{"id":632,"date":"2009-12-12T15:02:14","date_gmt":"2009-12-12T17:02:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=632"},"modified":"2009-12-21T23:32:39","modified_gmt":"2009-12-22T01:32:39","slug":"aki-kaurismaki-o-gesto-engessado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/aki-kaurismaki-o-gesto-engessado","title":{"rendered":"AKI KAURISM\u00c4KI: O GESTO ENGESSADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong>Cineasta finland\u00eas faz filmes dram\u00e1ticos hil\u00e1rios: o drama se expressa pela imobilidade do gesto, que provoca situa\u00e7\u00f5es de humor terminal, aquela risada antes do fuzilamento. Os di\u00e1logos s\u00e3o escassos, como as a\u00e7\u00f5es dentro das narrativas (que, paradoxalmente, s\u00e3o din\u00e2micas). As conversas pontuam essa situa\u00e7\u00e3o limite: \u201cSe quiseres falar consigo mesmo, fale finland\u00eas\u201d diz um dos personagens de <em>Segure seu cachecol, Tatiana<\/em>, de 1994, um <em>road movie <\/em>que toca em algumas feridas b\u00e1sicas daquela estranha nacionalidade. Parte do antigo imp\u00e9rio russo, do qual se separou depois de algumas guerras, e por muito tempo dentro da \u00e1rea de influ\u00eancia sueca, o pa\u00eds exibe \u00edndices razo\u00e1veis de qualidade de vida, mas o isolamento e a falta de sabor da sociedade finlandesa tornam-se expl\u00edcitas nos filmes de Kaurism\u00e4ki.<\/p>\n<p>Isso, claro, \u00e9 apenas um truque. O cineasta aparentemente filma a imagem que o pa\u00eds faz de si mesmo, e em conseq\u00fc\u00eancia, projeta para o resto do mundo. Mas ele \u00e9 um arque\u00f3logo e procura at\u00e9 achar, cavando na mansa mornid\u00e3o que contamina tudo, a erup\u00e7\u00e3o de gra\u00e7a, humanidade, poesia, solidariedade, medo, esperan\u00e7a dos seus memor\u00e1veis personagens, encarnados por mestres da interpreta\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a presen\u00e7a constante da professora de teatro de Helsinki, Kati Outinen, em todas as suas obras, faz dos filmes de Kaurism\u00e4ki um modelo dessa dif\u00edcil arte, pois v\u00e1 criar algo convincente sem se mexer, sem mover linhas de rosto, sem \u201cdar\u201d, sem viol\u00eancia, sem nada.<\/p>\n<p>Basta uma cena, em que Kati enfim convence o imbecil do adolescente tardio que estava muito a fim de um relacionamento. Sua personagem Tatiana conviveu com o cara dias e noites numa viagem. Ele consegue entender o ass\u00e9dio amoroso e senta ao lado dela numa parada da viagem. Kati\/ Tatiana, ent\u00e3o, vagarosamente, coloca a cabe\u00e7a no ombro dele, ao som de m\u00fasica comovente. \u00c9 de despeda\u00e7ar o cora\u00e7\u00e3o. Alta intensidade dram\u00e1tica em apenas alguns segundos. Pessoas sem a m\u00ednima chance enfim se encontram, e abrem a possibilidade de uma vida a dois.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a presen\u00e7a da m\u00fasica \u00e9 fundamental na obra deste cineasta. Bandinhas perdidas da Finl\u00e2ndia profunda, que se apresentam em palcos improvisados, pequenas orquestras que animam bailes em restaurantes, rocks estranhos do fundo do ba\u00fa, m\u00fasicos antiq\u00fc\u00edssimos tocando acorde\u00e3o, vozes obsoletas e encantadoras pousando nas cenas, al\u00e9m de performances magistrais como o solo de piano no in\u00edcio de Nuvens Passageiras.<\/p>\n<p>Kati, pr\u00eamio de melhor atriz em Cannes de 2002, por <em>Um homem sem passado<\/em> \u00e9 impressionante em todos os sentidos. A travad\u00edssima gerente de restaurante no maravilhoso <em>Nuvens Passageiras<\/em> (1996), \u00e9 um papel antol\u00f3gico. Sua seriedade, determina\u00e7\u00e3o, for\u00e7a, imobilidade, tristeza profunda fazem parte da paisagem extraordinariamente colorida, num ambiente pcit\u00f3rico over, como se o contraste de cores b\u00e1sicas fosse a exacerba\u00e7\u00e3o que falta para fazer deslanchar o gesto preso dos personagens. Trata-se de pintura exercida por um mestre: cada filme do grande cineasta \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o visual de primeira grandeza.<\/p>\n<p>Markku Peltola \u00e9 outro ator b\u00e1sico em Kaurism\u00e4ki. Em <em>O Homem sem passado<\/em> (que analisei como uma den\u00fancia do sucateamento econ\u00f4mico da na\u00e7\u00e3o provocado por esses flibusteiros que deveriam estar na cadeia, para usar a indigna\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Saramago), Markku nos conquista exatamente por n\u00e3o esperarmos nada dele. O cara \u00e9 meio troncho, desajeitado, inexpressivo, duro em tudo. Como consegue reproduzir personagens t\u00e3o diferentes quanto nesse filme, do sujeito que perde a mem\u00f3ria, e o cozinheiro alco\u00f3latra em Nuvens passageiras? \u00c9 porque interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 trabalhar inten\u00e7\u00f5es e n\u00e3o dar ou comer em cena.<\/p>\n<p>Um aspecto interessante do engessamento do gesto em Kaurism\u00e4ki s\u00e3o os di\u00e1logos decorados, que denunciam a natureza das inven\u00e7\u00f5es do roteiro. N\u00e3o s\u00e3o conversas naturais, a n\u00e3o ser que a falta de brilho das pessoas seja confundido com uma outra natureza. No curto epis\u00f3dio de <em>Ten Minutes Older (The Trumpet), Dogs have no hell<\/em> (2002), Kati e Markku fazem o jogo de cena de um casal que foge da Finl\u00e2ndia para a R\u00fassia, mas antes, por exig\u00eancia dela, ficam noivos. Eles conversam como se fosse num teatro de escola amador. Parece, mas n\u00e3o \u00e9. Kaurism\u00e4ki comp\u00f5e a artificialidade das situa\u00e7\u00f5es para deslocar a cena para a autenticidade, por mais estranho que isso possa parecer. Funciona!<\/p>\n<p>\u00c9 o que eu j\u00e1 disse sobre o faroeste: coisas que jamais acontecem e que s\u00e3o absolutamente verdadeiras. Serve para Kaurism\u00e4ki, o criador dos velhos roqueiros finlandeses bebedores de vodka e caf\u00e9 que n\u00e3o conseguem se relacionar com as mulheres; o casal que perde emprego e m\u00f3veis e acaba dando a volta por cima num neg\u00f3cio pr\u00f3prio; o cara que esquece tudo e recomp\u00f5e a vida numa outra dimens\u00e3o pessoal e coletiva; o casal que se compromete numa alian\u00e7a antes de abandonar a p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Eis Kaurism\u00e4ki, um cineasta essencial que s\u00f3 aparece por aqui em mostras de cinema e em algum ou outro dvd. Mas que deveria estar em hor\u00e1rio nobre, em televis\u00e3o aberta, para que todos possam aprender com ele, se emocionar, estranhar e viver um pouco a arte de transgress\u00e3o e talento que corre pelo mundo sem que a gente tome conhecimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cineasta finland\u00eas faz filmes dram\u00e1ticos hil\u00e1rios: o drama se expressa pela imobilidade do gesto, que provoca situa\u00e7\u00f5es de humor terminal, aquela risada antes do fuzilamento. Os di\u00e1logos s\u00e3o escassos, como as a\u00e7\u00f5es dentro das narrativas (que, paradoxalmente, s\u00e3o din\u00e2micas). As conversas pontuam essa situa\u00e7\u00e3o limite: \u201cSe quiseres falar consigo mesmo, fale finland\u00eas\u201d diz um dos personagens de Segure seu cachecol, Tatiana, de 1994, um road movies que toca em algumas feridas b\u00e1sicas daquela estranha nacionalidade. 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