{"id":635,"date":"2009-12-12T15:04:29","date_gmt":"2009-12-12T17:04:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=635"},"modified":"2009-12-21T23:01:05","modified_gmt":"2009-12-22T01:01:05","slug":"a-volta-da-palavra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-volta-da-palavra","title":{"rendered":"A VOLTA DA PALAVRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA ess\u00eancia da tirania \u00e9 interromper o fluxo do pensamento, \u00faltimo reduto da liberdade. As falas internas, as que se formam espontaneamente antes de serem expressas, s\u00e3o substitu\u00eddas pelos arremedos de linguagem. O jingle que n\u00e3o sai da cabe\u00e7a, a palavra de ordem jamais esquecida, a frase bem sacada que costura conversas, os jarg\u00f5es corporativos, os apelos pol\u00edticos, as evid\u00eancias hist\u00f3ricas: eis um conjunto perverso que habita esse v\u00e1cuo provocado pela interrup\u00e7\u00e3o do livre pensar.<\/p>\n<p>A ele se soma a poesia, que continua cumprindo o papel de adorno de luxo, de emo\u00e7\u00e3o barata, de sabedoria-minuto, como costuma acontecer no atual est\u00e1gio em que o trocadilho foi entronizado como insight esperto das mercadorias mais descart\u00e1veis, as pessoas. \u00c0 custa, inclusive das grandes obras po\u00e9ticas, que o deslumbramento sob medida transforma em lixo gra\u00e7as \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o vazia, como \u00e9 o caso do bin\u00f4mio passarinho\/passar\u00e3o. No mesmo recinto, suam os corpos ansiosos dos poemas metidos a besta, passaporte para notoriedades e at\u00e9 mesmo verbas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Esse acervo tr\u00e1gico \u00e9 o escolho trazido pela mar\u00e9 alta do capitalismo de farol, o sistema que tenta se safar ao definir como bolha o que era tido como mercado at\u00e9 a v\u00e9spera do colapso. De farol porque obriga o cidad\u00e3o despossu\u00eddo a lutar pela sobreviv\u00eancia na instabilidade dos cruzamentos, e n\u00e3o na solidez do trabalho bem remunerado. No Brasil, a ciranda financeira, que a tudo reduz a p\u00f3, se aliou \u00e0 longa presen\u00e7a de governantes apartados da cultura. Como vasos comunicantes, elas alimentam o esquecimento programado, que esvazia e reparte em postas a identidade da na\u00e7\u00e3o desconstru\u00edda.<\/p>\n<p>Contra isso se insurgem, reduzidos ao sil\u00eancio, os poetas que mergulham na poesia com a gana de romper esses diques, mesmo que o reconhecimento fique no limbo, a obra submerja no esquecimento, se confunda no excesso de ofertas da rede virtual, ou o livro tarde. \u00c9 o caso de Rubens Jardim, que lan\u00e7ou \u201cCantares da Paix\u00e3o\u201d (Artepaubrasil, 159 p\u00e1ginas), seu primeiro livro em 30 anos, um arsenal po\u00e9tico fartamente ilustrado e que vem em socorro dos que n\u00e3o se entregam \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es das falas oficiais. Apesar da auto-imagem do poeta ter sofrido o impacto da indiferen\u00e7a, tanto \u00e9 que se considera \u201cmenor\u201d (v\u00edcio da cr\u00edtica liter\u00e1ria inventado por Antonio Candido), este livro \u00e9 um conjunto de assombros.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas pelo lugar que Rubens Jardim ocupa, de fato, na literatura brasileira, desde os anos 60 ao participar como protagonista da movimento Catequese Po\u00e9tica, liderado por Lindolf Bell, que inaugurou no Pa\u00eds o evento cultural de massa em pra\u00e7a p\u00fablica. O poema manifesto, tornado tradicional pelo tempo transcorrido e resgatado agora na mem\u00f3ria impressa, \u00e9 apenas um aspecto de seu trabalho. O mais importante n\u00e3o \u00e9 sua \u201cperten\u00e7a\u201d, sua biografia po\u00e9tica, mesmo que o n\u00facleo de onde surgiu seja de cita\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. O fundamental, em Ruben s Jardim, \u00e9 o deslocamento do poema para fora da linguagem, o que \u00e9 feito com maestria, no uso da palavra conhecida e na eventual quebra sil\u00e1bica do discurso.<\/p>\n<p>O poeta reconhece: \u201cParca \u00e9 a palavra.\/ Este \u00e9 o celeiro-livro\/ na livre escolha\/ esqu\u00e1lida\/ das espigas.\u201dA colheita escassa no invent\u00e1rio do verbo sem nenhum poder empurra o poeta para longe do poema, transformando-o num catador de estilha\u00e7os, os restos de algo irrepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel reproduzir numa resenha o impacto do trecho final do livro, que homenageia o primo tragicamente morto na queda de uma janela. O t\u00edtulo \u00e9 \u201cEstrepitoso estrepe\u201d e podemos selecionar alguns momentos, sem reproduzir o design dos versos na p\u00e1gina:\u00a0 \u201cTenho velado nestes 50 anos a tua queda e n\u00e3o consigo remover do ch\u00e3o as marcas do teu corpo nem comover os degraus na escalada da tua morte. Hediondo instante. Voc\u00ea me deixou mais s\u00f3 diante do raio da rua e adiante de mim mesmo, irretrat\u00e1vel realidade\u201d.<\/p>\n<p>Um soneto admir\u00e1vel na p\u00e1gina 78 \u00e9 mais um exemplo desse jogo que ele prefere decidir na arquibancada, ou na v\u00e1rzea, enquanto o campeonato corrompe o meio do campo: \u201cToda mulher \u00e9 uma viagem\/ ao desconhecido. Igual poesia\/ avessa ao verso e \u00e0 trucagem,\/ mulher \u00e9 inicia\u00e7\u00e3o do dia,\/promessa, surpresa, miragem.\/ De nada adiantam mapas, guias,\/ cenas ensaiadas ou pilhagens.\/ Controverso ser, mulher \u00e9 via\/de m\u00e3o \u00fanica, abismo, moagem.\/ \u00c9 tamb\u00e9m risco m\u00e1ximo, magia,\/ caminho \u00edngreme na paisagem.\/Simplificando: mulher \u00e9 linguagem,\/ palavra nova, imagem que anistia\/ o ser, o vir-a-ser e outras bobagens\u201d.<\/p>\n<p>Fica estranho dizer que o poeta se coloca fora da linguagem para l\u00e1 encontrar a ess\u00eancia, a origem, o sabor, a hist\u00f3ria e, agora sim, o pertencimento da palavra. Mas essa \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o encontrada pelo talento, esse mist\u00e9rio da sabedoria. O que vale \u00e9 fazer parte de um povo e n\u00e3o de um grupo, mesmo que um seja representa\u00e7\u00e3o do outro. Misturar-se ao caos primordial onde o verbo tem a for\u00e7a da cria\u00e7\u00e3o e faz parte das rotinas \u00e9 talvez do sonho de todo poeta, um \u00e1rcade por excel\u00eancia, pois sabe que da natureza flui o poema. No conv\u00edvio com a terra, esse universo n\u00e3o liter\u00e1rio, \u00e9 que a poesia se salva. Em Jardim, h\u00e1 inclusive uma Mar\u00edlia de Dirceu: \u201cAnarda era imprevista como as provis\u00f5es, o pasto, o repasto. Prato bipartido\u00a0 Anarda se unifica: seu pr\u00f3prio rosto \u00e9 um retrato.\u201d Ou : \u201cAnarda era uma viagem dentro do tinteiro. Cor e acorde, Anarda era uma \u00e2ncora dentro do tinteiro. Antes marco e agora tra\u00e7o, Anarda \u00e9 signo, ins\u00edgnia, dentro do tinteiro.\u201d<\/p>\n<p>A consci\u00eancia de que perdemos a batalha da linguagem, que as falas impositivas imperam na paisagem da cultura em ru\u00ednas, faz do poeta um outsider inclusive de si mesmo. N\u00e3o que renegue o que fez ou tenta fazer. Mas porque insiste na busca e descobre que ao retirar-se, encontra. Nessa luta se desloca, sai para fora do mundo reconhecido. Como Jardim consegue ser um poeta do eu, como dizem, confessional a maior parte do tempo (seu grande poema para o pai expressa essa op\u00e7\u00e3o), se ele abandona a casa conhecida da poesia?<\/p>\n<p>Sua escolha \u00e9 consciente, a ruptura \u00e9 fruto de \u00e1rdua reflex\u00e3o e exerc\u00edcio. E o deslocamento acontece como resultado desse esfor\u00e7o. No livro, uma longa entrevista foi inclu\u00edda, demonstrando a complexidade de sua reflex\u00e3o. Ao se manter fiel ao trabalho po\u00e9tico, sem vislumbrar nele nenhuma utilidade, Jardim reencontra o impulso do papel do poeta, mesmo sem usar a m\u00e1scara que deveria defini-lo. Encontrar um lugar comum (de todos) fora da mesmice \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o bem ao gosto da m\u00e1xima de Torquato Neto: \u201cLeve um homem e um boi ao matadouro. Aquele que berra \u00e9 o homem, mesmo que seja o boi\u201d.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de quem se entregou \u00e0 tirania da falsa linguagem, Jardim exercitou o berro. Sorte de quem l\u00ea ou ouve: sua voz \u00e9 melodiosa, e tem a vibra\u00e7\u00e3o de uma passeata, aquele movimento coletivo de rua, que era aclamado nas sacadas da na\u00e7\u00e3o ainda esperan\u00e7osa. Com \u201cCantares da Paix\u00e3o\u201d, a palavra, que tinha sido expulsa, voltou, como se ainda fosse poss\u00edvel reinaugurar o milagre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poema manifesto, tornado tradicional pelo tempo transcorrido e resgatado agora na mem\u00f3ria impressa, \u00e9 apenas um aspecto do trabalho de Rubens Jardim, que lan\u00e7a seu primeiro livro em 30 anos, \u201cCantares da Paix\u00e3o\u201d. O mais importante n\u00e3o \u00e9 sua \u201cperten\u00e7a\u201d, sua biografia po\u00e9tica, mesmo que o n\u00facleo de onde surgiu seja de cita\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. 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