{"id":640,"date":"2009-12-12T15:14:26","date_gmt":"2009-12-12T17:14:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=640"},"modified":"2009-12-21T22:58:02","modified_gmt":"2009-12-22T00:58:02","slug":"essa-bravura-colorada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/essa-bravura-colorada","title":{"rendered":"ESSA BRAVURA COLORADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nVamos a um exemplo da mis\u00e9ria jornal\u00edstica. Saiu na Folha: \u201cNilmar acertaria pouco depois a trave em uma cabe\u00e7ada, por\u00e9m estava impedido. No outro lado, saiu gol de quem n\u00e3o estava impedido. Boselli desviou de cabe\u00e7a para o gol ap\u00f3s uma cobran\u00e7a de falta. Ele estava em posi\u00e7\u00e3o legal, mas o bandeirinha anulou o lance equivocadamente porque outro jogador do Estudiantes que n\u00e3o tocou na bola estava impedido.\u201d Quer dizer, vai escrever mal assim no Caixa Prego, seja l\u00e1 isso onde for. Em quatro frases toscas, tr\u00eas vezes a palavra impedido. Depois reclamam que n\u00e3o compram mais jornal, que sobra na banca. A conquista ontem do Internacional, sobre o Estudiantes, da Copa Sul Americana, no Est\u00e1dio Beira-Rio, em Porto Alegre, merece algo \u00e0 altura do jogo, n\u00e3o para celebrar ningu\u00e9m nem nada, mas porque \u00e9 uma chance de mergulharmos nessa cultura desconhecida, o futebol.<\/p>\n<p>Vamos pensar assim: foi, at\u00e9 o gol decisivo, na prorroga\u00e7\u00e3o, com todas as letras e terrores, um Maracanazo (aquela vit\u00f3ria fatal da cultura hisp\u00e2nica nas fu\u00e7as do Brasilz\u00e3o cheio de si). Sim, o otimismo colorado defrontou-se com a barreira argentina e quase foi tudo por \u00e1gua abaixo. N\u00e3o fosse o lance de sete toques, a hist\u00f3ria seria outra. Escrevo de mem\u00f3ria: o chute veio do escanteio, surge a cabe\u00e7ada, sobra para o atacante, que chuta sobre o goleiro, obrigado a fazer uma defesa imposs\u00edvel, quando a bola, para desespero da na\u00e7\u00e3o colorada, raspa no travess\u00e3o; mas, felizmente, ela despenca no miolo da \u00e1rea tomada pela guerra declarada, no territ\u00f3rio minado de todas as fraquezas e bravuras, no lugar onde os corpos se misturam porque se estra\u00e7alham na vontade de vencer a qualquer custo, mesmo que seja o \u00faltimo grito sobre a terra.<\/p>\n<p>Mais dois toques e pronto, Nilmar coloca para o fundo do gol. Foi \u00e9pico, foi emocionante, foi uma lavada de alma. A torcida, que tinha embarcado no buraco negro formado pela implos\u00e3o do jogo no tempo normal, desencadeou-se como uma tempestade, um tornado, um tsunami, uma inunda\u00e7\u00e3o. A mar\u00e9 vermelha sangrou na p\u00e1tria em chamas, varreu as arquibancadas e depois derramou-se sobre o campo, num choro de vit\u00f3ria que j\u00e1 se contava perdida.<\/p>\n<p>Mas como n\u00e3o tor\u00e7o atualmente para time nenhum, a n\u00e3o ser para o Uruguaiana e o Guarani l\u00e1 da minha terra, n\u00e3o vou alimentar o preconceito de que escrever sobre futebol precisa de hip\u00e9rboles e emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele. Nada disso. Quero falar sobre o Maracanazo passageiro, pois aprendi que o futebol \u00e9 jogado fora de campo. Isso mesmo. Nada a ver com psicologia de massa nem nada. Simplesmente faz parte da natureza do futebol. \u00c9 quase parecido com aquela insist\u00eancia de Parreira de que o Brasil precisa aprender a jogar sem a bola. O estranhamento fica maior quando vemos que o Brasil precisa aprender a jogar fora do campo, que \u00e9 onde se decidem os campeonatos.<\/p>\n<p>Pensem comigo. O que faz um time ser grande? O dinheiro, em primeiro lugar. Tem dinheiro rolando na grama? O patrim\u00f4nio, o n\u00famero de torcedores, a qualidade dos jogadores. Tudo isso existe antes de come\u00e7ar a partida. N\u00e3o quer dizer que n\u00e3o fa\u00e7a parte do futebol. Ao contr\u00e1rio. Isso \u00e9 o futebol. O resto, os noventa minutos, \u00e9 lance de dados, sen\u00e3o o Fluminense estaria entre os primeiros, j\u00e1 que decidiu a Libertadores e n\u00e3o, como est\u00e1 agora, na zona do rebaixamento. O Fluminense perdeu fora do campo. N\u00e3o foi o fato de dan\u00e7ar no \u00faltimo segundo. Foi dan\u00e7ar depois do \u00faltimo segundo, foi ter morrido depois daquela partida. Ou seja, depois, fora do jogo.<\/p>\n<p>Ontem, a mesma coisa. O futebol, em tese, tinha se decidido antes do jogo. O Internacional tinha a vantagem. Merecia levar a ta\u00e7a, para completar sua s\u00e9rie de trof\u00e9us. Precisava dar o troco no Gr\u00eamio, que est\u00e1 na cola do S\u00e3o Paulo na decis\u00e3o do Brasileir\u00e3o. Tudo isso muito l\u00f3gico. Ou seja, o Colorado estava jogando futebol fora do futebol. Esqueceu que os argentinos s\u00e3o craques nesse assunto (e, tempos atr\u00e1s, os uruguaios, campe\u00f5es do mundo em 1950).<\/p>\n<p>Os argentinos s\u00e3o especialistas em dar cama-de-gato no gigante. Contam com sua ferrenha unidade nacional, sua determina\u00e7\u00e3o, sua certeza de que s\u00e3o os melhores do mundo em tudo. Nada pode contra essa avassaladora cultura argentina, que est\u00e1 sempre certa, sempre dentro da l\u00f3gica, sempre acima, sempre melhor, maior e n\u00e3o sei mais o qu\u00ea. Quando perdem, sempre h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o, pois jamais abandonar\u00e3o sua natureza hegem\u00f4nica. Esse \u00e9 o lance decisivo do futebol argentino jogado fora de campo, onde se decide o futebol (tanto \u00e9 que t\u00eam mais t\u00edtulos disputados no continente). Eles se armaram para estragar a festa (pode-se argumentar: mas isso todo mundo faz; s\u00f3 que os argentinos s\u00e3o mestres desse of\u00edcio). Eles criaram uma rede de intrigas dos corpos que iriam entrar em movimento. Contavam tamb\u00e9m com a sorte, que costuma se entregar \u00e0s almas determinadas. A sorte tem medo de quem a desafia.<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre um demiurgo nessa cultura estraga-prazeres. Em 1950 foi Obdulio Varella, ontem foi Ver\u00f3n. O demiurgo chama para si a responsabilidade e atrai a falta de sorte advers\u00e1ria assumindo o papel imagin\u00e1rio de her\u00f3i. Ver\u00f3n ca\u00eda como se estivesse num filme de capa e espada, jogava para a plat\u00e9ia, o time colorado. Os brasileiros prestam aten\u00e7\u00e3o demais nos her\u00f3is advent\u00edcios, numa esp\u00e9cie de complexo de culpa compulsiva de que n\u00e3o merece ser o maior, j\u00e1 que \u00e9, de fato, o maior. J\u00e1 que o Brasil \u00e9 mais, e isso n\u00e3o \u00e9 justo, ent\u00e3o os outros reivindicam esse papel. Jogam fora do futebol. Dizem: \u201cN\u00e3o, mais somos n\u00f3s! Quer ver?\u201d<\/p>\n<p>E a\u00ed acontece a implos\u00e3o. O time, os torcedores, a cr\u00f4nica esportiva, a diretoria, todo mundo brilhava como uma supernova. De repente, diante do time advers\u00e1rio,descobriram que eram uma estrela an\u00e3, estavam prestes a implodir, cair em sim, gerar um buraco negro. E foi o que ocorreu. O est\u00e1dio murchou enquanto os argentinos celebravam o gol como se tivessem cometido um assassinato. Sorte que o futebol se decide fora do jogo. Sim, fora. Porque a prorroga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais o jogo, \u00e9 o plus, \u00e9 a oportunidade de revanche. Funciona como fresta para mundos desconhecidos, como o crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>A bola, como o sol que se recolhe, decide, no \u00faltimo minuto, desencadear uma torrente de luz. Foi a\u00ed que o Internacional voltou a brilhar. Merecidamente. Contrariou a previs\u00edvel derrota, a perspectiva dos p\u00eanaltis, entre outros pesadelos, e venceu com o que tinha em campo: a garra, a coragem, a sorte, a ins\u00e2nia. Foi assim, meus queridos abnegados do futebol, que o Colorado meteu a m\u00e3o na ta\u00e7a e Nilmar foi carregado em triunfo. Porque, no final dos 120 minutos, ficou provado que esse foi o melhor time do torneio e portanto deve, com todas as honras, sair \u00e0s ruas vestindo sua camisa vermelha.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que \u00e9: quando achamos que pegamos a embocadura do futebol, ele nos escapa e cumpre \u00e0 risca a percep\u00e7\u00e3o tradicional sobre esse jogo, um exerc\u00edcio que s\u00f3 pode ser praticado e assistido pelos esp\u00edritos livres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os argentinos s\u00e3o especialistas em dar cama-de-gato no gigante. Contam com sua ferrenha unidade nacional, sua determina\u00e7\u00e3o, sua certeza de que s\u00e3o os melhores do mundo em tudo. Nada pode contra essa avassaladora cultura argentina, que est\u00e1 sempre certa, sempre dentro da l\u00f3gica, sempre acima, sempre melhor, maior e n\u00e3o sei mais o qu\u00ea. Quando perdem, sempre h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o, pois jamais abandonar\u00e3o sua natureza hegem\u00f4nica. 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