},"modified":"2009-12-21T23:34:21","modified_gmt":"2009-12-22T01:34:21","slug":"miudezas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/miudezas","title":{"rendered":"MIUDEZAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Minha m\u00e3e mantinha em cima de sua c\u00f4moda, no quarto, em lugar de destaque, o \u00fanico presente que lhe dei na vida. Era uma pequena cesta de vime, com tampa, que trouxera da viagem que fiz pela primeira vez ao mar, quando tinha nove anos de idade. Nela guardava um retrato meu e outras lembran\u00e7as. Era seu pequeno tesouro, a saudade do filho que fora, entre tantos outros, cumprir seu destino na capital.<\/p>\n<p>Os maiores tesouros existem dentro de pequenos recipientes. N\u00e3o falo em diamantes, o preferido dos exilados ricos, que consegue refazer a vida do outro lado do mundo s\u00f3 com o que trouxeram escondido no forro do casaco. Mas daquela pedra lisa, fina e transparente, de duas cores (amarelo e marrom) que coloquei numa pequena caverna que a chuva formara na parede da cozinha do lado de fora, rente ao quintal. O reboco cedera com a umidade, mas um peda\u00e7o dele, com a tinta externa ainda intacta, funcionava como a tampa de uma gruta criada ao acaso.<\/p>\n<p>Uma brincadeira qualquer, exercida em lugares ermos, me revelou o segredo. Bastou retirar com cuidado aquela parte que se deslocara naturalmente do resto da parede, cavar um pouco a massa esgar\u00e7ada pela chuva e tampar tudo de novo, como se ali n\u00e3o tivesse acontecido nada. Aproveitei os dias seguintes para observar se havia perigo de descobrirem a mutreta.<\/p>\n<p>Como a arma\u00e7\u00e3o permaneceu intacta e desconhecida, l\u00e1 comecei a colocar os objetos mais caros, os que jamais poderiam cair em m\u00e3os inimigas, ou seja, irm\u00e3os ou vizinhos. O primeiro era a pedra rara, colhida na beira do rio, e que se destacava das outras, normalmente redondas e opacas. Essa era retangular e deixava passar a luz transformando-a, de branca, em ouro puro. Eu carregara a preciosidade por meses em todos os bolsos, e acreditava que era obediente ao tato, como se sua forma fosse mudando conforme eu esfregava o dedo ou a colocava entre as m\u00e3os postas.<\/p>\n<p>Eu tinha predile\u00e7\u00e3o por cantos, afastados de todos, onde podia imaginar a realidade que habitava minha timidez. Cheguei a ficar um ano, na escolinha do pr\u00e9-prim\u00e1rio, nesse anonimato, refugiado na pequena mesa situada longe da agita\u00e7\u00e3o geral. Como n\u00e3o tinha ainda idade para a alfabetiza\u00e7\u00e3o, fiquei mais um per\u00edodo e tentei recome\u00e7ar no mesmo lugar que abandonara antes das f\u00e9rias. Mas a professora n\u00e3o permitiu. E me incluiu na mesa principal, onde divid\u00edamos jogos, desenhos e brincadeiras. Aprendi a compartilhar os momentos, mas em casa, mesmo convivendo com multid\u00f5es de crian\u00e7as que habitavam e freq\u00fcentavam a esquina onde mor\u00e1vamos, arranjava um jeito para desenvolver minha guerra particular.<\/p>\n<p>Foi por isso que coloquei no esconderijo o rev\u00f3lver de madeira que fabriquei de maneira tosca, j\u00e1 que nunca fui vocacionado para o artesanato, mesmo o mais simples. Era constitu\u00eddo de um cabo, um falso cano e um el\u00e1stico, que servia para arremessar objetos em dire\u00e7\u00e3o aos bandoleiros. Toda vez em que me via em perigo, eu abria a batcaverna e de l\u00e1 extra\u00eda a ferramenta necess\u00e1ria para enfrentar a bandidagem.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 proibido ter arma, assim como desapareceram mi\u00e7angas e lantejoulas, que eram as esmeraldas e p\u00e9rolas das meninas, colecionadas em caixas coloridas. Era proibido invadir essas arcas, mesmo em \u00e9poca de carnaval, quando precis\u00e1vamos confeccionar fantasias para achacar a rua com nossos estandartes. Ped\u00edamos licen\u00e7a ent\u00e3o para as irm\u00e3s costurarem algum mimo no pano sujo que empunh\u00e1vamos em mastros improvisados. E sa\u00edamos batendo lata, acobertados por m\u00e1scaras de pano da pior qualidade e enfeitadas pelo brilho sup\u00e9rfluo dos bordados. Volt\u00e1vamos com o dinheiro para o sorvete e at\u00e9 mesmo, \u00e0s vezes, para as revistas.<\/p>\n<p>Os recursos arrecadados com o aux\u00edlio das miudezas femininas, que garantiam a credibilidade do nosso bloco (pois denunciavam um certo cuidado no improviso) nos ajudavam a adquirir novos tesouros, que escond\u00edamos para nos preservar. Era uma garantia para o futuro, essas coisas insubstitu\u00edveis que ficaram para sempre. Elas projetam lembran\u00e7as de uma inf\u00e2ncia eterna e t\u00e3o sagrada quando uma prosaica cesta na c\u00f4moda da fam\u00edlia numerosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha m\u00e3e mantinha em cima de sua c\u00f4moda, no quarto, em lugar de destaque, o \u00fanico presente que lhe dei na vida. Era uma pequena cesta de vime, com tampa, que trouxera da viagem que fiz pela primeira vez ao mar, quando tinha nove anos de idade. Nela guardava um retrato meu e outras lembran\u00e7as. 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