{"id":642,"date":"2009-12-12T15:15:16","date_gmt":"2009-12-12T17:15:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=642"},"modified":"2009-12-21T23:33:42","modified_gmt":"2009-12-22T01:33:42","slug":"o-grande-sufoco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-grande-sufoco","title":{"rendered":"O GRANDE SUFOCO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O t\u00edtulo \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o livre de <em>The Big Heat<\/em>, filme de 1953 de Fritz Lang. Mas tamb\u00e9m se reporta ao crime hediondo que \u00e9 ficar \u00e0 merc\u00ea de gigantescas porcarias que s\u00e3o produzidas em s\u00e9rie pela ind\u00fastria audiovisual bandida, enquanto maravilhas, j\u00f3ias do filme noir e de todos os g\u00eaneros dormem no esquecimento ou rodam apenas na m\u00e3o dos cin\u00e9filos. Temos pouca no\u00e7\u00e3o do Mal que nos fazem ao nos apartar das obras-primas como The Big Heat, que foi lan\u00e7ada no Brasil com o t\u00edtulo de <em>Os Corruptos<\/em>. Nada mais apropriado para o Brasil de hoje: investigador honesto enfrenta a m\u00e1fia que domina os altos escal\u00f5es da pol\u00edcia e da pol\u00edtica e paga um pre\u00e7o caro para provar sua inoc\u00eancia e recuperar o cargo perdido.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de dar ficha de filme, j\u00e1 que a rede est\u00e1 a\u00ed para isso. Prefiro fazer um texto impressionista sobre o que vejo e ou\u00e7o. O filme de Lang chama-se solidez. O texto, do celebrado roteirista Sydney Boehm , coadjuvado por William P. McGivern (escritores em dupla, bem sob medida para o cinema, que \u00e9 trabalho de equipe), n\u00e3o tem as sacadas antol\u00f3gicas dos grandes filmes do g\u00eanero, aquelas ditas com um m\u00ednimo de movimento nos l\u00e1bios, rosto de metal e olhar sampacu. Mas oferece uma narrativa segura, jamais redundante, com uma l\u00f3gica encantadora e cenas que se encaixam perfeitamente numa sucess\u00e3o ascendente de suspense e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A brutalidade se manifesta contra as mulheres e tamb\u00e9m nelas. A magn\u00edfica Gloria Grahame, que faz a debochada e louca amante do gangster interpretado por Lee Marvin, atrai a f\u00faria machista ao ter uma das faces queimada por caf\u00e9 quente. Isso gera a mais brilhante fala do filme. Gloria e o her\u00f3i, o policial interpretado por Glenn Ford, est\u00e3o frente a frente, com a c\u00e2mara de olho neles, de lado. Aparece apenas a face s\u00e3 da mulher, que sugere: \u201cPoder\u00edamos viver apenas de perfil\u201d, diz, num lance de meta-linguagem hil\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nenhuma mulher do filme \u00e9 de brincadeira. A esposa do policial, Jocelyn Brando, mistura sexo e cozinha, vida conjugal tranq\u00fcila com cenas sensuais quentes, intelig\u00eancia e coragem (ela \u00e9 o par\u00e2metro para o comportamento \u00e9tico do marido).A vi\u00fava interpretada por Jeanette Nolan chantageia a m\u00e1fia e ironiza a Justi\u00e7a. E a Outra do veterano policial que se suicida, interpretada por Dorothy Green, levanta o v\u00e9u da corrup\u00e7\u00e3o com seu depoimento. Todas as quatro principais protagonistas femininas acabam mortas. Fritz Lang, o g\u00eanio homenageado por Godard em <em>O Desprezo<\/em>, n\u00e3o veio ao mundo a passeio.<\/p>\n<p>Enquanto as mulheres s\u00e3o fortes, os homens s\u00e3o uns poltr\u00f5es, com exce\u00e7\u00e3o de Bannion, o good guy (diz\u00edamos \u201cmocinho\u201d) que enfrenta todo mundo para vingar a morte da esposa. O cara que se mata, os chefes da pol\u00edcia que comem na m\u00e3o do mafioso, o brutamontes que se encarrega dos assassinatos, seu assecla que faz tudo errado, os colegas investigadores que tentam convencer Bannion de que n\u00e3o pode ficar isolado. Em Lang, o homem \u00e9 o ser adaptado, covarde e mesquinho, enquanto as mulheres jogam pesado em favor do casamento, ou do dinheiro, ou da vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Bem, j\u00e1 contei demais sobre o filme. Podem ir atr\u00e1s ou pressionem as televis\u00f5es para coloc\u00e1-lo na programa\u00e7\u00e3o (ha ha ha ha, como se isso desse resultado). Quem sabe o Programador do Tra\u00e7o, aquele cara que anda sumido e que colocava grandes filmes quando todos iam dormir, se sensibiliza. Talvez at\u00e9 o Programador do Tra\u00e7o tenha sido compulsoriamente aposentado. \u201cShane \u00e0s tr\u00eas da matina? Pirou, vamos colocar M\u00e1quina Mort\u00edfera 15, isso sim\u201d. Mas esse post ficou grande demais para o que eu queria fazer. Assim mesmo, arrisco um travelling (quem escreve sobre cinema faz travelling): vi <em>O Invenc\u00edvel<\/em>, do grande diretor indiano Satyajit Ray, de 1956, absolutamente verdadeiro e encantador. O garoto \u00f3rf\u00e3o de pai que ganha a oportunidade de estudar em Calcut\u00e1 \u00e9 uma das obras de sua famosa Trilogia Apu (nome do personagem), baseado na literatura de um escritor do in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Filme de impacto, limpo, seguro, bel\u00edssimo, com a grandeza que falta \u00e0 maioria do cinema brasileiro hoje.<\/p>\n<p>E tem tamb\u00e9m o conjunto de curta-metragens T<em>en Minutes Older &#8211; The Trumpet <\/em>(que se diferencia da s\u00e9rie <em>Cello<\/em>, com outros diretores) onde cineastas como Wim Wenderes, Spike Lee e o finland\u00eas Aki Kaurismaki (autor do maravilhoso Nuvens passageiras, que tamb\u00e9m vi recentemente) exibem sua maestria durante os dez minutos propostos. Wenders \u00e9 mestre, em pouco tempo comp\u00f5e, baseado em experi\u00eancia pessoal, uma trama audiovisual de arrebentar (o sujeito que toma sem querer uma dose de peyote e procura desesperado um hospital no deserto americano). Lee mergulha nos bastidores da derrota de Al Gore para Bush, num mini-document\u00e1rio sobre os bastidores daquele tr\u00e1gico final de campanha. E Kaurismaki \u00e9 o minimalista genial, quase um gerador de sess\u00f5es de slides, pintor absoluto do cinema contempor\u00e2neo, com um humor po\u00e9tico que ro\u00e7a o bizarro. H\u00e1 ainda Chen Kaige, que aborda a perda de identidade de uma China que pisa na tradi\u00e7\u00e3o e opta pelo consumo por meio de uma refilmagem po\u00e9tica da f\u00e1bula sobre o Rei nu: um equipe de mudan\u00e7a atende os apelos de um cidad\u00e3o que enlouqueceu e carregam m\u00f3veis e vasos imagin\u00e1rios de uma casa invis\u00edvel situada no terreno baldio que outrora abrigara um bairro.<\/p>\n<p>Mas haja espa\u00e7o para comentar tanta coisa boa. O importante \u00e9 destacar a necessidade que temos de sair do grande sufoco vendo filmes essenciais. Precisamos nos livrar do a\u00e7ougue a que nos submeteram com a difus\u00e3o da crueldade, da viol\u00eancia gratuita, do esvaziamento do esp\u00edrito, da pobreza mental, entre outros malef\u00edcios. Cinema de primeira grandeza: \u00e9 disso que n\u00f3s, o povo, gosta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o livre de The Big Heat, filme de 1953 de Fritz Lang. 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Nada mais apropriado para o Brasil de hoje: investigador honesto enfrenta a m\u00e1fia que domina os altos escal\u00f5es da pol\u00edcia e da pol\u00edtica e paga um pre\u00e7o caro para provar sua inoc\u00eancia e recuperar o cargo perdido.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/642"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=642"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/642\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1816,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/642\/revisions\/1816"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}