{"id":628,"date":"2009-12-12T15:00:40","date_gmt":"2009-12-12T17:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=628"},"modified":"2009-12-21T22:35:34","modified_gmt":"2009-12-22T00:35:34","slug":"para-que-serve-o-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/para-que-serve-o-cinema","title":{"rendered":"PARA QUE SERVE O CINEMA?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO cinema, soma de todas as artes, serve para humanizar o esp\u00edrito exilado do talento (esse mist\u00e9rio da sabedoria). Imersos na barb\u00e1rie, na luta pela sobreviv\u00eancia, dedicados ao esporte de se eliminar mutuamente, vocacionados para a indiferen\u00e7a, centrados no ego\u00edsmo, os povos acumulam fome de transcend\u00eancia, que s\u00f3 o cinema pode atender. As ditaduras costumam expulsar os seres humanos completos, os cineastas, normalmente vindos da estiva do teatro, da dem\u00eancia liter\u00e1ria, do ex\u00edlio das artes pl\u00e1sticas, que buscam ref\u00fagio em outros sistemas pol\u00edticos, onde podem exercer sua grande arte at\u00e9 que novamente os grilh\u00f5es de voltem contra eles, podando-os, destruindo ou desvirtuando suas obras ou implantado neles a desesperan\u00e7a que enfim vence, renegando o que fizeram para o limbo absoluto.<\/p>\n<p>\u00c9 o que aconteceu com alguns alem\u00e3es refugiados do nazismo em Hollywood. Como Max Ophuls (que mais tarde voltou a filmar na Europa, sempre em busca da liberdade), autor de in\u00fameros filmes considerad\u00edssimos, como Le Plaisir, de 1952, baseado em contos de Guy de Maupassant. Ou Ernst Lubitsch, o serial realizador de filmes inesquec\u00edveis, que chegou a ter sua grande obra, Trouble in Paradise (Ladr\u00e3o de Alcova), de 1932, submersa na censura at\u00e9 1968, gra\u00e7as \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o promovida, a partir de 1935, pelo famigerado C\u00f3digo Hays (aquele que impunha a separa\u00e7\u00e3o dos corpos no leito conjugal, o que me levava a acreditar que os americanos n\u00e3o dispunham de cama de casal). O DVD saiu h\u00e1 apenas cinco anos, em 2003.<\/p>\n<p>Vi ontem Ladr\u00e3o de Alcova e chovo no molhado, j\u00e1 que o filme \u00e9 tido como um dos grandes at\u00e9 hoje: trata-se de trabalho maduro, hil\u00e1rio, encantador, radicalmente inovador, que denuncia a falsidade das elites, n\u00e3o s\u00f3 pelos costumes, as roupas, os gestos, as conversas, mas principalmente pelo que fazem para se tornar elite, ou seja, falcatruas, desvios de dinheiro, roubo puro e simples. A hist\u00f3ria \u00e9 sobre um casal de ladr\u00f5es que surrupia j\u00f3ias e dinheiro de gente rica. Poderia ser apenas a abordagem c\u00ednica de uma evid\u00eancia, a de que as pessoas s\u00e3o tungadas para garantir o luxo e a indol\u00eancia dos milion\u00e1rios. Mas \u00e9 muito mais.<\/p>\n<p>\u00c9 uma com\u00e9dia ligeira, de di\u00e1logos cortantes, de ritmo alucinante (o roteiro, elogiad\u00edssimo, \u00e9 de Samson Richardson), que mostra (sem se entregar totalmente) como os princ\u00edpios e sentimentos humanos podem atrapalhar os planos e objetivos da racionalidade a servi\u00e7o da bandalheira. O ladr\u00e3o \u00e9 t\u00e3o charmoso que faz a milion\u00e1ria apaixonar-se. A ladra \u00e9 t\u00e3o apaixonada, que finge renunciar ao butim. Os velhos s\u00e3o t\u00e3o pat\u00e9ticos, que tentam confinar a juventude a seus h\u00e1bitos pregui\u00e7osos. O dinheiro \u00e9 t\u00e3o fundamental que acaba ocupando um lugar coadjuvante na trama. Lubitsch nos mostra que a humanidade pode sobreviver no ambiente mais hostil e corrupto poss\u00edvel e que existe grandeza mesmo num servo (que para existir precisa renunciar a tudo) ou num lar\u00e1pio.<\/p>\n<p>O que encanta no filme \u00e9 essa sobreviv\u00eancia da emo\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio arrasado. \u00c9 poss\u00edvel encontrar representa\u00e7\u00f5es do amor em j\u00f3ias encontradas no lixo, \u00e9 poss\u00edvel recolher o produto do roubo de cima de uma cama apenas para fazer uma desfeita amorosa, jamais para se locupletar na riqueza descart\u00e1vel. O que importa n\u00e3o \u00e9 o produto do roubo, mas a viv\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o nos redutos da superficialidade, da inveja, da falta de escr\u00fapulos. O humanista Lubistch, como bom turr\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 o bra\u00e7o a torcer. Mas se trata de um sentimental, o que tenta fazer emergir de si, furando as camadas de decep\u00e7\u00e3o, a beleza do ser humano, vilipendiado por suas conting\u00eancias, mas capaz de driblar destinos e reinaugurar algo parecido com a inoc\u00eancia, que tem a mesma gra\u00e7a e o mesmo sabor: exatamente o cinema, lugar onde somos infantes, amantes, levados, galantes.<\/p>\n<p>Em Le Plaisir, Max Ophuls filma, em tr\u00eas epis\u00f3dios (ou contos) a rela\u00e7\u00e3o que pode existir entre o prazer e o amor, o prazer e a inoc\u00eancia e o prazer e a morte. Imaginem essas cenas: na igreja lotada do interior, a c\u00e2mara desce dos anjos do teto e cai sobre a multid\u00e3o em prantos, que chora de emo\u00e7\u00e3o induzida pela presen\u00e7a chorosa de prostitutas, tocadas pela cerim\u00f4nia da primeira comunh\u00e3o da sobrinha de uma delas; o campon\u00eas que se apaixona pela garota do bordel se despede dela na esta\u00e7\u00e3o, corre para seguir o trem e volta cabisbaixo, com sua carro\u00e7a carregada de flores colhidas no caminho por ela e suas amigas; na praia prateada, um pintor leva na cadeira de rodas sua esposa, ex-modelo que tentou suic\u00eddio quando foi dispensada pelo marido, agora pagando o pre\u00e7o do sua culpa e arrependimento; enquanto isso, ao fundo, o mar, a areia e as crian\u00e7as que levantam pipa comp\u00f5em um quadro surrealista de grande impacto visual.<\/p>\n<p>\u00c9 pouco? \u00c9 tudo. Do jeito que vai o cinema comercial, que n\u00e3o contrata nem sombra dos talentos que se desperdi\u00e7am no anonimato, daqui a pouco v\u00e3o come\u00e7ar a distribuir filmes que metralham as plat\u00e9ias, para garantir audi\u00eancia. \u00c9 s\u00f3 o que falta. No lugar de enfrentar a indiferen\u00e7a natural dos seres humanos com arte, talento, inova\u00e7\u00e3o, eles se entregam \u00e0s obviedades de suas sacadas marqueteiras, como se o povo gostasse de ser ludibriado. As grandes obras primas do passado, como essa duas que citei aqui, atra\u00edam o povo para os cinemas. Mas a mediocriade invejosa destruiu tudo, para que fic\u00e1ssemos \u00e0 merc\u00ea da brutalidade, sendo obrigados a considerar o que nos faz v\u00edtimas, dentro da atual l\u00f3gica do estupro, em que voc\u00ea, al\u00e9m de ser violentado, ainda tem que dizer que gosta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema, soma de todas as artes, serve para humanizar o esp\u00edrito exilado do talento (esse mist\u00e9rio da sabedoria). Imersos na barb\u00e1rie, na luta pela sobreviv\u00eancia, dedicados ao esporte de se eliminar mutuamente, vocacionados para a indiferen\u00e7a, centrados no ego\u00edsmo, os povos acumulam fome de transcend\u00eancia, que s\u00f3 o cinema pode atender. 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